POESIA – Natá Matuto -(*) – Colaboração de João Roberto Maciel Aquino.

Natá matuto

 

 

Nosso matuto, gente especiá
que passa o ano inteiro no roçado
não perde uma festa de Natá
vem dos sítios, das fazendas, povoados
vem os véios, as moças, a meninada
se arruma tudo e vem pra rua cedo
que nem formigas pelo meio da estrada
com suas trouxas de bagúi no dedo

 

Vem tudo de pés no chão
pra se carçá na chegada
de isprito e pó coração
as trouxas vem carrregada
quando tá se aproximando
da venda de Seu Migué
se acentam na carçada
pru mode alimpá os pé

As moças ajeita os vestido novo
de gurgurão, seda, popelina
e vão se misturá no meio do povo
e os véios com cuidado nas meninas
os homi vem de terno engomado
chapéu novo, manta azul ferreto
os colarim das camisa alevantado
vão direto pra frente do coreto

 

A banda já vem tocando
o seu bonito dobrado
tá todo mundo esperando
o coreto tá todo arrudiado
se assobe, pega os assento
bota instrumento na mão
enquanto o maestro Bento
manda tocá “sardade de Matão

Um bando vão logo andá
de mão dada, homi e muié
outros vão apreciá
as roda, as canoa, os carrocé,
outros vão pros botequim
beber, cuspir, sabê nutiça
conversa boa ali só chega ao fim
quando ouve o sino chamando pra missa

 

No pantamá da igreja
tem um artá infeitado
que as cumadre chega e beija
aquele artá sagrado
a despois vão se assentá
pra esperá o vigaro
as oito tão todas lá
debruiando seus rusario

Nas barracas sem coberta
tá cheio de mesa intupida
garrafa de cana aberta
tem bolo e carne cozida
se assentam e começa a prosa
e ficam em combinação
pras muié tumá gasosa
e os homi no vinho São João

 

Na geladeira do lado
a meninada de sapato apertado
mete a cara na gelada
até ficarem impanzinado
a mãe chama o filho ligeito
e diz: Otávio, vem cá
chera logo esse dinheiro
pru mode num vomitá!…

No beco do Armazém
que é o beco da mijada
se nota aquele vai e vem
de toda essa matutada
o rapaz tá na carçada
amostrando à manorada
as luz que tão pinicando
e achando a coisa engraçada

 

Despois da missa do galo
e ouvir todo sermão
vorta Zabé mais Gonçado
pelos beco ao impurrão
Cumadre Antonha Sabina
se peita com Zé Rumão
e pregunta: Viu Sulina,
perdida nessa afrição?

Tá nas hora de nós isse
vá dize a Mané Paulo
quem quisé ficá que fique,
já vimo a Missa do Galo!
e antes que eu esqueça,
chame cumadre Guducha
tire a manta da cabeça
amarre na trocha e puxa.

 

A festa tá se acabando
o dia já quer raiar
tá tudo se arrumando
pras suas casas voltá

Essa é a festa de todos os anos
festa do povo, festa sem iguá
é um consolo para os desengano
da matutada, gente ispiciá

 

Gente que fica sempre relembrando
a luz correndo no quilarão da igreja
as roda girante, os bote, os carrocé rodando
pra alegria da família sertaneja

Festa com o jeito de ser nordestino
feita com luz, cores e calor
aniversário do Jesus menino
Festa do Divino Salvador.

 

(*) – Eu vi essa poesia no Jornal Vanguarda de Caruaru, há algumas décadas. Guardei os versos de cór, mas, esqueci de guardar o nome do autor. Se algum dos leitores souber nos dar essa informação, nós agradeceremos e aproveitaremos para prestar-lhe uma homenagem pela criação dessa pérola.

João Roberto M Aquino.

Compartilhe esse texto com seus contatos:

2 Responses to POESIA – Natá Matuto -(*) – Colaboração de João Roberto Maciel Aquino.

  1. Romero Aquino disse:

    João, essa poesia é uma perfeição. Lembro que foi publicada no Vanguarda e declamada nas rádios de Caruaru, por ocasião dos festejos natalinos (Festa do Comércio)isso no início dos anos 70. Não sei quem é o autor. Na verdade nem lembrava mais de todos os versos. Por acaso fui pesqisar no google e, coincidentemente, encontrei-a no OAbelhudo. Que blog arretado!
    Abrs. Romero

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *