Crônica & Causo: Conversa de bar – Por Seu Rege *

Conversa de Bar

 

 

 

Dois amigos e conterrâneos encontram-se em um boteco:

-Há quanto tempo não nos vemos, até parece que não moramos na mesma cidade!
-Coisa de cidade grande. – Então, vamos tomar uma cerveja e por os assuntos em dia?
– Não estou mais bebendo cerveja!
-Quer dizer que não gosta mais da loirinha?
-Não é bem isso, o caso é que, velho vai constantemente ao banheiro, avalie tomando cerveja.
-Então, pede uma outra bebida e vamos falar sobre a terrinha.
-Meu amigo, por incrível que pareça, eu sou um estranho em minha própria terra.
-Não acontece só com você, comigo é a mesma coisa.
-Que tristeza! Veja que situação, temos vontade de visita-la e lá nos encontramos sozinhos.
-Você está ouvindo esta música que está tocando?
-Estou! Este bolero é bem antigo, é o que chamam de brega.
-Mas interessante como algumas músicas marcam a vida da gente, nos transportam ao passado e estão sempre associadas a um lugar, a uma pessoa.
-E como os sentimentos não mudam, a música nunca envelhece.
-Você parece que mudou!
-Eu não notei muito, mas as pessoas com quem convivo já notaram, mudei sim, não apenas na aparência como também no modo de pensar, de encarar a vida, bem o fato é que a minha cabeça mudou. Estou ficando velho e sempre lembrando o passado.
-É porque o passado não morre nunca.
-Você acredita que completei setenta anos e não lembro de ter vivido todo esse tempo? Tenho um amigo que só veio notar que estava velho quando ao entrar nos ônibus os passageiros se levantavam para lhe dar a cadeira. Somente com a velhice é que notamos como viver é difícil. As vezes pensamos que estamos fazendo o bem e estamos fazendo o mal e vice e versa. E como nos tornamos diferentes da pessoa que planejávamos ser.
-Na juventude sonhamos muito.
-É, sonhar é bom, mas não podemos viver de sonhos e qualquer que seja ele, não podemos esquecer a realidade.
-A esta altura da vida a única certeza que tenho é que não tenho certeza de nada.
-Veja quem está chegando? A quanto tempo não nos vemos? – Como diz o ditado popular: “até as pedras se encontram!”
-Peça uma cadeira, senta e diz o que vai querer beber.
-Vocês parecem que continuam os mesmos! – Que nada, mudamos muito, estávamos conversando sobre isso mesmo.
-Pela forma que estão sorrindo parece que estão em paz.
-Por que em paz?
-Porque dizem que é preciso paz para poder sorrir.
-Você continua um gozador! – Que nada, aprendi apenas que cada um compõe a sua própria estória.
-Você parece que ficou mais sábio?!
-É a velhice! Diz um ditado que o diabo é sabido, não por ser diabo, mas por ser velho.
-Você sempre foi mulherengo, já casou?
-Lá vem a velha conversa. Estou sem ninguém.
-Como você namorou bastante, resta o consolo de ter tentado acertar.
-Somente tive paixão! Devia ter continuado porque afirmam que o amor começa quando a paixão acaba.
-Também sei que a paixão pode levar ao amor como também ao ódio.
-Finalmente, com tanto namoro, o que você procurava?
-Ora, encontrar uma mulher sem defeito.
-É o mesmo que procurar chifre na cabeça de cavalo.
-E aquela morena, boazuda que você dizia gostar tanto?
-Deu um adeus e foi embora. – Talvez seja por este motivo que afirmam que os melhores casos de amos foram aqueles que nunca tivemos.
-Mas você está com saudade? Dizem que saudade é vontade de ver de novo. Parece que gostaria de ver a morena outra vez?
-Bem que gostaria, mas pra que ficar tentando juntar pedacinhos do amor que se acabou, nada mais vai colá-lo.
-Ao meu ver o amor é uma coisa singular. Você pode perguntar a uma pessoa: você gosta de comer feijão? Você gosta de viajar? E ela responder: mais ou menos. Porém quando se trata de amos, você não pode responder assim. Ou gosta ou não gosta.
-Bem, ninguém pode dar aquilo que não tem. E também arriscar o que não pode perder.
-Esta conversa está ficando muito filosófica.
-É a vida amigo, nunca deixamos de filosofar, todavia esta não está parecendo uma conversa de bar.
-É verdade, ainda não falamos palavrões nem contamos anedotas. – Mas a conversa está apenas começando e vai continuar. – Por falar em anedota, vocês conhecem aquela de Eva conversando com a cobra?

-Um momento! Antes de começar vamos pedir uma nova rodada porque os copos já estão vazios. Garçom, por favor uma nova rodada.

Exiba tio regi.jpg na apresentação de slides

* Autor: Seu Rege – Reginaldo Maciel é pesqueirense, economista, colaborador do OABELHUDO, cronista, contista e contador de causos…

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