HOMENAGEM – O CARDEAL ARCOVERDE **- Palestra de Oswaldo Bezerra de Oliveira.*

JOAQUIM ARCOVERDE DE ALBUQUERQUE CAVALCANTI

O CARDEAL ARCOVERDE

Cardeal Arcoverde

 

Respeitáveis Confrades e Confreiras
Senhoras e Senhores
Amigos e Familiares

 

Peço vênia para dirigir estas primeiras palavras de agradecimento ao memorialista, historiador e Engenheiro Civil Dr. Leonides Caraciolo, pois acredito firmemente, que pelos seus conhecimentos da história do Cardeal, caberia muito mais ao ilustre confrade, desta tribuna, nos brindar com os seus conhecimentos históricos, do Cardeal Arcoverde. Aprendi muito com Dr. Leonides sobre a vida e obra do eminente Cardeal da Igreja Católica.

O seu minucioso trabalho de lapidador da memória dos nossos antepassados, para a história da nossa região é de fundamental importância, quando se traz à tona o passado, o presente e o futuro, pois um povo sem memória é fadado ao desaparecimento como referencial histórico. Com seu livro, assistimos ao resgate, não somente da família do Capitão Budá e de Dona Marcolina Dorotéia, sua esposa, que geraram a figura impar do Cardeal Arcoverde, mas também de todos os outros troncos genealógicos que gravitaram em torno dos Cavalcanti Albuquerque, Pacheco, Bezerra, Oliveira, Almeida, Arcoverde, entre outros.

Arcoverde do Cardeal não deixa de ser um livro “sui generis” no campo do memorialismo regional. A sua abordagem, além de criativa, é única, fazendo com que o leitor se deleite com a sua narrativa simples e direta do profissional que passa a construir sua obra através da engenharia das palavras, tornando- a de cunho verdadeiramente artístico.
O trabalho, que passarei a desenvolver,terá a participação efetiva, destas figuras que prestaram um grande serviço ao memorialismo regional, pois estarei não somente citando as suas fontes preciosas, mas servindo-me das mesmas para fazer chegar aos caríssimos ouvintes o que Leonides Caraciolo, Luis Wilson e Nelson Barbalho chegaram a nos brindar através dos seus escritos.
Com uma trajetória marcada por obras de enorme alcance social, e por cuja mediação D. Joaquim Arcoverde chegou a ser o grande luzeiro do Brasil católico, despertando as atenções das Nações Americanas, tomando posição mais que saliente na nossa Pátria, o Papa Pio X, hoje São Pio X quis dar a este país, um testemunho de sua benevolência, nomeando-o Arcebispo do Rio de Janeiro (l897) e em 1905, Cardeal Presbítero da Igreja Católica.

A Diocese de Pesqueira, particularmente, muito ficou a dever a esse grande Pastor da Igreja, baluarte decisivo de sua criação episcopal.
Do livro Velhos e Grandes Sertanejos, de autoria de Luis Wilson, da obra de Leonides Caraciolo, Arcoverde do Cardeal – A Genealogia e a Região , do escritor Nelson Barbalho da sua obra Caboclo do Urubá, sairão os indicativos que passarei a relatar sobre a figura de JOAQUIM ARCOVERDE DE ALBUQUERQUE CAVALCANTI:

“Primeiro Cardeal do Brasil e da América Latina, nasceu em 17/01/1850, na Fazenda Fundão, outrora município de Cimbres, depois de Pesqueira e hoje, de Arcoverde. Seus pais foram Antonio Francisco de Albuquerque Cavalcanti (Capitão Budá) e sua mulher Dona Marcolina Dorothéia Pacheco do Couto, ele filho de Jerônimo de Albuquerque Cavalcanti Arcoverde e Teresa de Siqueira Cavalcanti neta do português, velho desbravador da Região Centro do Moxotó e Mestre de Campo, Pantaleão de Siqueira Barbosa), e ela (Dona Marcolina Dorothéia Pacheco do Couto e de sua esposa D. Ana Antônia Cordeiro do Rego.
D. Joaquim Arcoverde, Bacharel em Letras pelo Colégio Pio Latino Americano, em Roma – Itália, para onde foi a 30/04/1866, depois de ter estudado no Colégio do Padre Inácio de Souza Rolim, na cidade de Cajazeiras (Estado da Paraiba), era ainda Doutor em TEOLOGIA, tendo sido ordenado sacerdote a 04/04/1874 na Basílica de São João de Latrão pelo Cardeal Constantino Patrizi, Vigário do Papa Pio IX. Regressou ao Brasil em 1875, indo fixar-se na Província natal, celebrando sua primeira missa, solenemente, na IGREJA DE NOSSA SENHORA DAS MONTANHAS, da tradicional vila de Cimbres, onde por algum tempo exerceu as funções de PÁROCO.
Nomeado, então, professor de Filosofia e Reitor do Seminário de Olinda pelo Bispo D. Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira. Naquela época, a Igreja estava em luta com a Maçonaria, devido a interdição da Irmandade do Santissimo Sacramento da Matriz do Bairro de Santo Antonio do Recife, aos maçons, determinada por Dom Vital e não confirmada pelo Governo Imperial, resultando o incidente na denúncia, condenação e prisão, em 1874, do Bispo de Olinda e de D. Macedo Costa, Bispo do Pará.
Tendo ainda estudado na Sorbone, em ParIs (Curso de Ciências Naturais), Dom Joaquim seria
Ainda, depois, pároco da Boa Vista, e em 1879, de Cimbres, ou na realidade , de Pesqueira, naquela época primeiro Distrito e sede daquele Muncípio). Além de Diretor do Ginásio Pernambucano, foi igualmente Professor de Filosofia, de Física e de Francês. Foi Cônego da Sé de Olinda, Professor do Colégio São Luis, em Itu, São Paulo. Foi nomeado Bispo de Goiás. No Consistório secreto de 1890. Em 1894 foi nomeado Bispo de São Paulo.
Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e autor de várias obras: A MULHER CRISTÃ, SINTESE DE FILOSOFIA E A FEDERAÇÃO CATÓLICA. Foi Cardeal Presbítero da Santa Igreja Católica Romana, por sua Santidade Pio X, no Consistorio Secreto de 11/12/1905 e era reconhecido como Principe Real no protocolo do Itamarati, na qualidade de membro do SACRO COLÉGIO PONTIFÍCIO.
Homem austero, teve, D. Joaquim Arcoverde atritos sérios e grandes foram as suas divergências com Campos Sales, quando este governava o Estado de São Paulo, sendo aliás, de salientar a nobreza do ilustre estadista, depois, Presidente da República, fazendo justiça ao antigo chefe do clero paulista e muito concorrendo para que lhe viessem às mãos o anel e a púrpura cardinalícia, tornando-se assim, SENADOR DO SUMO PONTÍFICE.
Conta-se ainda que o Primeiro Purpurado do Brasil e da América Latina, “de severidade por vezes rude, sobretudo para corrigir defeitos de seus subordinados, que se desviavam do rumo devido, protetor dos fracos e oprimidos, destemido nos combates que empreendeu contra seus inimigos que não o poupavam, salientando-se entre outros motivos, pelo respeito às ideias alheias e aos seus nobres adversários”.
Certa vez, quando o enterro de Teixeira de Freitas (Chefe da Igreja Positivista), durante o percurso do acompanhamento, passou em frente ao seu Palácio no Rio de Janeiro, o velho Cardeal ajoelhou-se e orou, num gesto de humildade e nobreza cristã, sendo fatos como esse que o fizeram respeitado e amado, inclusive por muita gente contrária ao clero.
D. Joaquim Arcoverde, Cardeal e Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro, depois de cinquenta anos de sacerdócio e trinta de episcopado faleceu naquela cidade, às 18:30 horas da Sexta-feira Santa, 18/04/1930, recebendo grandes manifestações de pesar de todo o país, às quais fazia jus pela sua alta dignidade e pelos reais serviços prestados à causa católica no Brasil.
Seu corpo jaz na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro e um busto do velho Cardeal foi erigido a 07/07/1939 no Largo da Glória, em nossa antiga capital.
Logo que se deu o desenlace, o deputado Federal Solidônio Leite, líder que era da bancada pernambucana, telegrafou à Municipalidade de Pesqueira a qual, em reunião, além de outras homenagens, deu a denominação de ‘RUA CARDEAL ARCOVERDE” À ARTÉRIA MAIS ANTIGA DA CIDADE, HOJE MODERNIZADA, ONDE SE ENCONTRAM O PALÁCIO EPISCOPAL, A CAPELA DE NOSSA SENHORA MÃE DOS HOMENS, O EDIFÍCIO DOS CORREIOS, O HOJE COLÉGIO CACILDA ALMEIDA QUE ANTIGAMENTE PERTENCIA AOS FAMILIARES DO Cardeal Arcoverde, ONDE OS MESMOS SE HOSPEDAVAM.

