POESIA/CORDEL – PINTO DO MONTEIRO(*)

PORQUE DEIXEI DE CANTAR

 

 

Deixei porque a idade
Já está muito avançada
A lembrança está cansada
E o som menos da metade
Perdi a felicidade
Que em moço eu possuía
Acabou-se a energia
Da máquina de fazer verso
Hoje vivo submerso
Num mar de melancolia

* * *

Minha amiga e companheira
Eu embrulhei num molambo
Pego nela por um bambo
Para tirar-lhe a poeira
Hoje não tem mais quem queira
Ir num canto me escutar
Fazer verso e gaguejar
Topar no meio e no fim
Cantar feio, pouco e ruim
Será melhor não cantar.

 

Não foi por uma pensão
Que o governo me deu
Porque o eu do meu eu
Não me dá mais produção
Cantor sem inspiração
Tem vontade e nada faz
Afinal, sou um dos tais
Que ninguém quer assistir
Nem o povo quer ouvir
Nem eu também posso mais.

* * *

Com a matéria abatida
Eu de muito longe venho
Com este espinhoso lenho
Tombando na minha vida
Tenho a lembrança esquecida
Uma rouquice ruim
A vida quase no fim
A cabeça meio tonta
Quem for novo tome conta
Cantar não é mais pra mim.

* * *

Se ninguém envelhecesse
Eu não estava aonde estou
Velho, doente, acabado
Sem saber pra onde vou
Toda alegria que tinha
Veio o tempo e carregou.

* * *

Poeta é um passarinho,
que quando tá na cadeia,
sua pena fica feia,
sente saudade do ninho,
do calor do filhotinho
da fonte da imensidade,
se come deixa a metade
da ração que o dono bota
se canta esqueçe a nota
da canção da liberdade.

* * *

No dia que eu tenho raiva
o vento sente um cansaço
o dia perde a beleza
a lua perde o espaço
o sol transforma-se em gelo
cai de pedaço em pedaço.

 

(*) Extraído do JBF.

Compartilhe esse texto com seus contatos:

9 Responses to POESIA/CORDEL – PINTO DO MONTEIRO(*)

  1. bel Salviano disse:

    Tenho noticias do Poeta Violeiro Manoel Pedro Clemente, hoje com 91 anos, mora na cidade do Recife, já não canta mais, cego e sofre do mal de Alzheimer, mais ainda lembra de versos da sua cantoria. Possui um grande acervo de poesias que nunca foram editadas. E eu fui escolhida pela família pra buscar entre os admiradores da poesia uma ajuda pra que possamos publicar suas poesias e repentes.

    Para quem não lembra o Poeta Violeiro é compositor da mais famoso repente “Amor de Mãe”. Gostaria de saber se alguém tem algum arquivo de suas apresentações, e se pode me enviar por meio de e-mail bell_tenorio@hotmail.com.

    Agradeço a todos que puderem me ajudar,

    Poetisa bel Salviano do Planeta Poeta Cultura Nordestina.

  2. Nelbinho disse:

    Dom Pablito, mais uma vez parabens!

    Um abraço para nosso João Braúna Júnior, esse sabe das coisas. Pablito não sei se você tem conhecimento dessa passagem.
    Nosso estimado Viana Gomes, grande apaixonado pela poesia nordestina e pelo choradinho das violas, e que, inclusive foi um grande incentivador,aqui em Sanharó, dessa riqueza, dentre tantas que o Nordeste brasileiro ostenta, costumava convidar bons violeiros, no quilate de Lino Pedra Azul, Manoel Pedro Clemente, (ainda vivo e cantando), Inácio Gouveia, dentre tantos, para animar as noitadas malhadenses. Certa feita entendeu de convidar para discorrer em sua residência, o respeitadíssimo e já consagrado Pinto do Monteiro, que chegou batendo a poeira do surrado paletó e antes de desembainhar a viola foi direto ao assunto e sentenciou:

    Amigo Viana Gomes
    convoque sua senhora,
    se tiver galinha gorda
    bote prá cá sem demora
    que um filho comendo a mãe…
    quem nunca viu,
    vai ver agora”

    Abraços amigo Zé de Elza.

    • Dom Pablito disse:

      Caro Nelbinho. è sempre digo: “nessa mata tem coelho”. O amigo vive escondendo o jogo. Bota pra fora oi que tem aí e vamos prosear…Valeu a glosa tão bem relembrada.

  3. Esse é o nosso Poeta Maior PINTO DO MONTEIRO!!!
    Dom Pablito,
    Grande abraço!!!

    • Dom Pablito disse:

      Grande Ilmar. Que prazer, sempre recebê-lo aqui no nosso convívio abelhudense. Apareça mais vezes…Aproveito para dizer-lhe que estou sempre escutando seu disco no meu carro.Só tem coisa bonita…Grande poeta!

  4. Explêndido, falarmos diretamente de nossas raízes e pinto do Monteiro aborda o tema do sertão sempre em seus versos, era um poeta com uma plenitude enorme, parabéns Compadre João Roberto por vc nos fazer recordar deste artista nato que a natureza nos mandou de presente. abraços.

  5. João Roberto disse:

    Já perto de morrer, bem doente, ainda fez essa recomendação a sua esposa:

    “Velhinha, quando eu morrer
    Conserve a minha viola
    dentro de uma sacola
    e deixe o rato roer,
    barata dentro viver,
    morcego morando nela,
    o cupim comendo ela
    ela perdendo o valor
    só não deixe cantador
    bater mais nas cordas dela.”

    Depois que Pinto morreu, todo mundo é cantador.

    • Dom Pablito disse:

      Esse é o João que eu conheço. Além de ser grande poeta e cordelista é um admorador nato dos versadores e prosadores da nossa região. Pinto foi um esteio e a história da sua fama ainda vai durar muitos anos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *