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1964/Histórias Tenebrosas – Coronel Revela: “Quantos morreram? Tantos quanto foram necessários” *

 

“Quantos morreram?

Tantos quanto foram necessários”,

diz coronel sobre regime militar

Em depoimento de mais de duas horas, Paulo Malhães admitiu que torturou, matou e ocultou cadáveres

Em depoimento de mais de duas horas, Paulo Malhães admitiu que torturou, matou e ocultou cadáveres

Foi só quando o carro embicou no pátio do Arquivo Nacional, no Centro do Rio, e o corre-corre da imprensa se amontoando ao seu redor começou – “Chegou!” – que as dúvidas sobre se o coronel reformado Paulo Malhães de fato apareceria se dissiparam.

 

Aos 76 anos, Malhães foi carregado do carro para a cadeira de rodas que havia solicitado para comparecer à audiência pública da Comissão Nacional da Verdade (CNV), cercado de fotógrafos e cinegrafistas.

O ex-agente do Centro de Informações do Exército (CIE) chegou acompanhado da esposa, vestindo um terno bege e um óculos escuros de aro dourado – que fez um repórter ao meu lado comentar que parecia o ex-ditador líbio Muanmar Khadafi.

Outra repórter arriscou puxar uma entrevista – ‘Você não se arrepende?’ – gritou, mas a cadeira de rodas era empurrada às pressas para a sala de depoimento, que seria fechada à imprensa. Malhães nem olhou para trás.

Desde que a CNV foi criada, em maio de 2012, apenas quatro agentes da ditadura haviam aparecido nas convocações para depor em audiência pública, e apenas dois haviam confirmado a prática, ou a existência, de tortura.

Malhães se tornou o quinto a depor e o primeiro a admitir a participação em tantos crimes.

Em depoimento que durou mais de duas horas, ele confirmou que torturou, matou e ocultou cadáveres de presos políticos na ditadura militar.

Casa da Morte

Na audiência pública, a CNV apresentou o que se sabe sobre a Casa da Morte de Petrópolis, um centro clandestino mantido pelo regime militar no início da década de 1970.

Malhães era um dos agentes ativos no centro de tortura – cujo nome vem da fama de que ninguém saía dali vivo. A única sobrevivente é Inês Etienne Romeu, presa e torturada por seis meses em 1971.

Argumentou que hoje as pessoas não conseguem entender quais eram os problemas enfrentados, e que a verdade precisa ser ‘informada’.

“Quantos morreram? Tantos quanto foram necessários.”

‘Não sou sentimental’

Dias e Cardoso faziam uma pergunta atrás da outra, muitas vezes cortando suas respostas pela metade. Malhães esboçou alguma impaciência mas permaneceu calmo, sempre tratando-nos por ‘senhores’.

Guerrilheiras mulheres, ele disse que via como se fossem homens. Mas ‘eu tinha verdadeiro pavor de interrogar as mulheres e, vamos dizer, gays, para não usar a palavra que se usava naquele tempo.’

Isso porque mulheres ou homossexuais, segundo o coronel, preferiam morrer a revelar os nomes dos amantes ou maridos. Já os homens falariam depois de duas ou três horas. ‘Você ‘ganhar’ uma mulher é uma coisa, assim, de outro mundo’, disse, sem precisar a que método de interrogatório se referia.

Culpa

Ao fim do depoimento, depois de confirmar seus crimes, Malhães foi empurrado na cadeira de rodas de volta para o carro, de volta para a rua, de volta para casa.

Mas deixou entrever o calvário pelo qual sua família começa a passar após ter começado a tornar públicos seus crimes.

Quando Dias insistiu para que falasse sobre os corpos que descaracterizava, ele se negou a informar quem ele havia ‘feito’. Disse não ter medo de vingança, mas de sanções aos seus filhos.

‘Seus filhos não têm culpa do pai que têm’, disse Dias.

‘É. Também concordo. Mas isso não é verdade. Eu tenho cinco filhos e oito netos. Com essas reportagens que saíram, eles estão sofrendo sanções’.

‘Mas sofreriam mais se soubessem – ‘meu pai cortou os dedos e cortou o pescoço de fulano de tal‘, ou então de uma pessoa cujo nome eles não sabem? Que diferença faz?‘, insistiu Dias.

‘Muita. Essa pessoa também têm família.’

Leia a Íntegra:

 

 

* Fonte: BBCBrasil no Rio de Janeiro  –  Júlia Dias Carneiro

1964: O Que a História Registra 1 *

A queda da democracia

Posse de Castelo Branco - O que seria transitório virou permanente

Posse de Castelo Branco – O que seria transitório virou permanente

Foi um começo de ano marcado por radicalização, agitações e instabilidade, ainda enquanto não se haviam dissipado, no ambiente político conturbado, os efeitos dos conflitos e manifestações de meses antes. Comícios e passeatas atraíam multidões, a favor e contra o governo. Intensificavam-se as articulações para a disputa presidencial que se aproximava. Mas a disputa jamais teria lugar. Quando, em 13 de março de 1964, o Rio parou para um comício em que o presidente João Goulart discursaria, seria difícil imaginar que em semanas o país estaria mergulhado em uma ditadura que, ao longo de 21 anos, cassou políticos, perseguiu adversários, torturou, assassinou e censurou.

Passados 50 anos, o país mergulha fundo na memória do período ditatorial. As publicações sobre a época são abundantes e os debates, intensos e disseminados, num movimento amplificado de análise e interpretação das origens e fatos do tempo da ditadura.

Nos últimos anos, tornou-se comum, entre historiadores, a opção por denominar tanto o golpe de 1964 quanto o regime autoritário que se seguiu como de caráter civil-militar – não só militar. O objetivo é realçar a participação de forças políticas e o apoio de grandes grupos econômicos à conspiração contra Goulart. Para Jorge Ferreira, que em parceria com Angela de Castro Gomes escreveu “1964: O Golpe que Derrubou um Presidente, Pôs Fim ao Regime Democrático e Instituiu uma Ditadura no Brasil” (Civilização Brasileira), “o golpe foi militar, mas teve ampla participação da sociedade: empresários, meios de comunicação, políticos, setores médios. Se o golpe claramente foi uma operação militar, teve sucesso graças ao amplo apoio civil”.

Os governadores de São Paulo, Adhemar de Barros; da Guanabara, Carlos Lacerda; e de Minas Gerais, Magalhães Pinto, colocaram suas polícias em ação. O presidente do Congresso Nacional, Auro de Moura Andrade, declarou vaga a Presidência da República quando Goulart ainda estava em território brasileiro. O Supremo Tribunal Federal, diz Ferreira, omitiu-se. Meios de comunicação celebraram o golpe, como se viu em dois editoriais do jornal carioca “Correio da Manhã” nos últimos dias da democracia, intitulados “Basta!” e “Fora!” A classe média se manifestou: em São Paulo, a Marcha da Família com Deus, pela Liberdade tomou as ruas em 19 de março, com milhares de participantes execrando um suposto perigo comunista encarnado pelo governo de Goulart. A marcha marcada para o dia 2 de abril no Rio acabou ocorrendo depois do golpe, rebatizada Marcha da Vitória.

“Há revisões em curso sobre o período, que ora convergem, ora divergem”, afirma o historiador Marcos Napolitano, da Universidade de São Paulo (USP), que publicou neste ano “1964: História do Regime Militar Brasileiro” (Contexto). “Se, por um lado, a ideia de ditadura civil-militar procura enfatizar o protagonismo civil no golpe e no regime, evitando o papel da ‘sociedade vítima’ do Estado, por outro, há uma tendência para reduzir a ‘ditadura’ aos anos de violência policial mais direta sobre a oposição política e a classe média.”

renuncia de janio quadros queda da democracia

“Acho muito importante deixar claro que o golpe de 1964 aconteceu, mas poderia não ter acontecido“, afirma Ferreira. “Vários indivíduos e instituições fizeram escolhas que acreditavam ser controláveis e previsíveis, mas acabaram se revelando completamente incontroláveis.” O historiador se reporta ao fato de que o período democrático vivido pelo Brasil entre 1946 e 1964 costuma ser analisado como próprio de um sistema instável e condenado de antemão ao fracasso. Mas essa avaliação decorre de uma visão em retrospecto, que analisa uma realidade pelo seu fim. Apesar de tentativas de golpe em 1951, 1955 e 1961, Ferreira considera que a democracia brasileira do período pós-Vargas tinha qualidades que ficaram esquecidas.

“Essa primeira experiência brasileira com democracia liberal representativa vinha se firmando a passos largos”, afirma. Ferreira cita os pontos positivos. “Todo o calendário eleitoral foi cumprido. Todas as eleições foram realizadas. Todos os eleitos tomaram posse. Havia grande participação da população nas eleições e existiam partidos com identidade própria, com perfil político-ideológico definido. E mais: fidelização do eleitorado. Diferentemente do que ocorre hoje, havia fidelidade dos eleitores à linha ideológica dos partidos.

A historiadora Miriam Dolhnikoff e a socióloga Angela Alonso organizam um seminário, em parceria com o Sesc, que debate as origens e o legado do regime militar. Pesquisadoras do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), elas deitam o olhar sobre o golpe em perspectiva panorâmica, que examina desde o governo de Goulart, iniciado em 1961, até a atualidade, a redemocratização nos anos 1980 e a investigação de violações dos direitos humanos durante o regime autoritário, com a Comissão Nacional da Verdade – com destaque para o fato de que o impacto de um episódio traumático como um golpe de Estado e uma ditadura vai além da política, atingindo manifestações culturais, a produção intelectual e acadêmica e o cotidiano da população. Todos esses são temas de mesas de debate do evento, que começou em São Paulo nesta semana e se encerrará no dia 25, com depoimentos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do sociólogo Francisco de Oliveira e do filósofo José Artur Giannotti.

O Cebrap [fundado em 1969] é fruto da ditadura: foi criado por professores universitários aposentados compulsoriamente”, diz Miriam. A historiadora avalia que o governo militar provavelmente não impediu a criação do centro porque sua prioridade era afastar os professores dos estudantes, pois poderiam ser inspiradores de contestação e mobilização. “Mas um centro de pesquisa não parecia ser algo muito ameaçador”, conclui. Ainda assim, a primeira sede do instituto de pesquisa, na rua Bahia, em São Paulo, foi alvo de um atentado a bomba praticado por desconhecidos.

Universidades sofreram com aposentadorias forçadas e demissões de professores, em duas ondas, conforme pesquisa do historiador Rodrigo Patto Sá Motta, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A primeira foi em 1964, após a derrubada de Goulart. A segunda foi em 1969, em seguida à promulgação do Ato Institucional 5 (AI-5), em dezembro de 1968. Foram revogados dispositivos que garantiam a estabilidade dos servidores públicos e, com isso, “o governo se armou de um aparato jurídico que permitia demitir e aposentar qualquer professor que quisesse”, diz Motta, que publicou o livro “As Universidades e o Regime Militar” (Zahar).

Mesmo naquele período repressivo, houve tentativas de resistir ou contornar as determinações do governo em diversas universidades, seja negociando para proteger professores que as reitorias consideravam indispensáveis por sua capacidade acadêmica, seja criando institutos fora das universidades, a exemplo do Cebrap. “Houve uma protelação, uma resistência passiva. Alguns atos punitivos acabaram não saindo e os órgãos de repressão ficaram frustrados, porque queriam um expurgo maior”, afirma Motta. A escolha dos professores a serem expurgados estava a cargo de um órgão obscuro, a Comissão de Investigação Sumária do Ministério da Educação e Cultura (Cismec), encabeçada por Jorge Boaventura de Souza e Silva, que, na juventude, havia sido militante integralista.