A missão apostólica do Cardeal Arcoverde desenvolveu-se numa encruzilhada da história sócio-política e religiosa do Brasil. De um Estado que assumia o regime de padroado, onde a religião católica era oficial, com o advento da República o Estado adota a separação entre Estado x Religião.
Dom Joaquim Arcoverde teve a tarefa, por demais difícil de fazer a transição entre o Regime Republicano Laico. O Brasão do Cardeal é de uma força abissal e demonstra de maneira insofismável a grandeza e força do seu espírito operativo e forte face às dificuldades encontradas na sociedade brasileira das três primeiras décadas do século XX.

No brasão do Cardeal está escrito : DOMINI FORTITUDO NOSTRA ;
DEUS É A NOSSA FORTALEZA
VEM DE DEUS A NOSSA FORTALEZA
O LEMA, BEM TRADUZ A SOLIDEZ DA FÉ do Cardeal Arcoverde. Traduz o seu total engajamento na luta sem trégua à missão evangélica de difusão e vivência dos ensinamentos de Jesus Cristo – daquele que através dos caminhos da Terra Santa, perpetuou uma missão de salvação, nesta existência terrena. As palavras que nortearam o Brasão do Cardeal, traduzem, muito bem, a sua energia espiritual, de baluarte da fé.

O Município de Pesqueira despontou, no decorrer do século XX como uma cidade que se destacava no cenário Estadual e Regional como um centro agregador, de cenários alvissareiros no campo econômico, educacional e religioso.

+ NO CAMPO ECONÔMICO :
No final do século XIX e início do século XX, uma próspera indústria de transformação vicejou em nossa cidade, através das Indústrias Peixe, Rosa, Tigre e outras de menor porte.
+ NO SETOR EDUCACIONAL :
A nossa cidade foi palco da fundação de três educandários, que faziam da cidade um centro de fundamental importância em nossa região :
Criação do Ginasio Cristo Rei para rapazes da região agreste e sertão de Pernambuco.
– Do Colégio Santa Dorotéia destinado à juventude feminina.
– Seminário São José dedicado aqueles jovens que se sentiam vocacionados para o sacerdócio.
+ NO CAMPO RELIGIOSO ;
– Já em 1918 era criada a Diocese de Pesqueira, inicialmente com sede na cidade de Floresta do Navio, e logo em seguida transferida para a cidade de Pesqueira.

Aqui, ao sopé da Serra do Ororubá, nesta região privilegiada, hoje formada pelos dois muncípios de Pesqueira e Arcoverde, vicejou a proeminente figura de JOAQUIM Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, que se tornaria, depois de um esforço fantástico, o porta voz de um povo, na busca do seu desenvolvimento sócio-econômico e religioso da região.

Ao ser nomeado Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro, o Cardeal Arcoverde teve que desenvolver um trabalho conjunto com as novas autoridades da República, pois pela nova legislação republicana, o ensino religioso era banido das escolas. Passou assim o Cardeal a desenvolver um grande trabalho de convivência: IGREJA X AUTORIDADES REPUBLICANAS.
Pois, ainda pairava no ar o sentimento de litígio, pois a Questão Religiosa ainda pairava no horizonte, como algo que dificultava o diálogo entre :

Ações eclesiásticas x Posicionamento Político da República

O Cardeal Arcoverde desenvolveu com maestria a máxima latina que vem das Filosofias Greco-Romanas – (Aristóteles e Tomaz de Aquino) :

‘VIRTUS IN MEDIO”

A virtude não premia os extremos, mas se posiciona sempre no meio. Os extremos excluem-se por natureza. Aristóteles e Tomaz de Aquino foram mestres no assunto. O que faz o ser humano ir em frente é o mútuo respeito entre os extremos. O Cardeal Arcoverde desenvolveu o seu “ MUNUS” espiritual numa fase delicada e de transição entre o Império e a República. Entre a Religião e o posicionamento Laico.

Encerro o meu trabalho agradecendo a todos que nesta noite aqui vieram para nos prestigiar. A saga da história do Cardeal ainda terá muito chão a percorrer.

Obrigado a todos..

TENHO DITO.

 

Autor: Oswaldo Bezerra de Oliveira. – Sanharoense do distrito Mulungu. É ex-padre e professor. Formado pelo Seminário Arquidiocesano de João Pessoa e pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

** Palestra proferida por ocasião da Ii SePla – Semana Pesqueirense de Letras e Artes, promovida pela APLA – Academia Pesqueirense de letras e Artes.

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