Category Archives: Efeméride/Memória

Canetadas/Homenagem: Luiz de Oliveira Neves: “Luiz foi rei, foi rei…” – Por Jurandir Carmelo *

CANETADAS

Luiz de Oliveira Neves. Prefeito, deputado estadual. Um ídolo dos pesqueirenses

Luiz de Oliveira Neves. Prefeito, deputado estadual. Um ídolo dos pesqueirenses

capa do livro Cacua de lembrnças

Hoje recebi a visita do amigo-irmão de infância, Walter Luiz de Araújo Neves, ou simplesmente como é conhecido, ainda hoje, Walter de Luiz Neves. Nossa amizade, juntamente com os meus irmãos Paulo e Lídio foi construída a partir de nossos saudosos pais, Paulo de Oliveira e Luiz Neves…

Foi um recordar da nossa infância e adolescência. Em casa ouvimos o CD do amigo Zé Luiz, que será pré-lançado no próximo sábado no “Bar e Restaurante Mistura Pernambucana”, do nosso amigo Iron Bispo e da minha prima Paula, no Shopping Rosa, antiga Fábrica Rosa, pelo meio-dia.

Folheamos algumas páginas de livros de autores pesqueirenses, e Walter se emocionou quando recitei para ele o poema intitulado “LUIZ NEVES” (Luiz foi Rei, foi rei…), de autoria do poeta mais poeta de Pesqueira, o amigo, conterrâneo e contemporâneo Laurene Almeida, autor de diversos livros, um de conto: “A MORTE DE ANTONIO PACHECO E O GANGARRO MIRABEAU (Editora Ororubá – 1998); um de poesia: “PESQUEIRA VERSOS UNIVERSOS”, Editora Bagaço – 2002); e o mais recente: CULINÁRIA DA FOME (A necessidade tem cara de herege ( Editora Lucigraf – Recife/2012).

Leiam a baixo o poema, extraído do seu Livro “PESQUEIRA VERSOS UNIVERSOS” > (Laurene Almeida, páginas 146/147. Edições Bagaço / Recife 2002).

luiz nves miniatura

LUIZ NEVES

Luiz foi rei, foi rei…

Quem sabe, por timidez,

Disfarçava de plebeu,

Nas foi rei, foi rei…

Luiz, agora

Que silencioso e enigmático,

Entre pétalas e nuvens,

Te encantaste,

Eu te proclamo

Primogênito do povo.

Dom Luiz de Oliveira Neves,

Imperador da fantasia e da vida,

Do sonho e da maravilha.

Rei-de-ouros nas lides políticas,

Valete-de-copas, coração vermelho,

Que do meio do povo se despetala

Em festa e fúria, fé e indignação.

Dom Luiz,

Elevaste à tua côrte de sonhos,

Os pretos e os pobres,

Os desdentados e os famintos,

Com eles dividiste o Trono e a Realeza,

As lágrimas e o suor, o barro e o sopro.

E assim desvendaste

Humanos e divinos.

Tu os reconheceste, Dom Luiz,

Poeira estrelada

E os nomeaste membros irrecusáveis

Da tua humana dinastia.

Luiz foi rei, foi rei…

Essas notas terminaram virando as presentes Canetadas, cuja publicação é uma homenagem à nossa querida Amiga-RAINHA, Dona Terezinha Araújo de Oliveira Neves, simplesmente dona TECA, viúva do saudoso rei, Dom Luiz Neves.

A minha homenagem, igualmente, aos meus amigos-irmãos Walter, Didi, Neném, Tody, Maninha e Lelêu (Zé Wênio, de tabela), bem assim aos mais novos filhos e filhas, netos e netas, bisnetos e bisnetas desse pesqueirense arretado, que foi Luiz Neves.

LUIZ NEVES era filho de José Nepomuceno das Neves e dona Blandina, a quem carinhosamente chama de “BLANDA”, sendo seus irmãos e irmãs, José, Antonio (falecido, ex-BNB); Francisco (Pesqueira Notícias), Júlio, Lia, Nevinha, Carminha (saudosa amiga, grande pé de valsa), Conceição (Guilva, casada com Gabinho) e Lourdes.

Luiz Neves teve uma extensa e movimentada vida política na nossa terra Pesqueira, tendo assumido diversos cargos públicos, eletivos ou não. Foi Secretário Municipal na gestão do prefeito Ésio Araújo, vereador, vice-prefeito, prefeito por dois mandatos e deputado estadual.

Luiz foi o responsável maior pela elaboração do CÓDIGO DE POSTURAS MUNICIPAL – (Lei 141, de 27 de Março de 1951), ainda vigente, lamentavelmente, não utilizada.

Como prefeito, uma de suas mais importantes obras foi o canal de São Sebastião, que cortou a cidade pela Baixa do mesmo nome, acabando de forma definitiva com o foco de várias moléstias, entre elas a Febre Tifoide, doença infectocontagiosa causada pela ingestão da bactéria Salmonella typfi em alimentos ou água contaminada (Fonte: Febre tifoide – Wikipédia, a enciclopédia livre).

Mas não se pode esquecer outra obra importante que foi a Maternidade da Vila de Cimbres, que em razão de sua localização e difícil acesso, principalmente, em épocas chuvosas, registrava um preocupante índice de mortes com parturientes sem a devida assistência médico-hospitalar.

Porém, a obra de maior valia para Pesqueira, construída por Luiz Neves, sem dúvida alguma, foi Colégio Comercial Municipal de Pesqueira, portanto com cursos ginasial e Contabilidade (segundo grau), abrindo assim as portas do futuro para tantos estudantes pobres de Pesqueira, que ao terminarem o curso primário paravam os estudos, porque os pais não tinham condições de pagar os estudos, uma vez que Pesqueira só era servida por escolas particulares, a exemplo do Cristo Rei, Santa Dorotéia e o Seminário São José.

Luiz recebeu uma resistência muito grande dos setores conservadores da Cidade e da Diocese de Pesqueira, porque foi além de criar um Colégio, o fez misto, dando oportunidade aos moços e moças da nossa Terra, com o agravante de ser noturno. É que se esperava o pior numa relação entre rapaz e moças, estudando numa mesma escola, principalmente à noite. Essa a razão da resistência. Luiz Neves para enfrentar esse problema foi buscar o professor Paulo Melo para dirigir o CCMP, que convidou uma mulher para o cargo de vice-diretora, o que amenizou a questão. Talvez o principal motivo não tenha sido esse encontro de rapazes a moças estudando em um mesmo colégio, até porque há muitos anos que existia esse encontro na área de trabalho, nas escolas entre professores e professoras, nas fábricas e no comércio, entre operários e operárias.

Ao deixar o exitoso mandato de prefeito, para candidatar-se ao cargo de deputado estadual (tendo sido eleito, com expressiva votação), havia dado início ao Matadouro Modelo de Pesqueira, competindo ao seu vice-prefeito, o saudoso amigo Dr. Petronilo de Freitas, dar continuidade a obra, o que aconteceu, pois em apenas nove meses, tempo de uma gestação, nascia o novo matadouro público, esse mesmo que está aí servindo à Pesqueira, mas, hoje, em condições precárias, por falta de suporte físico, técnico e de higiene.

Luiz Neves era, também, jornalista. Na lide do jornalismo interiorano, escreveu para os jornais “A VOZ DE PESQUEIRA” (do jornalista Eugênio Chacon), “FOLHA DE PESQUEIRA” (do meu saudoso pai, jornalista Paulo de Oliveira), tendo mais tarde, adquirido do filho de Zeferino Galvão (Alípio Galvão), juntamente com Rinaldo Jatobá e outros, o direito de editar “A GAZETA DE PESQUEIRA”, que fez por alguns anos. Foi correspondente de jornais da capital.

Luiz participou como membro da Associação de Imprensa de Pernambuco (AIP) e da Associação Pesqueirense de Imprensa (API), do 8º Congresso de Jornalistas do Interior, realizado em 1953, em Pesqueira, tendo como organizador e presidente o velho Paulo de Oliveira, já aquela época considerado o decano da imprensa matuta.

Mais tarde, em 1957, Luiz Neves a pedido do meu saudoso pai, seguiu para o Rio de Janeiro, a fim de representá-lo no 1º CONGRESSO NACIONAL DE JORNALISTAS, promovido pela Associação Brasileira de Imprensa – ABI. Lá fez o seu furo de reportagem para o Diário da Noite, levando o jornalista Mário Melo até p Estádio do Maracanã, que odiava futebol, em bonita reportagem que nos deixou contada em seu livro “CAÇUA DE LEMBRANÇAS”, às fls. 81/84.

Luiz deixou dois livros publicados “PESQUEIRA – EVOCAÇÃO ANO 100 – (Tipos Populares)” – Edição do autor – CEPE 1980 e “CAÇUA DE LEMBRANÇAS”, edição do Autor – CEP – Recife – 1981, tendo participado, também, do livro PESQUEIRA SECULAR (Crônicas da velha Cidade), com a crônica “COPIRRAITE (Aos 100 anos da minha jovem Pesqueira de Sant’Águeda” (páginas 231 a 243), edição comemorativa ao 1º Centenário da Cidade de Pesqueira, publicado em 1980, uma coletânea de matérias escritas por pesqueirenses, coordenado pelos pesqueirenses Pedro Santa Cruz, Aloísio Falcão, Potiguar Matos, Nivaldo Burgos e Silvio Lins.

Luiz, ainda deixou em preparo (não publicado) as seguintes obras: “FRUTO VERMELHO” (Romance); bulício de um instante (poesias – livro concluído); “SAGA DO CABO ZEFERINO” (novela); e “QUITERIANAS” (crônicas).

Era assim o nosso Luiz Neves, uma vida cheia de valores, de luta, de dedicação à sua terra Pesqueira. Assiste razão ao nosso poeta Laurene Almeida: (LUIZ FOI REI, FOI REI…).

jurandir carmelo foto recente

* Autor: Jurandir Carmelo – Jurandir é pesqueirense, advogado, colaborador do OABELHUDO, jornalista,escritor, cronista e combatente permanente dos maiores interesses da sua Pesqueira.

Direitos Humanos/Ditadura: Adolfo Perez Esquivel: “Dom Paulo me salvou duas vezes da prisão” *

 

 

Nobel da Paz:

Dom Paulo Arns me salvou

duas vezes da ditadura brasileira

 

 

O ativista de direitos humanos argentino Adolfo Perez Esquivel, de 82 anos, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1980, disse que foi “salvo duas vezes” por dom Paulo Evaristo Arns durante a ditadura no Brasil.

 

Adolfo Esquivel, Ativista argentino esteve duas vezes preso no Brasil

Adolfo Esquivel, Ativista argentino esteve duas vezes preso no Brasil

Em entrevista à BBC Brasil em Buenos Aires, Esquivel disse que foi preso na primeira vez por militares em São Paulo em 1975, e na segunda vez em 1981.

Em 1975, foi muito difícil, porque eles colocaram um capuz na minha cabeça, uma gravação de gritos de pessoas sendo torturadas e levantavam um pouco o capuz somente para que eu pudesse identificar latino-americanos que eles perseguiam.”

Segundo ele, os militares queriam que ele “denunciasse” outros opositores ao regime no Brasil. “Eu disse que não conhecia ninguém”.

Perez Esquivel afirmou ainda que três militares o interrogaram e não pode ver seus rostos. “Eram três interrogadores – um muito duro que dizia que iam me matar, que iam me torturar, outro que dizia que era conveniente que eu falasse e outro que queria se fazer de meu amigo, que estava ali para me ajudar”, afirmou.

No dia seguinte à prisão, o então arcebispo de São Paulo dom Paulo Evaristo Arns, conseguiu tirá-lo do local. “O cardeal me salvou duas vezes”, disse o Prêmio Nobel durante a entrevista realizada na sede da ONG Serviço Paz e Justiça (Serjap) que dirige na Argentina.

Segundo Esquivel, Arns reuniu outros religiosos e defensores de direitos humanos e organizou uma manifestação na porta da delegacia, que não recordou onde ficava, assim que soube da sua detenção.

“Dom Paulo, certamente, falou com autoridades do Brasil para que eu fosse liberado. Mas não sei as gestões exatas que ele fez. O que sei é que ele não perdeu tempo em organizar uma manifestação na porta da delegacia para me salvar. E me salvou“, disse.

Dom Paulo Evaristo Arns, Cardeal brasileiro lutou pelo direito de presos políticos durante o regime militar

Dom Paulo Evaristo Arns, Cardeal brasileiro lutou pelo direito de presos políticos durante o regime militar

Medo

Quando perguntado se tinha sentido medo de morrer na prisão durante a ditadura no Brasil, ele respondeu: “Daquela vez sim, foi mesmo preocupante”.

Ele contou que foi preso no aeroporto em São Paulo, e que estava com o advogado Mario Carvalho de Jesus, da Frente Nacional do Trabalho, e com a austríaca Hildegard Goss-Mayr, atual presidente honorária do Movimento Internacional de Reconciliação e integrante do Serpaj, que mora em Viena.

Leia a Íntegra:

Esquivel: ‘Dom Paulo me salvou da ditadura’

 

* Fonte: BBCBrasil/Marcia Carmo

Para a BBC Brasil, em Buenos Aires

Efemérides/História: Posse do primeiro prefeito eleito de Rio Branco (hoje Arcoverde) – Colaboração de Pedro Salviano *

Posse do primeiro prefeito

eleito de Rio Branco

 

 

 

«Chegada do coronel Japyassu ao novo município de Rio Branco, depois de eleito prefeito municipal». Fotos da Revista da Cidade n. 125 de 13-10-1928, pág. 22 http://goo.gl/e2rm75  (mais revistas:  http://goo.gl/HnZdoh ).

«Chegada do coronel Japyassu ao novo município de Rio Branco, depois de eleito prefeito municipal». Fotos da Revista da Cidade n. 125 de 13-10-1928, pág. 22 http://goo.gl/e2rm75 (mais revistas: http://goo.gl/HnZdoh ).

 

chegada 2 cel Japyassu Rio Branco - 1928-B

Vários temas abordados por esta coluna já mostraram a influência do Cel. Antônio Japiassu na história de Arcoverde (por ex. http://goo.gl/X6TAJB , http://goo.gl/pQEBLC ).

Após a vitória do movimento em prol da emancipação de Pesqueira, o novo município de Rio Branco (hoje Arcoverde) teve sua primeira eleição. Como ela aconteceu? O que podemos acrescentar aos conhecimentos daquele importante fato histórico? Foi feita uma compilação dos principais registros dos pesquisadores (http://goo.gl/xUDAZk )  e mais alguns dados são acrescentados.
                Hoje carecendo de mais atenção, a estação da antiga Great Western foi palco para importantes acontecimentos da história do município, como é corroborado por fotos aqui mostradas.
                Outro marco histórico é o cine Rio Branco (ver http://goo.gl/irNlDe ). No livro O Município de Arcoverde (Prima Editora, Arcoverde, 1961, pág. 4), Teofanes Chaves Ribeiro registrou (escrita da época) http://goo.gl/Txohl2 :
              «Assim, a começar do ano de 1919, uma plêiade de homens de boa vontade, se movimenta, no sentido de emancipar o distrito, desligando-o e tornando-o independente. No Cine local houve uma sessão muito agitada, tendo todos os presentes, que eram na sua maioria elementos do comércio, se comprometido a não mais pagar impostos ao supra citado município. Jornais da Capital do país publicaram notícias dêsse movimento emancipacionista, enviadas pelo então correspondente dos orgãos A NOITE e O JORNAL — Sr. Antonio Napoleão Arcoverde. Entretanto, a política de alguns senhores, ligada a interêsses diversos, contribui sobremodo para o retardamento dêsse justo desejo. Finalmente, em 11 de Setembro de 1928, por fôrça da Lêi n. 1.931 do Sr. Governador cio Estado, Dr. Estácio Coimbra, era transformada em realidade a feliz aspiração do povo de Rio Branco, sendo êste, como outros distritos, elevado a município, respirando, dai em diante, o salutar clima da independência. Nêsse mesmo ano é eleito seu primeiro prefeito municipal, sob a legenda do Partido Republicano — Sr. Antonio Japiassú. É, apenas, de quase 2 anos a duração dessa edilidade. Em 1930, com a vitória da revolução levada a efeito no país, foi nomeado prefeito, pelo govêrno revolucionário o Sr. Ernesto Lima Rodrigues da Silva, que mal chegou a tomar posse viu-se obrigado pela fôrça das circunstâncias a se dirigir à Capital do Estado, onde o esperava importante missão do govêrno. Resolveu demitir-se sendo nomeado o dr. Luis Coêlho Alves da Silva, cuja administração legou a Rio Branco importantes melhoramentos.»
           Sempre objetivando estimular a pesquisa pelos assuntos da nossa história, links são disponibilizados, remetendo os leitores interessados para novas pesquisas. Assim, retomamos a cronologia para mostrar a grande mudança administrativa que nos atingia (http://goo.gl/Yc3TUV )  e que no dia 13 de setembro de 1928 o jornal A Provincia N. 212 mostrava na página 2: “A nova divisão administrativa de Pernambuco. O território do estado ficou organisado em 85 municípios” :http://goo.gl/OxSmhs .
                Na sequência,  A Provincia n. 220, do dia 22 de setembro de 1928, apresentava na sua capa (ver http://goo.gl/GlR620 ) a inscrição da chapa do município Barão do Rio Branco (nome que também constava na fachada da estação; e, como sabemos, adotou-se apenas o Rio Branco…). Mantendo a escrita da época, vemos:
                «Eleições Municipaes – As chapas já organisadas do 3. Districto – Barão do Rio Branco
Prefeito: Antonio Japyassu. Sub-prefeito: José Cordeiro de Albuquerque. Concelheiros: Isaias Gonçalves de Lima. Florismundo de Oliveira. Leonardo José Guimarães. Manoel Ramiro da Fonseca. Antonio de Padua Ferreira. Manoel Cavalcanti de Araujo. Acacio Gomes de Albuquerque. José Severo Filho. Julio Pacheco Freire.»
Convite para o banquete da posse do primeiro prefeito, anunciado para o dia 15 de outubro de 1928, às 12 horas.

Convite para o banquete da posse do primeiro prefeito, anunciado para o dia 15 de outubro de 1928, às 12 horas.

Cel. Antônio Japiassu, o primeiro prefeito eleito de Rio Branco (hoje Arcoverde).

Coronel Antônio Japyassú, o primeiro prefeito eleito de Rio Branco (hoje Arcoverde).

Mas, como foram as solenidades da posse? No mesmo A Provincia, edição 270 do dia 21 de novembro de 1928, na página 2 http://goo.gl/ORD5rX aparece a cobertura jornalística do evento (com ortografia da época):
« Rio Branco, 17 de novembro de 1928
                Tiveram muito brilho as festas realizadas, nesta cidade, não só para commemorar a data da proclamação da Republica como para solennisar a posse da sua primeira administração.
                A posse foi solenne no edificio do Paço Municipal perante selecta assistencia.
                Presidio o acto o juiz municipal de Pesqueira que empossou o prefeito e conselheiros.
                Às 17 horas effectuou-se a passeata escolar.
                Às 20 horas teve logar o banquete de 70 talheres, no hotel “Rio Branco”, offerecido ao prefeito cel. Antonio Japyassú, pela commissão executiva das festas do Rio Branco.
                Offereceu o banquete o padre Luis de Góes que salientou as qualidades do homenageado e o seu prestigio no municipio, do que era prova a presente homenagem que reuniu todos os elementos do real prestigio em Rio Branco. Em nome do coronel Antonio Japyassú agradeceu o dr. Francisco de Crasto.
                Por fim, fez o brinde de honra ao sr. governador do Estado o deputado Fraga Rocha que, especialmente convidado, honrou com a sua presença as festas deste municipio. De passagem por esta cidade tomou parte igualmente, no banquete o dr. A. Carneiro Leão.»
                Alguns dados registrados pelo pesquisador Luís Wilson em seus livros sobre Antônio Japiassu e família (material compilado http://goo.gl/xUDAZk ):
                «“Seu” Tonho era, na realidade, Tenente-Coronel da Guarda Nacional, instituição da qual muitas patentes, em Rio Branco, eram conferidas pelo próprio povo, de acordo com o prestigio daqueles a quem eram atribuídas, porque quase todo fazendeiro era Coronel…Antônio Japyassu nasceu em Leopoldina,  no alto sertão do Estado. Foi, depois, para Alagoa do Monteiro, Paraíba, mais tarde para o Recife, onde casou, indo, então, para Branquinha, em Alagoas, para um engenho do sogro. Ali nasceu-lhe o primeiro filho, Dedé. Voltou para o Recife e tornou-se comerciante na rua Tobias Barreto, mudando-se, no princípio do século, exatamente no ano de 1906, para a Pedra. Mais ou menos em 1924, “seu” Tonho foi residir em Rio Branco…Ele foi embora para fazenda Tatu, Ou Santa Isabel, em cima da Serra, no Salobro, depois da Revolução de Outubro de 1930…  Desta sua fazenda, 13 ou 15 anos depois de 1930, o Cel. Antônio Japyassu foi embora, residir em São Paulo, para onde havia ido logo depois da Revolução o seu velho e grande amigo Major Cândido de Brito (o Major Candinho das “Grandes Fábricas Peixe”, em Pesqueira). Voltou algum tempo depois para o Recife e, por motivos particulares foi residir em Garanhuns. Ali adoeceu cerca de um ou dois anos mais tarde, vindo para o Recife. Operado de vesícula, morreu no Hospital Barão de Lucena (Hospital dos Usineiros), a 29 de outubro de 1957. … O Cel. Antônio Japyassu era um homem bom, simpático e alegre. No Bar Nabuco, na praça Joaquim Nabuco, ele me dizia sempre: “Vá para o Sul, meu filho, assim que você se formar vá para o Sul”. Eu me formaria no ano seguinte[1940].»
Mais artigos desta coluna: http://goo.gl/lWA4Hv
Pedro Salviano Filho
* Fonte/Autor: Por: Pedro Salviano Filho – Salviano é arcoverdense, ex-alunos do Colégio Cardeal Arcoverde, médico-cirurgião, residente em Ivaiporã-PR.
(Coluna Histórias da Região – Edição de Março/Abril 2014 – Jornal de Arcoverde)

Crônica: Agora Vai! – Salve o 1º de Abril – Por Walter Jorge de Freitas *

AGORA VAI!

 

pinoquio 1 de abril

 

 

Um amigo de inteira confiança me telefonou hoje cedinho para dar algumas notícias. Confesso que vibrei tanto quanto em 1956, ano em que Eraldo Maciel conseguiu o que seria o meu primeiro emprego na Loja Sant’Águeda, onde trabalhei durante cinco anos.

