A POESIA DE ROBSON – Oração Sertaneja : por Robson Maciel Aquino.

Oração Sertaneja

 

 

 

Luiz Gonzaga – Luar Do Sertão
Found at Luar Do Sertão on KOhit.net

 

 

 

Meu Jesus abra bem a sua oiça
Pois, de fraca, minha voz não vai além
Já gastei todo verbo no armazém
A pedir, implorar comprar fiado
Mas o dono me olha assustado
Como se fosse eu um malfeitor
Os meus calos nas mãos não têm valor
E a pele rachada não diz nada
Minha enxada, num canto encostada,
É o retrato de tudo que sobrou

 

Me valei, meu Jesus, peço clemência
Como dói ver a terra esturricada
Meus bichinhos tombando na estrada
Todos secos, de olhar triste… sombrio
Amontoam-se onde antes era um rio
A formar a mais triste escultura
Feita a ossos de puras criaturas
Que a morte não teve compaixão
E no solo rachado do sertão
Escreveu a cruel literatura

 

Não suporto, meu Deus, olhar meus filhos
Tão confusos ao que está acontecendo
Tudo envolta, aos poucos, tá morrendo
Sem deixar um bilhete, um só recado
O seu pai nunca mais foi ao mercado
Sua mãe se definha a cada dia
Onde antes reinava a alegria
Hoje é palco de dor e sofrimento
Alivia, meu Pai, esse tormento
Me acolhe na tua calmaria

 

Me livrai, oh meu todo Poderoso!
Da mais dura e cruel humilhação
Que é você estender a sua mão
Para um outro e pedir uma esmola
Isso dói; isso fere; isso degola
Joga ao chão a decência construída
Através do trabalho de uma vida
Pela fonte da honra batizado
Nunca deixe, oh Senhor, que o meu passado
Seja casca cobrindo essa ferida

Pinte o campo de verde, novamente
Me devolva o que a seca me tirou
Minhas vacas, meu boi reprodutor
As espigas todinhas do roçado
Enche o rio e refaça o seu traçado
Arrastando pra longe as más lembranças
Alimenta, meu Pai, minhas crianças
Que há tanto não sabem o que é comer
Traz de volta a mulher do meu viver
E com ela a mais pura esperança

 

Quero ouvir o meu galo cantador
Acordar a fazenda de manhã
Sabiá, bem-te-vi, curiatã
Em orquestra, saudar o novo dia
Um pão novo chegar da padaria
Uma mesa bem farta e colorida
Com toalha de brim toda florida
Alegrar a casinha de sapê
E a família inteirinha agradecer
Pelo verde, a fé; pela comida

 

Nunca mais, oh Senhor, deixe faltar
Uma gota de água na quartinha
Uma cuia e meia de farinha
Bem guardada num saco atrás da porta
Cebolinha e tomate, lá da horta
Rapadura, toicim, arroz, feijão
Uma sela no lombo do alazão
Uns teréns pr’eu guardar alguns trocados
No curral ver crescer forte meu gado
E em mim, minha fé em oração

 

Que meus joelhos, meu Pai, sempre se dobrem
A louvar pelas graças recebidas
Pela água que é a fonte dessa vida
E o verde que dela resplandece
E por tudo a gente agradece
Mas nos livra de ter que suplicar
De tremer, toda vez que se lembrar
O que a seca é capaz de produzir
Me abençoa, Senhor, tenho que ir
Não me falte a coragem de lutar!

 

 

Autor: Antonio Robson Maciel de Aquino

Compartilhe esse texto com seus contatos:

5 Responses to A POESIA DE ROBSON – Oração Sertaneja : por Robson Maciel Aquino.

  1. João Roberto disse:

    Amém!
    Bonita oração em forma de poesia.
    Parabéns, Robson.

  2. Benito Caraciolo disse:

    Robson, parabéns. Poesia belíssima.

  3. Saudades de você, Robson!
    Belas poesias. Descreve com exatidão o cenário atual. Mas, se Deus quiser, há de melhorar a situação do nosso Nordeste.
    Abraços.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *