Category Archives: Crônica/Conto

Artigo/Opinião: Por que Terceira Via não se Cria no Brasil *

 

 

POR QUE NÃO EXISTE

TERCEIRA VIA NO BRASIL?

 

 

O filósofo Marcos Nobre usa a expressão peemedebismo para caracterizar a relação Executivo e Legislativo no Brasil. Para Nobre, o consórcio de partidos que apoia o Executivo constrói o peemedebismo. Os membros do peemedebismo criaram a tese de que a governabilidade só ocorre caso benefícios ofertados pelo Executivo aos parlamentares proporcionem a coalizão partidária. E, por consequência, a governabilidade.

São diversos os partidos que praticam o peemedebismo no Brasil. Porém, observo exceções. PT, PSDB, DEM, PPS e PSOL não praticam o peemedebismo. O PT forma o pólo contrário ao outro pólo, o qual é formado pelo PSDB, DEM e PPS. E o PSOL é outro pólo. Independente de quem está no poder, o PSOL sempre faz oposição. Os outros partidos não formam pólos e produzem o peemedebismo. O PMDB é a agremiação partidária que melhor representa o peemedebismo.

Qual é a consequência do peemedebismo para a dinâmica eleitoral? Tenho a hipótese de que o peemedebismo impossibilita o surgimento de terceira via competitiva nas eleições presidenciais desde a Era FHC. O pólo liderado pelo PT exercia forte oposição ao PSDB na Era FHC. Nesta

Era, os partidos oposicionistas eram liderados pelo PT. Na Era PT, a partir de 2002, o PSDB lidera o polo oposicionista. Nas Eras FHC e Lula, o peemedebismo existiu, pois vários partidos integraram a coalizão. O peemedebismo também está presente na Era Dilma.

Existem dois fortes pólos eleitorais no Brasil. O polo liderado pelo PT e o polo liderado pelo PSDB. Eles se revezam no poder e na preferência do eleitorado. Sistematicamente, os pólos apresentam candidatos competitivos nas disputas presidenciais e atraem para as suas coligações outros partidos, os quais são agraciados com benefícios. Os que não integram a coligação durante o processo eleitoral poderão vir a fazer parte da coalizão governamental de qualquer vencedor.

Durante o exercício do governo, os partidos peemedebistas passam a integrar o polo do PT ou do PSDB. Deste modo, não fazem oposição e não criam as condições necessárias para apresentar candidatos competitivos nas futuras eleições presidenciais. Com a aproximação da nova disputa presidencial, os partidos peemedebistas ameaçam sair da coalizão partidária e apresentam o desejo de lançar candidato a presidente caso as suas demandas para com o Poder Executivo não sejam atendidas. Alguns têm as demandas atendidas. Outros não. E, com isto, optam por lançar candidato à presidência ou a mudar de polo.

* Autor: Adriano Oliveira – Doutor em Ciência Política. Professor da UFPE – Departamento de Ciência Política. Coordenador do Núcleo de Estudos de Estratégias e Política Eleitoral da UFPE. Colaborador do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau. Sócio da Contexto Estratégia

Artigo/Opinião: Carta a um Amigo Petista – Por Frei Betto *

 

“O governo que criou o Fome Zero decidiu por sua morte prematura e deu lugar ao Bolsa Família. Trocou-se um programa emancipatório por outro compensatório. Peguei o meu boné e voltei a ser um feliz ING, Indivíduo Não GovernamentaL…”

 

 FREI BETTO

 

 

Carta a um amigo petista

 

Meu caro: sua carta me chegou com sabor de velhos tempos, pelo correio, em envelope selado e papel sem pauta, no qual você descreve, em boa caligrafia, a confusão política que o atormenta.

Pressinto quão sofrido é para você ver o seu partido refém de velhas raposas da política brasileira, com o risco de ser definitivamente tragado, como Jonas, pela baleia… sem a sorte de sair vivo do outro lado.

A política é a arte do improviso e do imprevisto. E como ensina Maquiavel, trafega na esfera do possível. O sábio italiano foi mais longe: eximiu a política de qualquer virtude e livrou-a de preceitos religiosos e princípios éticos. Deslocou-a do conceito tomista de promoção do bem comum para o pragmatismo que rege seus atores – a luta pelo poder.

Você deve ter visto o célebre filme “O anjo azul” (1930), que imortalizou a atriz Marlene Dietrich e foi dirigido por Joseph von Stemberg e baseado no livro de Heinrich Mann, irmão de Thomas Mann. É a história de uma louca paixão, a do severo professor Unrat (Emil Jannings) por Lola-Lola, dançarina de cabaré. Ele tanta aspira ao amor dela, que acaba por submeter-se às mais ridículas e degradantes situações. Torna-se o bobo da corte. Nem a cortesã o respeita. Então, cai em si e procura voltar a ser o que já não é. Em vão.

Me pergunto se o PT voltará, algum dia, a ser fiel a seus princípios e documentos de origem. Hoje, ele luta por governabilidade ou empregabilidade de seus correligionários? É movido pela ânsia de construir um novo Brasil ou pelo projeto de poder? Como o professor de “O anjo azul”, a paixão pelo poder não teria lhe turvado a visão?

Você se pergunta em sua carta “onde o socialismo apregoado nos primórdios do PT? Onde os núcleos de base que o legitimavam como autorizado porta-voz dos pobres? Onde o orgulho de não contar, entre seus quadros, com ninguém suspeito de corrupção, maracutaias ou nepotismo?

Nunca fui filiado a nenhum partido, como você bem sabe e muitos ignoram. É verdade que ajudei a construir o PT, mobilizei Brasil afora as Comunidades Eclesiais de Base e a Pastoral Operária, participei de seus cursos de formação no Instituto Cajamar e de seus anteparos, como a Anampos e o Movimento Fé e Política.

Prefeitos e governadores eleitos pelo PT me acenaram com convites para ocupar cargos voltados às políticas sociais. Tapei os ouvidos ao canto das sereias. Até que Lula, eleito presidente, me convocou para o Fome Zero. Aceitei por se destinar aos mais pobres entre os pobres: os famintos.

O governo que criou o Fome Zero decidiu por sua morte prematura e deu lugar ao Bolsa Família. Trocou-se um programa emancipatório por outro compensatório. Peguei o meu boné e voltei a ser um feliz ING, Indivíduo Não Governamental. Tudo isso narrei em detalhes em dois livros da editora Rocco, “A mosca azul” e “Calendário do Poder”.

Amigo, não o aconselho a deixar o PT. Não se muda um país vivendo fora dele. O mesmo vale para igreja ou partido. Há no PT muitos militantes íntegros, fiéis a seus princípios fundadores e dispostos a lutar por uma nova hegemonia na direção do partido.

Ainda que você não engula essas alianças que qualifica de “espúrias”, sugiro que prossiga no partido e vote em seus candidatos ou nos candidatos da coligação. Mas exija deles compromissos públicos. Lute, expresse sua opinião, faça o seu protesto, revele sua indignação. Não se sujeite à condição de vaca de presépio ou peça de rebanho.

Se sua consciência o exigir, se insiste, como diz, em preservar sua “coerência ideológica”, então busque outro caminho. Nenhum ser humano deve trair a si próprio. Quando o faz, perde o respeito a si mesmo, como o professor de “O anjo azul”. Mas lembre-se de que uma esquerda fragmentada só favorece o fortalecimento da direita.

A história não tem donos. Muito menos os processos libertadores. Tem, sim, protagonistas que não se deixam seduzir pelas benesses do inimigo, cooptar por mordomias, corromper-se por dinheiro ou função. Nunca confunda alianças táticas com as estratégicas. Ajude o PT a recuperar sua credibilidade ética e a voltar a ser expressão política dos movimentos sociais que congregam os mais pobres e as bandeiras que exigem reformas estruturais no Brasil.

Lembre-se: para fazer a omelete é preciso quebrar os ovos. Mas não se exige sujar as mãos.

* Autor: Frei Betto    –   Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org – twitter – @freibetto – Fonte: Correio da Cidadania

Crônica/Cultura Viva: Cais do Sertão – Por Carlos Sinésio * (Exclusivo para oabelhudo)

Cais do Sertão:

beleza e riqueza cultural do interior

 

 

 

 

 

O Museu Cais do Sertão, no Recife Antigo (Cais do Porto), é um lugar único e mágico, onde o imaginário popular nos leva a viajar pelo coração do Nordeste. Sua beleza e sua riqueza cultural encantam qualquer pessoa que tenha sensibilidade suficiente para valorizar e admirar a rica cultura nordestina.

No último sábado à tarde, voltamos ao lugar para novamente apreciarmos um pouco mais a nossa cultura interiorana de Pernambuco, tão parecida com a de todo o semi-árido do Nordeste. Afinal, uma ida apenas ao local pode ser pouco para quem quer conhecer melhor, apreciar ou reviver mais algumas tradições da região.

Quem não foi ainda ao Cais do Sertão, inaugurado em abril deste ano pelo então governador Eduardo Campos, deve se programar para apreciar bastante algumas das melhores tradições do nosso povo. O museu está instalado no antigo Armazém 10 do porto, tem cerca de 2 mil m2 de área em dois pisos. Nele foram investidos R$ 97 milhões do Ministério da Cultura e do Governo de Pernambuco.

O espaço conta com uma exposição sobre o Rio São Francisco (um pequeno rio com peixes de verdade simboliza o Velho Chico). Também dispõe de estúdios de gravação e salas para quem quer se arriscar no Karaokê. Há oficinas de instrumentos musicais (há sanfona, zabumba, triângulo, violão, etc) para quem quiser fazer um som, além de discografia e parte da obra do Rei do Baião Luiz Gonzaga.

Um dos diferenciais do espaço cultural é uma sala de exibição de vídeos, onde, sentados em tamboretes de madeira, os visitantes assistem filmes sobre a vida dos sertanejos. A sala é coisa de cinema, diferente de tudo que existe por aqui nessa área. Também uma réplica de uma moradia de taipa com seus utensílios tradicionais (candeeiros, panelas de barro, fogão a lenha e a decoração característica da área rural) chama a atenção.

Para acompanhar os visitantes, um grupo de monitores bilíngues está à disposição sempre. Os ingressos custam R$ 8 (inteira) e R$ 4 (meia para estudantes). Nas terças-feiras, o museu é aberto gratuitamente das 14h às 21h. Nas segundas-feiras, o Cais do Sertão fecha para manutenção. Outras informações, é só acessar o face (caisdosertao) ou ligar (81) 3089-2974.