Em seguida aos expurgos, todo o sistema universitário brasileiro foi reformulado, em parte, seguindo um acordo fechado entre o regime militar, através do então Ministério da Educação e Cultura (MEC), e o governo americano, através da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid, na sigla em inglês). O sistema de pós-graduação brasileiro data desse período e o sistema de créditos também. O acordo MEC-Usaid, porém, não foi aplicado integralmente, por efeito da pressão da opinião pública. “Mesmo em uma ditadura, a opinião pública era capaz de forçar o governo a não renovar um acordo como esse”, comenta Motta. Em 1979, com a Lei de Anistia, os professores expurgados puderam escolher se voltariam ao trabalho ou se contariam o período do expurgo para cálculo de aposentadoria. Motta calcula que cada opção foi escolhida por aproximadamente metade dos demitidos.

(Continua na postagem seguinte)

* Fonte: Valor Econômico

1964: O Que a História Registra – (A Queda da Democracia – Final) *

A queda da democracia

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A memória da ditadura é cada vez mais presente no debate público brasileiro, sobretudo desde a instituição da Comissão da Verdade, em 2012, que colhe depoimentos de vítimas de tortura e familiares de desaparecidos políticos e deverá produzir um relatório final até 16 de dezembro. Comissões estaduais, municipais ou ligadas a universidades foram instaladas em seguida. Enquanto isso, ativistas em diversas cidades pressionam pela mudança de nomes de ruas e logradouros públicos que homenageiam personagens centrais do período autoritário.

Elementos do dia a dia político brasileiro são frequentemente associados a resquícios do período autoritário, como o poder de legislação nas mãos do Executivo (por meio de medidas provisórias) e a divisão das polícias estaduais entre civil e militar. Para Napolitano, “se existem fantasmas da ditadura, estão concentrados em alguns legados que não conseguimos superar, como na área de segurança pública, na qual impera uma visão militarizada de controle social do crime”.

Argentina e Uruguai, que também passaram por períodos de ditadura, já haviam instalado seus órgãos de apuração e punido responsáveis por atrocidades patrocinadas pelo Estado quando o Brasil criou sua Comissão Nacional da Verdade, em 2011. Para Miriam, a instalação tardia da comissão brasileira resulta do processo de redemocratização do país, obtida graças a um acordo com os militares. “O simples fato de existir a comissão é da maior importância, porque é indispensável que o Estado reconheça os crimes que cometeu”, afirma Angela Alonso.

Há também uma reavaliação da figura de João Goulart, que entrou para a história como um presidente vacilante e influenciável. Sua queda, como é mais comum ouvir, teria resultado da incapacidade de controlar a radicalização da esquerda, comandada por Leonel Brizola, então deputado federal, ou da vacilação em levar adiante tanto o projeto de reforma agrária quanto o plano trienal formulado pelo economista Celso Furtado e pelo ministro da Fazenda, San Tiago Dantas, que deveria estabilizar a economia e abrir caminho para reformas estruturais. Retratos mais nuançados mostram um Jango conciliador e inclinado a longas negociações, que, no fim, presidiu com dificuldades um país radicalizado e sucumbiu à intransigência de seus opositores.

Napolitano evoca uma frase de Darcy Ribeiro, chefe da Casa Civil de Jango, segundo a qual o presidente caiu mais por suas virtudes do que por seus defeitos. Entre essas virtudes estaria o esforço por mudar a pauta política brasileira, “questionando dois eixos fundamentais da nossa exclusão secular: as restrições à posse de terra e ao direito do voto”. Jango teria sido um presidente que tentava reformar o capitalismo brasileiro, “um projeto muito ambicioso para seu perfil moderado e para a difícil conjuntura econômica e política”, em plena Guerra Fria.