Organizadíssimo, o interlocutor separou os fatos ligados ao nosso município, colocando-os em primeiro plano; em seguida, relatou as boas novas relacionadas com o Estado de Pernambuco; por fim, fazendo um pouco de suspense, o caboclo antecipou uma série de medidas que certamente deixarão os brasileiros bem otimistas.

Sem mais delongas, vamos às mais importantes: No âmbito municipal, tem-se como certo que os contratos com as empresas que fazem a coleta do lixo e a limpeza urbana serão rescindidos e esses serviços ficarão a cargo de outras (e até das mesmas), desde que se equipem adequadamente e sejam escolhidas mediante rigoroso processo de licitação. Medida idêntica será adotada em relação à empreiteira que cuida dos calçamentos.
Disse, ainda, o informante, que a prefeitura – como fazia nos velhos tempos – vai colocar fiscais a fim de verificar se as obras estão sendo realmente bem feitas.

A melhor de todas as informações é que a Câmara de Vereadores acaba de aprovar o novo Código de Posturas do Município e daqui por diante, as nossas ruas estarão rigorosamente limpas, sinalizadas, monitoradas por câmeras, as construções serão fiscalizadas, as calçadas ficarão livres dos tabuleiros das lojas, as vias públicas deixarão de ser depósitos de lixo, entulhos e materiais de construção e quem sujar, será multado. Que legal!

Lembrou também que nesta terça-feira, impreterivelmente, teremos a inauguração oficial da mine-academia situada bem ali na Praça Joaquim Mota Valença. Devemos comparecer para ajudar a retirar aquelas placas que estão lá há quatro anos sem nenhuma serventia.
O governador Eduardo Campos estará em Pesqueira antes de deixar o governo, com a finalidade de assinar a ordem de serviço que autoriza a obra prometida em 2009, pelo então presidente da COMPESA Sr. João Bosco de Almeida. Já esqueceram? Eu não.

Na esfera estadual, soubemos que a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos, o governo de Pernambuco vai proibir que as repartições públicas, inclusive escolas, comprem água mineral embalada em garrafinhas e garrafões. Toda a água necessária para o consumo será fornecida pela eficiente estatal conhecida como COMPESA.

De Brasília, temos notícias excelentes: A presidente Dilma, apesar de abalada com a repercussão negativa causada pela compra da refinaria americana chamada Pasadena e sabendo que foi o ex-ministro de Ciências e Tecnologia – hoje o seu maior desafeto -, quem implantou o fracassado projeto das Usinas de Biodiesel em 2005, resolveu ressarcir o dobro do que o município de Pesqueira investiu naquele monstrengo erguido na margem da BR-232.

Fontes fidedignas do Planalto afirmaram que os rombos encontrados nas contas da PETROBRÁS, foram motivados por insignificantes erros nos computadores.

E por falar em contas, o Ministério dos Esportes garante que depois da Copa, “no máximo” dentro de uns vinte anos, os brasileiros ficarão sabendo quanto foi gasto pelos Estados e pela União nas arenas destinadas a esse torneio muito lucrativo para a dona FIFA, que apesar de receber tudo de mão-beijada, ainda bota gosto ruim.

Ainda sobre a Copa do Mundo, o Ministro do Turismo, baseado em dados das Secretariais Estaduais e Municipais da área, informa que todas as cidades dos Estados onde haverá jogos, estão prontas para receber os turistas e garante que ninguém será explorado.

Ficou assustado com tanta notícia positiva? Tem mais, só que o espaço acabou.

Acalme-se e dê uma olhadinha no calendário.

walter-J-Freitas II

 

Pesqueira, 1º de abril de 2014.

* Autor: Walter Jorge de Freitas – Walter é pesqueirense, comerciante, professor, colaborador do OABELHUDO, cronista, poeta e pesquisador musical.

1964/Histórias sobre o Golpe: John F Kennedy ajudou a piorar a situação *

Kennedy cogitou ação

militar contra Goulart

Em pouco mais de um ano, durante a Presidência de John F. Kennedy, as relações americanas com João Goulart foram do “ápice” à deterioração total, ao ponto de os Estados Unidos chegarem ao fim de 1963 cogitando uma intervenção militar no Brasil.

 

Em abril de 1962, o presidente Kennedy dos EUA recebeu o presidente João Goulart no salão oval da Casa Branca.

Em abril de 1962, o presidente Kennedy dos EUA recebeu o presidente João Goulart no salão oval da Casa Branca.

 

Porém, a veloz resignação de Jango à sua própria queda meses depois poupou os brasileiros de verem tropas americanas desembarcando em território nacional – uma ideia que soava tão escandalosa que os próprios americanos relutavam em abraçar, indicam os arquivos da época.

A possibilidade estava na manga caso houvesse “uma clara evidência de intervenção do bloco soviético ou de Cuba do outro lado”, precisou o então embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, em um plano de contingência discutido com o Departamento de Estado em dezembro de 1963 e obtido pelo historiador Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

As relações entre Kennedy e Jango foram se deteriorando com o passar do tempo

As relações entre Kennedy e Jango foram se deteriorando com o passar do tempo

A hipótese de uma ação armada também foi assunto de conversa entre Gordon e Kennedy em Washington em outubro de 1963, segundo uma gravação revelada pelo jornalista Elio Gaspari na reedição de A Ditadura Envergonhada.
Segundo o registro, o então presidente perguntou ao embaixador se a situação no Brasil estava “indo para onde deveria”, ou se era “aconselhável que façamos uma intervenção militar”.

Em visita à Casa Branca, Jango e o general Amaury Kruel, que acabaria aderindo ao golpe que derrubou o presidente em 1964

Em visita à Casa Branca, Jango e o general Amaury Kruel, que acabaria aderindo ao golpe que derrubou o presidente em 1964

‘Nova Cuba’

As desconfianças de Kennedy em relação a Jango se exacerbaram entre fins de 1962 e fins de 1963, período em que os Estados Unidos se preocupavam em “evitar uma nova Cuba na América Latina”.

Evitar que o Brasil de Jango “deslizasse” para o comunismo virou um “mantra” em Washington, disse à BBC Brasil o historiador Peter Kornbluh, da organização National Security Archives, que pressiona pela desclassificação de documentos históricos do governo americano.

(Foto 2)

O “ápice” da relação Kennedy-Jango fora durante a crise dos mísseis, em outubro de 1962, quando a inteligência americana revelou que a União Soviética estava posicionando mísseis na ilha comunista de Cuba.

A pedido de Kennedy, Goulart enviou um emissário à ilha comunista para servir de intermediário secreto entre Havana e Washington, segundo um detalhado estudo de James Hershberg, historiador da Universidade George Washington.

O emissário brasileiro, general Albino Silva, chegou em Havana quando o líder soviético Nikita Kruschev já anunciara a retirada dos mísseis de Cuba.

Mas o episódio é interpretado na historiografia como sinal do “benefício da dúvida” que Kennedy estendia a Goulart. Porém, no fim, serviu para reforçar as desconfianças do norte do continente.

Hershberg diz que a Casa Branca achou que Jango “virava a casaca” em temas importantes conforme sua conveniência.

Kornbluh explica que a Casa Branca não gostou da recusa de Jango em se se alinhar aos Estados Unidos em um voto contra Cuba na Organização dos Estados Americanos (OEA) por ter aceitado esses mísseis.

Em vez disso, Jango defendera uma zona livre de armas nucleares na América Latina. “No final, Kennedy se convence de que, se Goulart não estava com eles, estava contra eles”, disse o historiador.

Operação Brother Sam

O líder brasileiro seria deposto apenas meses antes da reunião da OEA em julho de 1964 que expulsou Cuba e resultou no seu isolamento do hemisfério.

leia a Íntegra:

Kennedy cogitou ação militar contra Goulart

 

* Fonte: BBCBrasil – Pablo Uchoa da BBC Brasil em Washington

Editorial/1964 : Jornal Folha de São Paulo Justifica apoio ao Golpe de 1964 *

1964

 

 

anos de chumbo foto conjunta

 

 

 

 

Aos olhos de hoje, apoiar a ditadura militar foi um erro, mas as opções de então se deram em condições bem mais adversas que as atuais

Às vezes se cobra, desta Folha, ter apoiado a ditadura durante a primeira metade de sua vigência, tornando-se um dos veículos mais críticos na metade seguinte. Não há dúvida de que, aos olhos de hoje, aquele apoio foi um erro.

Este jornal deveria ter rechaçado toda violência, de ambos os lados, mantendo-se um defensor intransigente da democracia e das liberdades individuais.

O regime militar (1964-1985) tem sido alvo de merecido e generalizado repúdio. A consolidação da democracia, nas últimas três décadas, torna ainda mais notória a violência que a ditadura representou.

Violência contra a população, privada do direito elementar ao autogoverno. E violência contra os opositores, perseguidos por mero delito de opinião, quando não presos ilegalmente e torturados, sobretudo no período de combate à guerrilha, entre 1969 e 1974.

Aquela foi uma era de feroz confronto entre dois modelos de sociedade –o socialismo revolucionário e a economia de mercado. Polarizadas, as forças engajadas em cada lado sabotavam as fórmulas intermediárias e a própria confiança na solução pacífica das divergências, essencial à democracia representativa.

A direita e parte dos liberais violaram a ordem constitucional em 1964 e impuseram um governo ilegítimo. Alegavam fazer uma contrarrevolução, destinada a impedir seus adversários de implantar ditadura ainda pior, mas com isso detiveram todo um impulso de mudança e participação social.

Parte da esquerda forçou os limites da legalidade na urgência de realizar, no começo dos anos 60, reformas que tinham muito de demagógico. Logo após 1964, quando a ditadura ainda se continha em certas balizas, grupos militarizados desencadearam uma luta armada dedicada a instalar, precisamente como eram acusados pelos adversários, uma ditadura comunista no país.

As responsabilidades pela espiral de violência se distribuem, assim, pelos dois extremos, mas não igualmente: a maior parcela de culpa cabe ao lado que impôs a lei do mais forte, e o pior crime foi cometido por aqueles que fizeram da tortura uma política clandestina de Estado.

Isso não significa que todas as críticas à ditadura tenham fundamento. Realizações de cunho econômico e estrutural desmentem a noção de um período de estagnação ou retrocesso.

Em 20 anos, a economia cresceu três vezes e meia. O produto nacional per capita mais que dobrou. A infraestrutura de transportes e comunicações se ampliou e se modernizou. A inflação, na maior parte do tempo, manteve-se baixa.

Todas as camadas sociais progrediram, embora de forma desigual, o que acentuou a iniquidade. Mesmo assim, um dado social revelador como a taxa de mortalidade infantil a cada mil nascimentos, que era 116 em 1965, caiu a 63 em 1985 (e melhorou cada vez mais até chegar a 15,3 em 2011).

No atendimento às demandas de saúde e educação, contudo, a ditadura ficou aquém de seu desempenho econômico.

Sob um aspecto importante, 1964 não marca uma ruptura, mas o prosseguimento de um rumo anterior. Os governos militares consolidaram a política de substituição de importações, via proteção tarifária, que vinha sendo a principal alavanca da industrialização induzida pelo Estado e que permitiu, nos anos 70, instalar a indústria pesada no país.

A economia se diversificou e a sociedade não apenas se urbanizou (metade dos brasileiros vivia em cidades em 1964; duas décadas depois, eram mais de 70%) mas também se tornou mais dinâmica e complexa. Metrópoles cresceram de modo desordenado, ensejando problemas agudos de circulação e segurança.

O regime passou por fases diferentes, desde o surto repressivo do primeiro ano e o interregno moderado que precedeu a ditadura desabrida, brutal, da passagem da década, até uma demorada abertura política, iniciada dez anos antes de sua extinção formal, em 1985.

As crises do petróleo e da dívida externa desencadearam desarranjos na economia, logo traduzidos em perda de apoio, inclusive eleitoral. O regime se tornara estreito para uma sociedade que não cabia mais em seus limites. Dissolveu-se numa transição negociada da qual a anistia recíproca foi o alicerce.

Às vezes se cobra, desta Folha, ter apoiado a ditadura durante a primeira metade de sua vigência, tornando-se um dos veículos mais críticos na metade seguinte. Não há dúvida de que, aos olhos de hoje, aquele apoio foi um erro.

Este jornal deveria ter rechaçado toda violência, de ambos os lados, mantendo-se um defensor intransigente da democracia e das liberdades individuais.

É fácil, até pusilânime, porém, condenar agora os responsáveis pelas opções daqueles tempos, exercidas em condições tão mais adversas e angustiosas que as atuais. Agiram como lhes pareceu melhor ou inevitável naquelas circunstâncias.

Visto em perspectiva, o período foi um longo e doloroso aprendizado para todos os que atuam no espaço público, até atingirem a atual maturidade no respeito comum às regras e na renúncia à violência como forma de lutar por ideias. Que continue sendo assim.

* Fonte: Folha de São Paulo –

1964/História: Conheça a História da cidade pernambucana que resistiu ao Golpe de 64 *

A resistência de uma

pequena cidade de

Pernambuco

Estudantes foram primeiros mortos no Recife. Uma das primeiras vítimas da ditadura militar era de uma família de homens que, ao longo do século, oscilaram entre a militância política e o quartel

Estudantes foram primeiros mortos no Recife. Uma das primeiras vítimas da ditadura militar era de uma família de homens que, ao longo do século, oscilaram entre a militância política e o quartel

 

 

Professora, telegrafista e até o delegado de Vitória de Santo Antão entraram na lista de 21 acusados de subversão

A professora foi para a rua liderar o levante contra o golpe. Os trabalhadores da estrada de ferro cruzaram os braços. O telegrafista disse para os primeiros soldados com carabinas nas mãos que não tinha condições de mandar mensagens. O delegado não aceitou as ordens do Exército. Diante da agitação, o comércio fechou as portas. A rádio AM foi tomada por defensores do presidente João Goulart e, pelo microfone, conclamou os ouvintes a resistir. O sindicalista resistiu e foi fuzilado num canavial. O corpo dele virou repasto de aves de rapina. Os militares forjaram um suicídio que indignou a família.

A crônica com tintas surreais dos primeiros dias de abril de 1964 em Vitória de Santo Antão, em Pernambuco, na época com 30 mil moradores – hoje sua população passa de 100 mil -, mostra que, na história do Brasil contada a partir do interior, o povo não assistiu, mais uma vez, bestializado, e os generais não esperaram o AI-5, quatro anos depois, para dar início à barbárie.

O delegado Edvaldo Rodrigues Cavalcanti entrou na lista de 21 acusados de subversão que teriam resistido ao golpe na cidade da Zona da Mata pernambucana. Foi expulso da Polícia Militar. Documento do Conselho Especial de Justiça do Exército, de dezembro de 1969, obtido pelo Estado, destaca que o ex-tenente “procurou sublevar o destacamento policial e até camponeses adestrados para uma reação ao movimento revolucionário”. Esse personagem desconhecido afirmou, em sua defesa, que tinha orgulho por jamais permitir que senhores de engenho colocassem as mãos em seu ombro e dissessem: “Meu delegado”.

A paraibana Maria Celeste Vidal Bastos, na época com 37 anos, e o sindicalista pernambucano Luiz Serafim de Santana, 36, foram outros líderes do levante contra o golpe citados no documento. Na manhã do dia 1o de abril, eles convocaram trabalhadores dos engenhos para o levante. Centenas deles foram para a cidade com foices, enxadas e paus. Eles ocuparam a Rádio Jurema. O comerciante José Lyra, 87 anos, lembra da passeata com pessoas erguendo varas com ossos amarrados para reclamar dos mortos nos canaviais. “O Exército e a polícia apareceram. Foi um Deus nos acuda”, relata.

Morte. Chegou à cidade a notícia de que o corpo do sindicalista Albertino José de Oliveira já estava em estado de putrefação na mata. A Secretaria de Segurança Pública disse que o sindicalista morreu envenenado. A professora foi capturada num engenho próximo e levada para o Recife, onde ficou presa por mais de três anos. Sofreu choques elétricos. Para o ex-telegrafista José Andrade de Oliveira, Maria Celeste era a grande líder da resistência na cidade. “Cortava o cabelo bem curtinho para protestar.”

Estudantes foram primeiros mortos no Recife. Uma das primeiras vítimas da ditadura militar era de uma família de homens que, ao longo do século, oscilaram entre a militância política e o quartel. O estudante pernambucano Ivan Rocha Aguiar, 21 anos, atingido por tiros na esquina da Avenida Dantas Barreto com a Rua Marquês do Recife, era neto de um chefe político que, nos anos 1920, espalhava cópias do Manifesto Comunista, e filho de um ex-sargento do Exército que combateu revoltosos paulistas em 1932.

Naquele 1o de abril de 1964, Recife amanheceu com tropas do Exército nas ruas. Ivan saiu cedo de casa para participar de uma passeata de apoio ao governador Miguel Arraes, que estava cercado no Palácio do Campo das Princesas. Um irmão, o soldado Danúbio, 20 anos, ficou preocupado e foi atrás de Ivan. Encontrou-o perto da Praça da Independência. Eram 16 horas. “Não vai aí na frente, não, porque a turma está muito agitada e o Exército pode atacar”, advertiu Danúbio. “Não vou deixar os companheiros”, respondeu Ivan, que pegou uma bandeira de um colega e seguiu para a praça.

Leia a Íntegra:

 

 

* Fonte: | Por Leonencio Nossa ENVIADO ESPECIAL / VITÓRIA DE SANTO ANTÃO, estadao.com.br

 

Comportamento/Cultura: Rio de Janeiro Resgata em Museu a Memória da Moda no Brasil *

 

 

Rio de Janeiro

terá museu de moda

 

Vestido de alta-costura da estilista francesa Catherine Walker, preferida da princesa Diana para grandes bailes

Vestido de alta-costura da estilista francesa Catherine Walker, preferida da princesa Diana para grandes bailes

“Vestido de alta-costura da estilista francesa Catherine Walker, preferida da princesa Diana para grandes bailes. A peça foi arrematada por US$ 60 mil, em um leilão da Christie’s, por um grupo de doadores encabeçado por Hildegard Angel, pouco antes da morte de Lady Di. Quando chegou ao Brasil, foi recebido por batedores e transportado em carro-forte, com seguro estimado em US$ 100 mil. As fotos são da Revista Serafina/Folha de S.Paulo”.

O Rio de Janeiro ganhará o primeiro museu do Brasil totalmente dedicado à moda nacional e internacional, com inauguração prevista para outubro deste ano numa casa na Barra da Tijuca. O local se chamará ’Casa Zuzu Angel de Memória da Moda do Brasil’ e só se concretizou graças a uma parceria entre o Instituto Zuzu Angel e o governo do Estado do Rio.

Maiô e faixa originais usados por Martha Rocha, primeira Miss Brasil, em 1954. A peça, fotografada na praia de Copacabana, foi confeccionada pela fábrica Catalina, que criava todos os maiôs e biquínis usados pelas misses na segunda metade do século 20. Fotos: Revista Serafina/Folha de S.Paulo

Maiô e faixa originais usados por Martha Rocha, primeira Miss Brasil, em 1954. A peça, fotografada na praia de Copacabana, foi confeccionada pela fábrica Catalina, que criava todos os maiôs e biquínis usados pelas misses na segunda metade do século 20. Fotos: Revista Serafina/Folha de S.Paulo

O local terá espaço para exposições, cursos e um centro de conservação e restauração de vestuário, trabalho minucioso e dificílimo de ser executado. O acervo foi montado a partir de peças reunidas pela filha da estilista, Hildegard Angel ao longo de quase 20 anos.

A Revista Serafina, editada pelo jornal Folha de S. Paulo, teve acesso exclusivo ao local, mostrando detalhes do acervo em fotos publicadas no último dia 23. Mais de 4.000 roupas de estilistas consagrados, como Dener Pamplona, Hubert de Givenchy, Cristóbal Balenciaga, Markito e Zuzu Angel, vão compor o acervo.

Patchwork de rendas da região Norte, uma das criações mais marcantes da estilista Zuzu Angel (1921-1976). Criado no final da década de 1960, o vestido pastoral, como foi chamado, faz referência à amizade da estilista com o bispo Dom Hélder Câmara (1909-1999). Fotos: Revista Serafina/Folha de S.Paulo

Patchwork de rendas da região Norte, uma das criações mais marcantes da estilista Zuzu Angel (1921-1976). Criado no final da década de 1960, o vestido pastoral, como foi chamado, faz referência à amizade da estilista com o bispo Dom Hélder Câmara (1909-1999). Fotos: Revista Serafina/Folha de S.Paulo

* Fonte: Social1

História/1964: A Trajetória da Ditadura *

A trajetória da ditadura

 

1961 - Após 207 dias de governo, Jânio Quadros renunciou.

1961 – Após 207 dias de governo, Jânio Quadros renunciou.

 

 

Cenário pré-golpe

 

Prometendo eliminar a corrupção, Jânio Quadros é eleito em 1960, com quase 50% dos votos.
O presidente perdeu apoio das elites ao desprezar o Congresso.

Jânio rejeitou os EUA, se aproximou da China e de Cuba e condecorou o então ministro cubano Che Guevara com a mais alta comenda concedida a estrangeiros pelo Brasil.

Após 207 dias de governo, Jânio Quadros renunciou. Surgiram rumores de que ele planejava um golpe que o manteria no poder como ditador, o que nunca foi confirmado.

Os militares impediram a posse do vice João Goulart, contrariando a Constituição.

Os militares impediram a posse do vice João Goulart, contrariando a Constituição.

Instabilidade

A renúncia de Jânio lançou o Brasil em profunda crise política. Os militares impediram a posse do vice João Goulart, contrariando a Constituição.

Jango era visto como uma “ameaça comunista” pela proximidade com sindicalistas.

O Congresso altera a Constituição e muda o regime, instaurando o Parlamentarismo. Tancredo Neves assume como primeiro-ministro e Jango toma posse destituído de poderes presidenciais.

A pressão popular força a realização de um plebiscito em 1963, para que o povo escolhesse o regime de governo.

Em janeiro de 1963 mais de 80% dos eleitores dizem NÃO ao parlamentarismo, devolvendo a Jango plenos poderes.

Véspera do golpe – Em janeiro de 1963 mais de 80% dos eleitores dizem NÃO ao parlamentarismo, devolvendo a Jango plenos poderes.

Vésperas do Golpe

 

Em janeiro de 1963 mais de 80% dos eleitores dizem NÃO ao parlamentarismo, devolvendo a Jango plenos poderes.

O presidente inicia as Reformas de Base. Jango defendia ampla reforma agrária, eleitoral e da educação, além de restrição das remessas de lucro das multinacionais.

Setores contrários articulam a derrubada do governo.

Em 13 de março de 1964, o presidente faz um comício em frente à Central do Brasil, no Rio, reunindo cerca de 100 mil pessoas. Antes, Jango institui por decreto a reforma agrária, irritando ainda mais a direita.

O Golpe - 31 de março: O general Mourão Filho parte de Juiz de Fora com tanques rumo ao Rio de Janeiro

O Golpe – 31 de março: O general Mourão Filho parte de Juiz de Fora com tanques rumo ao Rio de Janeiro

O Golpe

 

O mundo vive o auge da Guerra Fria e Jango era tido como ameaça comunista pelos EUA. O governo americano envia ao Brasil um aparato militar pronto para entrar em ação.

25 de março de 1964: Protesto de marinheiros no Rio de Janeiro contra a cúpula militar. O comandante dos Fuzileiros Navais, almirante Candido de Aragão, é demitido.

30 de março: Jango promete restaurar a patente dos militares demitidos.

31 de março: O general Mourão Filho parte de Juiz de Fora com tanques rumo ao Rio de Janeiro. Soldados tomam as ruas e prendem políticos, sindicalistas e estudantes.

Caça às bruxas - Políticos são cassados, entre eles os ex-presidentes Juscelino Kubistchek, Jânio Quadros e João Goulart.

Caça às bruxas – Políticos são cassados, entre eles os ex-presidentes Juscelino Kubistchek, Jânio Quadros e João Goulart.

Caça às bruxas

 

O presidente Jango foge para o Uruguai. Em 3 de abril de 1964, o presidente do Congresso, senador Moura Andrade, declara vaga a presidência da República.

O Congresso ganha poderes para escolher o novo presidente. Políticos são cassados, entre eles os ex-presidentes Juscelino Kubistchek, Jânio Quadros e João Goulart.

O marechal Humberto de Alencar Castello Branco toma posse em 15 de abril como presidente do Brasil. Ele permite a livre remessa de lucros ao exterior, intervém nos sindicatos e proíbe greves.

1968 - Ano da virada. Em 1968 intensifica-se a luta do movimento estudantil contra o regime militar.

1968 – Ano da virada. Em 1968 intensifica-se a luta do movimento estudantil contra o regime militar.

1968 – O ano da virada

 

Em 1968 intensifica-se a luta do movimento estudantil contra o regime militar. Em março, o estudante Edson Luiz é morto em confronto entre estudantes e policiais no Rio.

A morte deu ânimo aos protestos. Em 26 de junho, houve a Passeata dos 100 Mil, no Rio. O governo proíbe as manifestações de rua.

Em 13 de dezembro, o presidente Artur da Costa e Silva decreta o Ato Institucional Número 5. O AI-5 confere poderes extraordinários ao presidente, suspende garantias constitucionais e aumenta a perseguição aos opositores do regime.

CENSURA e prisão Após o golpe, as lideranças políticas, sindicais e estudantis foram aniquiladas por cassações, demissões, prisões, torturas e desaparecimentos

CENSURA e prisão
Após o golpe, as lideranças políticas, sindicais e estudantis foram aniquiladas por cassações, demissões, prisões, torturas e desaparecimentos. Viva o Pasquim!

Censura

 

Após o golpe, as lideranças políticas, sindicais e estudantis foram aniquiladas por cassações, demissões, prisões, torturas e desaparecimentos.

A censura dos militares forçava a criação de linguagens alternativas na imprensa, na música e nas artes.

Em dezembro de 1968, Gilberto Gil e Caetano Veloso são presos, ficando dois meses num quartel do Exército em Realengo, no Rio. Ao serem soltos, partem para um exílio voluntário em Londres.

Chico Buarque, que teve várias composições vetadas, parte para a Itália em 1969.

Anos de chumbo Na clandestinidade, a resistência recorre à luta armada. O Partido Comunista Brasileiro organiza uma guerrilha às margens do Rio Araguaia.

Anos de chumbo
Na clandestinidade, a resistência recorre à luta armada. O Partido Comunista Brasileiro organiza uma guerrilha às margens do Rio Araguaia.

Os Anos de Chumbo

 

Na clandestinidade, a resistência recorre à luta armada. O Partido Comunista Brasileiro organiza uma guerrilha às margens do Rio Araguaia.

Grupos de esquerda, como a Ação Libertadora Nacional (ALN) e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), realizam assaltos a bancos e sequestros para financiar a guerrilha.

Setembro de 1969: O embaixador dos EUA no Brasil, Charles Elbrik, é capturado no Rio e em troca é exigida a libertação de 15 presos políticos e a divulgação de um manifesto.

O governo atende às reivindicações e três dias depois os 15 prisioneiros seguem para o México.

Milagre econômico Transamazônica, Itaipu, Ponte rio-Niterói - E o Tri da seleção brasileira

Milagre econômico
Transamazônica, Itaipu, Ponte rio-Niterói – E o Tri da seleção brasileira

Milagre econômico

 

Em outubro de 1969 assume a presidência Emílio Garrastazu Medici, consolidando a estrutura da repressão.

A luta armada é sufocada e centenas de militantes são presos, torturados e mortos. Muitos estão até hoje desaparecidos.

Enquanto isso, o Brasil tinha um crescimento econômico em torno de 7% ao ano financiado por dívidas contraídas no exterior.

Foi um tempo de obras faraônicas como a hidrelétrica de Itaipu, a rodovia Transamazônica e a ponte Rio-Niterói.

O tri do Brasil na Copa de 70 foi usado pelo governo militar numa campanha de marketing que ligava sua imagem às vitórias do futebol.

A direita contra-ataca Em 30 de abril de 1981, uma bomba que seria plantada durante um show do Dia do Trabalho, no Rio Centro

A direita contra-ataca
Em 30 de abril de 1981, uma bomba que seria plantada durante um show do Dia do Trabalho, no Rio Centro

A direita contra-ataca

 

Na “caça aos comunistas” a direita também passa a usar táticas de guerrilha. Atentados a bomba destruíram bancas de jornais que vendiam publicações consideradas de esquerda, notadamente, O Pasquim.

Em 30 de abril de 1981, uma bomba que seria plantada durante um show do Dia do Trabalho, no Rio Centro, explodiu no colo de um sargento, revelando o envolvimento do Exército na campanha do terror.

A esquerda começa a se reorganizar. O líder sindical Luiz Inácio da Silva funda o Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980.

Diretas Já! Em agosto de 1979, o presidente João Figueiredo assina a Lei da Anistia e os exilados políticos começam a voltar ao Brasil.

Diretas Já!
Em agosto de 1979, o presidente João Figueiredo assina a Lei da Anistia e os exilados políticos começam a voltar ao Brasil.

Diretas Já!

 

No final dos anos 70, a sociedade pressionava para que os militares deixassem o poder.

Em agosto de 1979, o presidente João Figueiredo assina a Lei da Anistia e os exilados políticos começam a voltar ao Brasil.

A campanha das Diretas Já! exigindo eleições diretas para presidente se espalha pelo país. Em janeiro de 1985, o Congresso elege Tancredo Neves como primeiro presidente civil em 20 anos.

Tancredo adoece e o vice José Sarney toma posse. Tancredo falece um mês depois. São criados novos partidos e instaura-se a Assembleia Constituinte. Uma nova Constituição é promulgada em 1988.

Volta à democracia Após 25 anos, os brasileiros votam para presidente em eleições diretas. Fernando Collor de Mello (PRN) derrota Lula (PT) no segundo turno de eleições de 1989.

Volta à democracia
Após 25 anos, os brasileiros votam para presidente em eleições diretas.
Fernando Collor de Mello (PRN) derrota Lula (PT) no segundo turno de eleições de 1989.

Volta à democracia

 

Após 25 anos, os brasileiros votam para presidente em eleições diretas.

Fernando Collor de Mello (PRN) derrota Lula (PT) no segundo turno de eleições de 1989.

Dois meses depois, o Plano Collor confisca a poupança e taxa depósitos e aplicações financeiras. Em 1992, o irmão do presidente, Pedro Collor, revela um esquema de corrupção no governo.

No final do ano, o Congresso vota pela abertura do processo de impeachment de Collor, que renuncia em 29 de dezembro, antes de ser condenado.

Leia a Íntegra:

Linha do tempo: a ditadura

* Fonte: BBCBrasil/

Crônica/História: Éramos uma Ilusão em 1964… *

 

Éramos uma ilusão em 64…

 

Passeata Femininaamanha vai-ser-outro-dia-faixa-da-passeata

A ideologia “revolucionária” era um ensopadinho feito de JK, Marx, Getúlio, Iseb e sonho

O golpe de 64 aconteceu porque nós não existíamos. Éramos uma ilusão. A esquerda era uma ilusão no Brasil (já imagino as “cerdas bravas do javali” se eriçando em alguns cangotes). Pois não existíamos em 64. Mas, existia o quê? Existia uma revolução verbal. A ideologia “revolucionária” era um ensopadinho feito de JK, Marx, Getúlio, Iseb e sonho. Existia uma ideologia que nos dava a sensação de que o “povo do Brasil marchava conosco”, um wishful thinking de que éramos o “ sal da terra”.

Havia a crendice de que nossos inimigos estavam todos “fora” de nós e fora das estruturas políticas arcaicas (até hoje é difícil arrancar isso de dentro das cucas fóbicas ). Existia um “bacalhau português” em nosso discurso, um forte ranço ibérico em nossa postiça ideologia “franco-alemã”: o amor ao abstrato, ao uno totalizante. A população nem sabia que existíamos. Não havia nenhuma base material, econômica ou armada, “condições objetivas” para qualquer revolução. Por trás de nossas utopias, o Brasil escravista e patrimonialista dormia a sono solto. Nós éramos uma esquerda imaginária, delegando ao Estado a tarefa de fazer uma revolução contra o Estado. Como sempre em nossa história, até nas revoluções precisamos do governo.

Havia apenas um sindicalismo de pelegos e dependentes do presidente, que deu a grande festa de 13 de março (o comício da Central, com tochas da Petrobras). Eu estava lá, olhando para Thereza Goulart, linda de vestido azul e coque anos 1960, e vendo depois, com calafrio na espinha, as velas acesas em protesto em todas as janelas da chamada classe média “reacionária” do Flamengo até Ipanema. Essa era a verdadeira “sociedade civil” que acordava. Hoje, acho que o único que sacava a zorra toda era o próprio Jango, o mais brasileiro, mais sábio e que preferiu o exílio, já que não pôde segurar o trem, entre os gritos de Darcy Ribeiro falando do “Brasil, nossa Roma tropical!”. Havia uma espécie de “substituição de importações dentro da alma”: a crença de que éramos “especiais” e de que podíamos prescindir do mundo real, fazendo uma revolução pela vontade mágica. Mas, existia o quê, de concreto?

Existiam os outros. Os “outros” surgiram do nada. Surgiram categorias esquecidas pelos “ideólogos”. O óbvio de nossa cultura pipocou do “nada” em 64. Fantasmas seculares refloriram. Surgiu uma classe média reacionária e burra, que sempre esteve ali. Surgiu um exército ignorante e submisso às exigências externas e repressivas da Guerra Fria na América Latina.
A sensação que eu tive foi de acordar de um sonho para um pesadelo. Um pesadelo feito de milicos grossos, burrice popular e pragmatismo de gringos do “mercado”. (Foi inesquecível o surgimento de Castelo Branco, feio como um ET de boné verde na capa do “O Cruzeiro”). Um pesadelo feito de realidade.

E agora, outra “heresia” (mais cerdas eriçadas): eu acho que 64 foi “bom” para nos acordar. Foi uma porrada necessária. 64 abriu cabeças. Aprendemos muito. Ficamos conhecendo a ignorância do povo (que idealizávamos); descobrimos que a resistência reacionária de minhas tias era igual à dos usineiros e banqueiros. Descobrimos a burocracia endêmica, a “burguesia” nacional adesista a qualquer grana externa (que achávamos “progressista”). Descobrimos o óbvio do mundo.

Foi o início de uma possível maturidade. Despertamos para a bruta mão do money market, que precisava nos emprestar dinheiro, para que o Estado pós-getulista-verde-oliva avalizasse a instalação das multinacionais aqui. Ou vocês acham que iam nos emprestar US$ 150 bilhões para o Jango fazer a reforma agrária com o Darcy? Aprisionaram-nos para contrairmos a dívida como, 20 anos depois, nos libertaram para pagá-la. 64 ensinou que o buraco é muito mais embaixo. Em 64, vimos que a esquerda tinha “princípios” e “fins”, mas não tinha “meios”.

Em 64, descobrimos que o mundo anda sozinho e independe de conspirações individuais. Claro que a CIA armou coisas com direitistas daqui, mas foram apenas os parteiros de um “desejo material da produção” no momento capitalista do mundo. Nossos paranoicos acham que o “neoliberalismo” é uma trama da IBM e da Microsoft em Washington.

1964 foi um show de materialismo histórico, ali, na bucha. Mas ibérico não gosta de ver estas coisas. E logo tapamos os olhos e nos consideramos as “vítimas” da ditadura, lutando só pela “liberdade” formal. E não enxergávamos que faltava liberdade “real” em nossas instituições políticas de 400 anos. Com 64, poderíamos ter descoberto que um país sem sociedade organizada morre na praia. E deveríamos ter descoberto que não adianta nada analisar os “erros” de nossa esquerda “revolucionária”. O conceito de “esquerda” no Brasil tem de ser repensado de novo, pois é impossível trancar a complexidade de nossa formação nacional numa falange unificada. 1964 devia nos lembrar que uma esquerda aqui tem de ser dialogal, atenta aos vícios culturais do país, complexa e libertada da “ganga impura” do patrimonialismo tradicional do Sarney ou do novo patrimonialismo de Estado que o PT inventou.

Como os EUA lutaram contra o racismo, Vietnã, direitos civis, temos de lutar dentro da democracia. Nossa formação nos condena à democracia. O tempo não para, e as forças produtivas do mundo continuarão agindo sobre nossa resistência colonial que o PT preserva.

Quando entenderemos que a verdadeira revolução brasileira tem de ser endógena, democrática, porque as instituições seculares são a causa de nosso atraso e fracasso? As velhas palavras de ordem continuam comandando o governo atual. O medo à “globalização neoliberal” (ah… palavras mágicas da hora…) desloca o alvo do problema: o verdadeiro inimigo de uma nova esquerda deve ser a velha estrutura oligárquica e e burocrática do país, alojada no bunker do Estado. E aí vai o terceiro eriçamento das “cerdas bravas do javali”: o Estado não é a solução; o Estado é o problema. Só um banho de “liberalismo” pode ajudar a sanear esta “bosta mental sul-americana”, como disse Oswald de Andrade.

 

Arnaldo Jabor

 

 

*Autor: Arnaldo Jabor – Jornalista, colunista e comentarista.

 

* Fonte: O Globo Cultural.http://oglobo.globo.com/cultura/eramos-uma-ilusao-em-64-11969934