* Autor: Por Carlos Sinésio,  –  Carlos Sinésio de Araújo Cavalcanti é pesqueirense, jornalista, colaborador ocasional do OABELHUDO, poeta, e escritor.

Artigo/Opinião: Somos criados para a vida. Como conviver com a morte? – Por Sebastião Gomes Fernandes *

A NECESSIDADE DE SE

EDUCAR PARA A MORTE!

Uma reflexão

 

 

Richet: “Mors janua vitae”, ou seja, “A morte é a porta da Vida”… –  Heideggar encarou o problema com mais profundidade e concluiu: “O homem se completa na morte”…José Herculano Pires assim se expressa quanto à necessidade de formação educacional para a morte. “A Educação para a Morte não é nenhuma forma de preparação religiosa para a conquista do Céu. É um processo educacional que tende a ajustar os educandos à realidade da Vida, que não consiste apenas no viver, mas também no existir e no transcender”.

Hoje em meus devaneios surgiu-me um toque de leveza e desprendimento. Me vi como autêntico cristão, como que imbuído de uma forte intuição a me levar a questionar a vida!…

A morte é o que se tem como certo! Todavia temos pavor por ser este o nosso fim – aqui na Terra. Para uns este é o fim, acabou!… Para outros é o começo! Melhor dizendo o recomeço. Acredito nesta ultima concepção. Quem nasce algum dia tem que morrer. É a lei da vida. Não há como a evitar! Por outro lado temos a oportunidade de reiniciar, de prosseguir em nossa jornada em busca do melhor, no plano astral, de onde viemos.

Recomeçar porque somos espíritos criados simples e ignorantes, na peleja constante do aprimoramento! – Este o caminho de todos, mais cedo ou mais tarde. Sua brevidade e/ou longevidade vai depender da maneira como cada um investe em seu aperfeiçoamento.

Somos criados e educados para a vida, quando deveríamos também ser preparados, educados para a morte, se assim fosse à morte seria encarada com naturalidade, pois ninguém escapa deste fundamento. Sócrates condenado à morte pelo júri de Atenas assim se comportou: “eles também já estão condenados”. Sua mulher indignada se dirige a ele e diz: “Mas é uma sentença injusta!” ele pergunta: “preferias que fosse justa?” A aquiescência de Sócrates mostrava o quanto o processo educacional que cultivou durante toda sua vida, lhe proporcionou tranquilidade e paz de espírito.

Allan Kardec foi quem primeiro se preocupou com a Psicologia da Morte e da Educação para a morte. “Ele realizou uma pesquisa psicológica exemplar sobre o fenômeno da morte”. Por anos seguidos falou a respeito com os Espíritos de mortos. E, considerando o sono como irmão ou primo da morte, pesquisou também os Espíritos de pessoas vivas durante o sono. Isso porque, segundo verificara, os que dormem saem do corpo durante o sono. Alguns saem e não voltam: morrem. Chegou, com antecedência de mais de um século, a esta conclusão a que as ciências atuais também chegaram, com a mesma tranquilidade de Sócrates, a conclusão de Victor Hugo: “Morrer não é morrer, mas apenas mudar-se”.

A morte como sequência e ordenamento da vida nada mais é do que a expressão natural e objetiva da existência.

Ninguém foge da realidade. Ninguém nasce privilegiado a ponto de ser melhor do que o outro. Para cada um o Criador deixou o livre-arbítrio. Somos responsáveis, e donos do nosso destino. A morte deverá ser encarada como mais uma etapa da formação moral, ética, intelectual e espiritual do ser humano!

José Herculano Pires assim se expressa quanto à necessidade de formação educacional para a morte. “A Educação para a Morte não é nenhuma forma de preparação religiosa para a conquista do Céu. É um processo educacional que tende a ajustar os educandos à realidade da Vida, que não consiste apenas no viver, mas também no existir e no transcender”.

A vida e a morte fazem parte da nossa essência. Quando nascemos trazemos conosco a centelha que alimenta a vida. Existência que brota e vai até ao ultimo gemido, ultimo suspiro, quando tomamos consciência da nossa essência e do nosso destino. Se preparados fossemos, certamente que levaríamos uma vida mais regrada e fundamentada na expectativa e na esperança de ao regressarmos estarmos conscientes da nossa progressão e crescimento espiritual. Este o propósito de Deus para com seus filhos.

Heideggar encarou o problema com mais profundidade e concluiu: “O homem se completa na morte”. Aquilo que para Sartre parecia o fim definitivo, para Heideggar é o rompimento da existência para lançar-se na transcendência. Isso concorda com as aspirações humanas em todos os tempos e com a afirmação de Richet: “Mors janua vitae”, ou seja, “A morte é a porta da Vida”. Temos assim definido aquilo que constitui realmente o fim da Educação, o seu objetivo único e preciso.”

Acho que a vida só tem sentido se levarmos em consideração o propósito do grande Arquiteto do Universo – vida e vida em abundância! Toda criação de Deus tem como base a preservação e a unidade do ser humano, sua imagem e semelhança. Jesus Cristo, mentor do progresso espiritual e do bem-estar da Humanidade. Cumpriu sua missão deixando o seu testemunho de amor e caridade: O Evangelho!

Pesqueira, 15 de novembro de 2014.

* Autor: Sebastião Gomes Fernandes, Sociólogo, Escritor, Poeta e Cronista, colaborador assíduo do blog OABELHUDO,  Acadêmico titular e presidente da Academia Pesqueirense de Letras e Artes – APLA.

Movimento Cultural/Crônica: Mandacaru tem Flor * – Colaboração de Fátima Canejo

MANDACARU TEM FLOR

“Mandacaru tem flor, é vermelha, é azul, é uma cor de toda cor a flor do mandacaru. Quando chove é jardim, mas se chuvisca brota enfim o que mais parece jasmim. Na ensolarada dos dias, em meio a lamentos e agonias, ninguém mais enxerga a flor na dor do mandacaru.”

 

 

 

 

Mandacaru tem flor. Floresce mandacaru!

Tanta sina, tanta vida, tanto destino de desalento e solidão, esperança petrificada desse sertão. Povo faminto, povo tão nu, esperando a flor do mandacaru.

Tempo aberto, sol escaldante, calango passando, cobra sumindo debaixo da macambira, um tatu e um preá, tudo nesta vida e nela tudo que há. Nas pedreiras o urubu, espante o bicho mandacaru!

Alvorece, vem o dia, a tarde chega escaldante, um entardecer num rompante caminhando para o anoitecer. Tudo passa sempre assim, sem revoada ou pio de passarim, sem nuvem ao norte, sem nuvem ao sul. Floresce mandacaru!

Maria foi passear, tomou o destino do mato, cortou vereda e caminho, pisou em ponta de pedra, pisou em ponta de espinho, mas seguia sem destemor tentando encontrar a flor. No cansaço que chegou, sentou no chão e chorou, queria apenas a flor, a cor do mandacaru!

Gavião ronda a magreza, urubu vem rastejante, imagina que num instante o bezerro vai cair, o bezerro vai morrer, e a carniça a lhe sorrir. Enquanto a morte não vem, enquanto a danada não grita, o carnicento faz seu voo e pousa no mandacaru. Os olhos avermelhados na flor do mandacaru!

Menino sertanejo danado, traquina de descampado, quando se vê aperreado corre pro mato em fuga. Como não tem com o que brincar, pula e pega o sol com a mão, e nele dá um chutão rumo ao mandacaru. A ponta do espinho no sol explode em girassol, a flor do mandacaru!

Mandacaru tem flor, é vermelha, é azul, é uma cor de toda cor a flor do mandacaru. Quando chove é jardim, mas se chuvisca brota enfim o que mais parece jasmim. Na ensolarada dos dias, em meio a lamentos e agonias, ninguém mais enxerga a flor na dor do mandacaru.

Depois da molhação da trovoada, enchendo tanque, alagando estrada, a caatinga se transforma. Faz festa a bicharada, a mata toda animada louvando a graça divina, e o mandacaru com a sina de agradecer ao Senhor. Abre os braços numa prece, em cada lado uma flor!

Sertanejo agoniado, catando comida pro gado, corta palma e capim, corta mato e o que encontrar, num desespero sem fim. Desce o machado em tudo, derruba até aroeira pra fugir da desgraceira que é a fome do bicho. Só não corta o espinhento, altivo e arreliento, a flor do mandacaru.

A Velha Sinhá se alevanta, mija em riba da planta que é pra ela não morrer. Depois abre a porta da frente, já sentindo o bafo quente do sol mais perto da terra. Eleva a Deus uma prece, numa fé que não esmorece, desejando boa sorte. Ergue o olhar para o norte, no piado da nambu, e os olhos pensam avistar uma flor no mandacaru!

* Autor: Rangel Alves da Costa – Editor do blogspot Ser tão Sertão – Escritor, cronista  e poeta – http://blograngel-sertao.blogspot.com.br/

Pesqueira/Canetadas: Para Micheline…Minha Filha… – Por Jurandir Carmelo *

CANETADAS

Para Micheline, minha filha

 

 

 

 

 

Pesqueira/PE, 12/11/2014 > Canetadas (Por Jurandir Carmelo. Não pensei que voltasse a escrever as minhas canetadas)

 

Para Micheline, no aniversário de um (1) ano da sua careca, ocorrido ontem... O tempo passa, caminha em frente. Era uma tarde de novembro de 2013, pelas 16 horas, exatamente do dia 11. É passado, portanto, um ano. Gilcéia e Eu chegávamos à casa de Micheline, onde a encontramos cabisbaixa, no início das sessões de quimioterapia, com uma expressão de tristeza que nos bateu alma e coração. De repente, Ela coloca as suas mãos nos seus cabelos e as faz escorregar. Abre-as, e as estende para frente. Estão as suas mãos cheias de seus claros e lisos cabelos, e exclama: “Meu Deus, já perdi os peitos, agora vou ter que perder os cabelos…”. Bateu forte, muito forte! Dessa vez quase que não seguro as lágrimas, o choro. O coração apertava, a alma parecia ter sumido, as pernas tremiam, era uma verdadeira situação de tragédia.

Pedi a Deus: Ajuda-me senhor, salva a minha filha… Ela precisa de forças e Eu estou fraco. Mostra-me um caminho. Passei pouco tempo com ela, diante a situação que se nos apresentava. Disse à Gilcéia: vamos embora! Seguimos direto para casa, segurando choro, lágrimas, pernas, buscando abrandar alma e coração.

Chegamos em casa… Aí não segurei mais, nem pernas, nem choro, nem lágrimas, nem emoção, nem tristeza, nem nada. O coração batia apressado, querendo pular, sair, parar, sei lá! De repente, sento-me à mesa e peço a Gilcéia: Por favor, coloque-me uma dose de uísque dupla, sem gelo, sem nada. Gilcéia pergunta: você vai beber... Lembrei do velho Lunga: não, vou lavar o rosto... Sentado á mesa virei o uísque… o danado desceu queimando.

No início destas notas, quem a ler, vai perceber que eu afirmei, pedindo a Deus: “ Ajuda-me senhor, salva a minha filha...”. Ela precisa de forças e Eu estou fraco. Mostra-me um caminho… Ainda à mesa, já mais calmo (O uísque é de um efeito impressionante nesses momentos… CALMANTE MESMO). Com a segunda dose já posta, com gelo dessa vez, abro a minha agenda e me deparo com o cartão de visita do meu amigo e cabelereiro José Aluízio, o Ivo Cabelereiro. Foi Deus quem mandou, com certeza. Tanto assim, que exclamei repetidas vezes, em voz alta: Obrigado meu Deus! Obrigado meu Deus! (…)

Gilcéia, olha para mim, sem nada entender, e diz: o que foi, você está mais corado, graças a Deus. Ligue para Ivo e peça a ele para vir aqui agora, trazendo a máquina zero… Pouco minutos chega Ivo, com a sua máquina zero. Diga doutor?… O que houve? Passe a máquina, tire tudo, não quero um fio de cabelo na minha cabeça… E assim foi. Tão logo terminou, levanto-me da cadeira, aí senta-se Gilcéia. Ivo, vamos cortar o meu também… Dona Gilcéia, Eu não trouxe as tesouras, etc. Não dá para fazer o seu cabelo agora. Como é comum às mulheres, elas só pedem uma vez, na segunda oportunidade, as danadas mandam, ordenam… Dona Gilcéia, o seu cabelo… Passe a máquina Ivo... E Ivo passou a máquina, deixando-a, igualmente, careca. Foi um grande alívio que senti, algo que vem de Deus quando com ele nos encontramos, quando nele cremos… Mas, o gesto maior, no caso, não foi meu, enquanto Pai, foi da Gilcéia, minha companheira e boadrasta, como as meninas a chamam …
Animado por ter encontrado uma maneira de chegar perto de Micheline com uma resposta para aquele instante que ela estava vivendo, tomei mais uma de uísque e descemos, Gilcéia e eu…

OS MÓRMONS…

Havíamos deixado a casa de Micheline e Flávio, algumas horas antes… A diferença de tempo, apenas os cortes dos cabelos e as doses de uísque… O carro para em frente à casa deles… Descemos e batemos na porta… Ouvimos Micheline dizer, ainda, com a voz embargada: “Flávio vê quem é? Ele olha pelo olho mágico e diz: Acho que é aquele pessoal dos MÓRMONS… É um casal de carecas… Abre, veja o que é? Quando Flávio abre, ele não nos reconheceu, mas Micheline foi logo dizendo: “Meu Deus, ficaram doidos... “Gil, teu cabelo...”. Nos abraçamos e aí eu chorei, pela primeira vez eu chorei na sua frente… Vimos, Gilcéia e eu a mudança no semblante de Micheline… Surgiu uma força dentro dela… Disse-lhe: O seu cabelo vai cair, mas vai crescer de novo, porque você vai se curar… Deus é Grande, não vai nos faltar...

Ela não esperou cair, resolveu passa a máquina. E aí está ela, vencendo e vencendo, melhor dizendo, segundo os seus médicos, venceu o câncer. Venceu o câncer de mama sem fechar o seu escritório de advocacia, participando das audiências, trabalhando os processos, redigindo as suas petições, atendendo aos seus clientes, cuidando da casa, do marido Flávio, da filha Valentina… E o mais bonito de tudo: fazendo palestras, dando entrevistas, lutando contra o câncer de mama. Passando lições às mulheres, com cuidado, com carinho, com amor, com valentia, afirmando sempre da necessidade de que cada uma se TOQUE. Se TOQUE e procure o médico… Que lindo minha filha…. Parabéns! Nós te amamos!

* Autor: Jurandir Carmelo –  Jurandir é pesqueirense, advogado, colaborador assíduo do blog OABELHUDO, cronista, e defensor intransigente coisas e causas da sua Pesqueira. É acima de tudo – bom pai…

Artigo/Opinião: Que tipo de Idiota merece o Troféu “Seu Lunga”? *

 

Troféu “Seu Lunga”!

Quem se habilita?

 

(Seu Lunga – Joaquim dos Santos Rodrigues, cearense do Juazeiro do Norte)

 

Existem os inofensivos e os de alta periculosidade, estes, em geral, ativos, influentes, imodestos. Aliás, alguém já disse que, atualmente, “o idiota perdeu a modéstia” o que é um corolário da constatação genial de Nelson Rodrigues: “O grande acontecimento dos nossos dias foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”.

Um dos meus dez fieis leitores, ou seja, 10% deste vasto universo, me cobrou: “Como é cara? Não escreve mais?”.

De fato, resolvi dar um tempo diante do bate-boca eleitoral e do furor analítico que tomaram conta da mente e do coração dos brasileiros. Afinal, nada acrescentaria ao acalorado debate, não poucas vezes, contaminado pelo veneno da ofensa.

Enquanto a pauleira corria solta, não sei por quê, uma súbita associação de ideias me fez refletir sobre o idiota. Talvez, uma autoanálise que me denunciava como o próprio idiota.

Que tipo de idiota? Eis uma questão pertinente (no meu caso, deixo o enquadramento a critério do leitor). Com efeito, a palavra idiota, desgarrada da origem grega (pessoa leiga, o homem privado face ao homem público) e do diagnóstico psiquiátrico, tem dois significados.

De um lado, o significado inspirado no personagem central da obra canônica de Dostoiévski, O Idiota, na qual o príncipe Michkin é criatura benevolente, generosa, ingênua, portadora de pureza e de compaixão reveladoras de um ser inadaptado ao mundo perverso; de outro lado, está o significado corrente que empresta ao idiota uma cesta de sinônimos, entre os quais, estão: cretino, tolo, pateta, palerma, parvo, abobalhado, abilolado, energúmeno, estúpido, leso, mentecapto, banana, bocó, desmiolado, pato, mané, etc.

Ora, diante desta amplitude, quem não cometeu idiotices, atire o último sinônimo! Cuidado, é pecado, diz a Bíblia, atribuir ao próximo a pecha de idiota.

Assim sendo, é preciso identificar tipos: existe o idiota ocasional e o idiota fundamental; o idiota, pessoa física, e o idiota coletivo, o maria-vai-com-as-outras, a massa, o rebanho, a manada, a multidão, o consumidor, o torcedor, o eleitor. Todos, vulneráveis à manipulação.

Existem os inofensivos e os de alta periculosidade, estes, em geral, ativos, influentes, imodestos. Aliás, alguém já disse que, atualmente, “o idiota perdeu a modéstia” o que é um corolário da constatação genial de Nelson Rodrigues: “O grande acontecimento dos nossos dias foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”.

E o que tem “Seu Lunga” a ver com isso? Seu Lunga, Joaquim dos Santos Rodrigues, cearense, residente em Juazeiro do Norte, estabelecido no ramo do comércio de sucata, tornou-se conhecido como o homem mais ignorante do país, rude, grosso que nem papel de embrulhar prego e, sobretudo, implacável combatente da idiotice.

Seu Lunga fica arretado quando contam suas histórias. Diz que é mentira. Não adianta. Virou verdade. São tiradas saborosas. Aí vão algumas: Seu Lunga estava coçando a cabeça por cima do chapéu. Aí um cara perguntou: “Seu Lunga, por que não tira o chapéu?”

Seu Lunga, rápido no gatilho: “Você tira a calça pra coçar a bunda?”. Seu Lunga estava sentado no ônibus e, ao lado, o lugar vago, aí o cara perguntou: “Seu Lunga tem alguém sentado do seu lado?”. “Se tem, tô cego. Num tô vendo”. Seu Lunga ia saindo de casa e deu de cara com o vizinho. “Bom dia, Seu Lunga, para onde vai tão cedo”.Vou pro enterro do Chico”. “E Chico morreu”. “Não. A família se reuniu e vai enterrar Chico vivo mesmo”.

Seu Lunga levou o carro pra oficina. O mecânico perguntou: “Seu Lunga esse carro ronca”?
“Sei não. Ele dorme na garage”. Um amigo encontrou Seu Lunga: “Nunca mais vi o sinhô.
Por onde o sinhô anda?”. “Pelo chão mesmo. Ainda não aprendi a voar”.

No dia da eleição, Seu Lunga, abusadíssimo, foi votar. A jovem mesária perguntou: “Veio votar, Seu Lunga?”. “Não. Vim doar sangue para o bem do Brasil”.

Por essas e outras, foi instituído o troféu “Seu Lunga”, um prêmio para as pessoas que, a exemplo dele, contribuem para reduzir a Taxa de Idiotice Nacional – TIN. Conte sua história e envie para o seguinte endereço: bradoretumbante@giganteadormecido.com E fique tranquilo. A Comissão Espertobras julgará, com decência e isenção, os casos apresentados.

Gustavo Krause

 

* Autor: Gustavo Krause  –  Professor Titular da Cadeira de Legislação Tributaria, é ex-ministro de Estado do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal, no Governo Fernando Henrique, e da fazenda no Governo Itamar Franco, além de já ter ocupado diversos cargos públicos em Pernambuco, onde já foi prefeito da Capital e Governador do Estado.

Artigo/Opinião: Inquietações Brasileiras *

 INQUIETAÇÕES

BRASILEIRAS

 

 

(Manifestação em são Paulo, no sábado, dia 1 de novembro. "A interpretação de um evento social é uma hipótese")

As manifestações ocorridas durante e após a campanha presidencial de 2014 sugerem diversas interpretações sobre o Brasil contemporâneo. A primeira interpretação é que o forte desgaste da presidenta Dilma Rousseff é a causa das manifestações. A outra é que as manifestações atuais contrárias a presidente são inéditas na História do Brasil.

A interpretação de um evento social é uma hipótese. Portanto, passível de falsificação ou comprovação. Nesse sentido, observo que a primeira interpretação é falsa. As pesquisas de opinião após as manifestações de junho de 2013 mostraram que a avaliação do governo da presidente Dilma declinou fortemente. Porém, no decorrer da campanha eleitoral, a avaliação aumentou.

Além do aumento da aprovação popular, o resultado da eleição, ou seja, a reeleição da presidenta Dilma, mostra que a sua rejeição não foi suficiente para impedir o seu sucesso eleitoral. Portanto, não posso afirmar que existem fortes turbulências no eleitorado, as quais representam o desejo da maioria ao impeachment da presidente Dilma.

As fracas manifestações contra o governo Dilma sugerem que os desafios econômicos e sociais presentes na conjuntura atual precisam da resposta da presidente. Caso ela não suja de modo satisfatório é possível que as atuais manifestações atraiam mais manifestantes e, por consequência, turbulências fortes no eleitorado ocorram. Tais turbulências podem motivar crises entre presidência e Congresso Nacional.

As manifestações atuais não podem ser consideradas inéditas. As eras Vargas, Goulart e Collor foram recheadas de crises. Neste instante, tenho incentivos para fazer a seguinte indagação: o que motiva as manifestações atuais? Desejo de ir além do lulismo, perda de renda e de privilégios das classes A e B e incômodo social são as aparentes causas.

As classes D e C não desejam perder os benefícios da era Lula. E também desejam mais, em particular a classe C. Neste caso, sonham em adquirir mais poder de consumo e privilégios da classe média tradicional. Marcio Pochmann, no livro O mito da grande classe média”, mostra que o aumento da renda ocorreu fortemente, durante a era Lula, nas classes C e D. Mas tal fenômeno não ocorreu fortemente nas classes A e B, ou seja, na classe média tradicional. O aumento do consumo das classes D e C proporcionou a alta de preços, em particular no setor de serviços, com isto, as classes A e B podem ter sentido perda do poder de compra.

O incômodo social significa a inquietação de parte de membros da classe média tradicional com indivíduos das classes C e D que frequentam aeroportos, churrascarias e pizzarias, por exemplo. Estes recintos eram espaços típicos da classe média tradicional. Hoje não são mais. O aumento da renda familiar nas classes C e D e a nova legislação para as empregadas domésticas contribuíram para a diminuição da oferta de “empregadas” e “babás” para a classe média tradicional. Tal fator também provocou incômodo social de parte da classe média tradicional com as classes C e D.

 

Adriano Oliveira

 

* Autor: Adriano Oliveira é professor e cientista político. Doutor em Ciência Política. Professor da UFPE – Departamento de Ciência Política. Coordenador do Núcleo de Estudos de Estratégias e Política Eleitoral da UFPE. Colaborador do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau. Sócio da Contexto Estratégia

* Professor Adriano Oliveira e e Cientista Político.

Pesqueira/Crônica: Saudade! Como ficam os exilados? – Por Seu Regi *

Crônica para um exilado

Crônica de memórias (Seu Regi)

 

Nos anos 50/60, o mundo foi palco de grandes transformações em tosas as esferas, principalmente na área cultural de todas as classes sociais. Foi a época da contra-cultura, o reinado da minissaia, da revolução hippie, dos Beatles, jovem guarda, do vestido tubinho e tomara que caia, da calça boca de sino e do rock and roll. Naquela época, apesar dos precários meios de comunicação, pesqueira foi paulatinamente arrastada pelo movimento e embora atrasada, aderiu à onda. Coincidentemente, a minha geração saindo da adolescência, sem noção do mundo real, foi sendo introduzida nos meios sociais, em que a princípio se sentia um estranho em um mundo em que antes tudo lhe era proibido.

Era uma rapaziada tímida uma vez que haviam sido educados a não participar das conversas dos mais velhos e que menina brincava com menina e menino se relacionava apenas com menino. Entretanto essa abertura fora como se estivesse levantando as cortinas de um teatro antes inacessível, em que ele era convidado a participar. O mais interessante é que passamos a observar as meninas com outros olhos e notar que aquelas que havíamos conhecido brincando de roda haviam se transformado e agora tinham um corpo de mulher. Algumas ficaram bonitas, outras nem tanto, porém todas alegres, sedutoras e perigosas uma vez que haviam se tornado caçadoras de possíveis maridos. Mas na verdade era a natureza procurando dar continuidade à espécie humana. Apesar desse deslumbramento, começamos a ver os nossos sonhos juvenis se desmoronando e passamos a conhecer sentimentos inusitados, mas que iriam nos acompanhar por toda existência, como a paixão, o amor, o ódio,sem considerar as decepções.

Contudo, a vida transcorria normalmente, já havíamos aderido à vida social, já havíamos concluído o curso ginasial, servido ao TG-171, quando estimulados pela família, nos deslocamos para o Recife a fim de fazer o curso científico e posteriormente um curso superior. O motivo alegado: a terrinha não oferecia um futuro promissor. Assim, deixando para trás a família, os amigos, as namoradas, as festas e finalmente tudo aquilo que estávamos familiarizados, para enfrentar um mundo desconhecido. Foi quando passamos a tomar conhecimento de mais um sentimento: a saudade. Acredito que foi o pior de todos.