Para Ferreira, autor de uma biografia de Goulart publicada pela editora Civilização Brasileira, Jango cometeu dois grandes erros, que comprometeram seu governo. O primeiro foi o abandono do Plano Trienal, cuja primeira etapa incluía aumento de juros e cortes de subsídios. Na segunda etapa, o crescimento seria retomado com a reforma da posse fundiária. Goulart não resistiu às pressões dos sindicatos e dos empresários, afetados, respectivamente, pelo arrocho salarial e pelo aperto no crédito. O segundo erro ocorreu em 1963, quando os movimentos sindical e estudantil já tomavam as ruas e as forças da direita conspiravam. San Tiago Dantas percebeu os riscos da radicalização e propôs a formação de uma Frente Progressista, reunindo o PSD (Partido Social Democrático, centrista) e a ala moderada do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro, de esquerda), para dar apoio a Jango. Brizola formou a Frente Única de Esquerda, que incluía o CGT (Comando Geral dos Trabalhadores) e o PCB (Partido Comunista Brasileiro). “Ao comparecer ao comício na Central do Brasil, Jango demonstrou que tinha fechado com Brizola. Ele sela publicamente essa aliança”, diz Ferreira. “Essa foi a senha para as direitas partirem para o golpe.”

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Goulart poderia ter cumprido seu mandato, não fosse a precipitação de uma série de eventos, que contaram com a participação de lideranças intransigentes à esquerda e à direita, financiamento estrangeiro e escolhas equivocadas. Ele presidiu de fato a partir de janeiro de 1963. Em 1961, quando Jânio Quadros renunciou à Presidência, Goulart, que era vice-presidente e estava em visita oficial à China, pôde assumir com o apoio da Campanha da Legalidade, liderada por seu cunhado, Brizola, que governava o Rio Grande do Sul. Às pressas, o Congresso aprovou emenda constitucional que instituiu o regime parlamentarista, evitando o risco iminente de guerra civil. Em janeiro de 1963, um plebiscito para decidir se prosseguiria o parlamentarismo ou voltaria o presidencialismo terminou com 82% dos votos para a segunda opção.

Anunciado em dezembro de 1962, o Plano Trienal estaria no centro dos debates no Congresso nos meses seguintes. Jango desistiria de medidas de austeridade então propostas, com o que, se atendia a pressões de seus aliados à esquerda, sobretudo os sindicalistas, o fez perder o apoio de parte significativa das lideranças empresariais. Mesmo o governo de John Kennedy era simpático a Goulart, no início.

Uma revolta de sargentos, em setembro de 1963, impedidos pelo Judiciário de se candidatar a cargos legislativos (assim como suboficiais e cabos), colocou a cúpula militar em alerta. O impasse que envolvia os principais partidos da base governista, PTB e PSD, nos debates sobre a proposta de reforma agrária do governo era engrossado pela disputa de influência, na mesma discussão, por militares abaixo do oficialato, sindicalistas e estudantes. Com a aproximação das eleições de 1965, os possíveis candidatos a ocupar a cadeira presidencial – Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda e Magalhães Pinto -tinham pouco interesse em fortalecer o presidente.

Na espiral de radicalização, destacava-se Carlos Lacerda, governador da Guanabara (Estado que abarcava o atual município do Rio de Janeiro), personagem de relevo entre os civis que se envolveram na trama anti-Goulart. Lacerda tinha ambições presidenciais, mas passou para a oposição quando o regime militar suspendeu as eleições. Em 1966, com Juscelino e Goulart, formou a chamada Frente Ampla, de oposição ao regime, extinta em abril de 1968 por portaria do ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva.

