Crônica/Efemérides: Dr. Tonico – “esse menino de Amaro vai longe” – Por Marco Soares *

O GAROTO E O MAGISTRADO

 

(1ª praça de Sanharó. Lá no meio existia um caramanchão que todos chamavam-no de coreto. Era o ponto de bate-papos…)

 

Nos anos 1960/1970 a Praça Capitão Augusto Rodrigues de Freitas, em Sanharó-PE, , em frente à igreja matriz, era o principal ponto de encontro da cidade. Bem arborizada, bem iluminada, muitas flores, muitos bancos, um coreto realçado por plantas trepadeiras, ladeada por casarões de arquitetura antiga, era o cartão postal da cidade.

Ali se iniciavam namoros, casais desfilavam ao longo dos seus passeios, encontros de amigos eram promovidos, acontecimentos da cidade e do mundo eram discutidos, os principais eventos festivos eram realizados.

Não raro, lá apareciam figuras respeitadas da cidade, como o professor Amaro Soares e o Dr. Antônio de Pádua Caraciolo (Tonico), que se misturavam aos jovens e promoviam verdadeiras aulas ao ar livre de vivência e sabedoria. Ouvidos com toda a atenção e respeito, quase sempre só eram interrompidos para esclarecer dúvidas ou para manifestações de concordância e assentimento às suas opiniões.

Mas sempre há um dia em que algo diferente pode acontecer. Uma exceção , um lampejo ousado, daqueles que desconcerta, emudece, surpreende.

Tonico, que além de professor era magistrado, começou a tecer comentários sobre os meandros da justiça e os descaminhos que o país estava tomando. De conversa bem sustentada tecnicamente e de um humor contagiante (suponho que as aulas espetáculo de Ariano Suassuna foram copiadas de Tonico) prendia a plateia por horas seguidas em torno de suas argumentações.

Neste exato dia se insurgiu um garoto com seus prováveis quinze anos, leitor assíduo de jornais e também de revistas da época, ouvinte atento, que aproveitou uma tomada de fôlego do magistrado e sapecou: “Doutor, o problema do Brasil é a impunidade”.

Tonico ajeitou o bigode, esboçou um sorriso e devolveu: “Esse menino de Amaro vai longe” (gargalhada geral).

E saiu, como que procurando evitar polemizar ou se comprometer, sem mais nada dizer.

Quase cinquenta anos depois, pode ter mudado a praça, os bancos, os jardins; não temos mais o coreto, nem Amaro, nem Tonico. Mas o menino, que buscou estas memórias em um passado tão distante e que muito longe já foi – consideradas as suas origens – sabe que lamentavelmente algo permanece: a impunidade, que a cada dia amplifica mais os problemas do Brasil.

* Autor: Por Marco Soares  –  Marco Aurélio Ferreira Soares é sanharoense, engenheiro civil, professor, cronista, colaborador PIONEIRO do blog OABELHUDO, escritor com oito livros publicados e poeta.

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2 Responses to Crônica/Efemérides: Dr. Tonico – “esse menino de Amaro vai longe” – Por Marco Soares *

  1. MARCO SOARES disse:

    Paulinho: sua observação na legenda da foto é duplamente verdadeira. Na verdade o que existia na praça estava mais para um caramanchão (definição: treliça com trepadeiras nos jardins); mas, tive a oportunidade de ver apresentações da centenária banda musical Santa Cecília lá o que talvez justifique a nominação pela população de coreto (definição:pavilhão ao ar livre , para concertos musicais).O abelhudo, pode-se ver, é cultura, muita cultura!
    A foto foi uma escolha primorosa; a observação, mais que oportuna.

    Marco Soares

    • Dom Pablito disse:

      Caro MA. Juro a você que a postagem não saiu a contendo, pelo menos ao meu gosto. Estou AINDA com imensas dificuldades técnicas que me impendem de ilustrar as postagens como gosto. Tenho fotos de Tonico até melhores do que essa, mas não consegui cumprir meu intento.

      Dizer que a crônica é boa é pura redundância. Na realidade eu a achei – simplesmente ÓTIMA!

      (Talvez um tanto menor do que a próxima)

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