Os primeiros meses foram terríveis, sentíamos que estávamos sozinhos, faltando tudo e só a perseverança nos fazia ficar, coisa que alguns não resistiram, abandonaram tudo e voltaram à terrinha. Na capital, alguns ficaram hospedados em casas de parentes, porém a maioria foi direcionada a “Casa do Estudante de Pernambuco”, onde fazíamos apenas as refeições e por isso éramos chamados de “xepeiros”. Na realidade morávamos em pensões localizadas na Rua Paissandu quando confraternizávamos com colegas de diversas cidades do interior e formávamos um grupo unido, capaz de enfrentar as adversidades.

Diante da dificuldade de comunicação com a terrinha, os pesqueirenses radicados na capital, se reuniam impreterivelmente, a partir das l9 horas na cabeceira da ponte Duarte Coelho, em local conhecido como ”quem-me quer” que funcionava como um consulado e ali tomávamos conhecimento do que havia ocorrido em Pesqueira na semana anterior.

Todavia, o tempo passou, muitos concluíram o curso superior em diversas profissões, alguns apenas arrumaram empregos, e agora, já idosos, lembram com saudade daqueles tempos difíceis e das aventuras e brincadeiras que só acontece na juventude. Agora quando nos encontramos e recordamos histórias que fazem lembrar outras e vão surgindo outras que já havíamos esquecido, muitas vezes com amigos que já se foram, mas que deixaram saudade.

Finalmente esta crônica é dedicada a todos aqueles que pelos mais diversos motivos, não retornaram à terrinha e que por este motivo se sentem exilados, guardando a lembrança de uma cidadezinha, pequena, mas aconchegante em que cada casa tinha um nome: o nome da família pesqueirense.

Fica, entretanto, a pergunta: será que existe vida imbecil em outros planetas?

Exiba tio regi.jpg na apresentação de slides

* Autor: Reginaldo Maciel é pesqueirense, economista e um “exilado” incidental…Colaborador do OABELHUDO.

Crônica/Homenagem: O Reencontro – O 25º – Por Walter Jorge de Freitas *

O REENCONTRO 

 

 

 

Aproxima-se mais uma FESTA DO EX-ALUNO. Para quem gosta de emoções, não há melhor oportunidade para vivenciá-las com tanta intensidade como esses momentos de saudosismo puro que o reencontro nos proporciona.

Iniciado há 25 anos, com a finalidade de trazer de volta ao convívio, apenas ex-alunos do Ginásio Cristo Rei, o evento foi tomando corpo e despertando o interesse de ex-alunos de outros educandários e o resultado está aí: adesão maciça e espontânea dos pesqueirenses e pesqueiristas hoje espalhados pelos mais longínquos recantos do país.

Se nós que jamais saímos daqui, sentimos satisfação em rever os amigos de ontem, os que voltam, certamente, experimentam outro tipo de emoção: pisar o solo da terra que lhe serviu de berço ou acolheu, rever amigos, parentes, constatar as mudanças impostas pelo tempo e pela ação dos que tiveram a missão de governá-la com erros e acertos, mas todos imbuídos do desejo de torná-la melhor.

Não importa o fato de não sermos mais os mesmos no tocante ao aspecto físico. As cabeleiras já não são tão vastas como antes; os rostos estão marcados pela ação impiedosa do tempo e as pernas já não caminham no ritmo e firmeza dos tempos de juventude. Estamos todos bem diferentes daqueles moços e moças de andar faceiro, charmoso, atraente e provocador de suspiros.

Os corações – antes maltratados pelas cargas emotivas a que foram expostos –, por certo não têm tanta impetuosidade para novas empreitadas. Agem com mais cautela.

Amores incompreendidos, deslizes cometidos na juventude, repercutem hoje no jeito de ser, de falar e até nos ensinaram a encarar aventuras ou amizades com mais prudência, compreensão e de forma mais seletiva. Dizem que estamos mais experientes. Ainda bem! Adquirimos um novo tipo de beleza: A BELEZA INTERIOR, que só o tempo é capaz de nos mostrar o seu real valor.

De uma coisa, devemos nos convencer: tudo foi válido. Por isto, podemos comemorar cada momento desse período festivo que vamos vivenciar, abraçando os conhecidos, os desconhecidos, ex-colegas, ex-amigos (as), ex-namorados (as) e todas as pessoas que tivermos oportunidade, pois só assim, a festa será completa e cada um de nós se sentirá recompensado por renovar e conquistar amizades. Existe coisa melhor?

Lembremo-nos de que são poucas as cidades que têm esse privilégio de receberem os seus filhos todos os anos para uma confraternização.

Não nos esqueçamos dos ausentes. Àqueles que “partiram”, dediquemos as nossas preces. Para os que não puderem comparecer, procuremos fazer com que se sintam presentes, mandando notícias, fazendo com que a saudade adentre aos seus corações provocando alegrias, em vez de tristezas, despertando a incontida vontade de voltar, tão logo seja possível.

 

Pesqueira, outubro de 2014.

* Autor; Walter Jorge de Freitas é pesqueirense/pesqueirista, comerciante, professor, colaborador do blog OABELHUDO, cronista, poeta e pesquisador musical.