Na esquerda, Brizola, então deputado federal pela Guanabara, tentava capitalizar o prestígio adquirido à frente da Cadeia da Legalidade, movimento de resistência que, como governador do Rio Grande do Sul, organizara para garantir a posse de Jango em 1961 – com o qual contribuiu para que, afinal, se fizesse o plebiscito. Depois do golpe, tentou organizar a resistência armada no Sul, mas Jango preferiu evitar um provável derramamento de sangue. Brizola exilou-se no Uruguai, para onde Goulart já partira. Voltou ao Brasil em 1979, e elegeu-se duas vezes governador do Rio.

Após o Brasil recusar-se a participar de um ataque a Cuba, como queriam os Estados Unidos, durante a chamada crise dos mísseis, em 1962, Washington passou a financiar a oposição a Goulart, por meio de organizações como o Ibade (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Com a chegada de Lyndon Johnson ao poder, passou-se à pura incitação ao golpe, que culminou com o envio de uma força-tarefa naval para as proximidades de Santos, com a missão de garantir sustentação aos insurretos em caso de reação do governo. Mas o general Olímpio Mourão Filho pôs suas tropas em movimento na noite de 31 de março, de Minas para o Rio, antes do combinado com outros líderes da conspiração. Os navios americanos deram meia-volta. O golpe se consumava.

Leia também:

Almino Affonso: A história de quem perdeu

A ditadura na estante

* Fonte: Valor Econômico

Crônica/Telurismo: Preparando o Regresso… – Por Marco Soares *

SOBRE REGRESSO

 (Ninguém se perde no caminho de volta)

 

Sanharó praça com aigreja foto antigaSanharó Prefeitura e antigo cinema

estaçao ferroviaria de sanharo022ponte-férrea-sobre-o-rio-ipojuca  Foto Marco Aurélio Oabelhudo

“Se algum dia/A minha terra eu voltar/Quero encontrar/As mesmas coisas que deixei/Quando o trem parar na estação/Eu sentirei no coração/A alegria de chegar/De rever a terra em que nasci/E correr como em criança/Nos verdes campos do lugar/Quero encontrar//A sorrir para mim/O meu amor na estação a me esperar/Pegarei novamente a sua mão/E seguiremos com emoção/Pros verdes campos do lugar/E reviver os momentos de alegria/Com meu amor a passear/Nos verdes campos do meu lar.”

Os Verdes Campos do meu Lugar – Agnaldo Timóteo

 

 

Deixar a terra natal é quase sempre uma questão de escolha. Mas, pode ser uma escolha livre, espontânea ou uma questão de sobrevivência. Em qualquer circunstância, em algum momento da vida não raro se cogita o regresso pelas mesmas razões.
O que se torna fundamental é preparar o espírito para compreender que não se encontrarão os mesmos cenários, as mesmas emoções. A vida é dinâmica, o progresso traveste tudo. A composição musical que inspirou o texto é meramente romântica.

Aqui e acolá, por vezes, ainda se enxergarão alguns resquícios dos tempos outros, quer físicos, quer emocionais. Não mais que isso. Veja-se o caso de Sanharó, esta terra que eu levo comigo em cada canto que eu vou: existia o trem, que estava lá todos os dias a parar na estação; existiam partes do hoje combalido rio Ipojuca (temporário) onde podíamos tomar banho, pescar; existiam matas virgens onde se podia caçar sem causar danos significativos à natureza; existia tranquilidade para se invadir as madrugadas em românticas serestas; existia familiaridade tamanha entre os moradores que éramos capazes de discorrer sobre a genealogia de qualquer pessoa que encontrávamos nas ruas; existia o sentimento de respeito ao próximo, de fraternidade, de religiosidade, que compunham uma engrenagem social pacífica, e harmônica; existia uma atmosfera de sobriedade e candura.

Hoje a cidade está brutalizada: a poluição sonora perturba nossos tímpanos; a situação do nosso emblemático rio é uma agressão aos nossos olhos e narinas; os campos desmatados evidenciam com mais ênfase as feridas das secas; eventos sociais deixam transparecer a falta de postura equilibrada dos nossos jovens – segmento social tão importante de uma coletividade; as drogas comprometem a segurança da sociedade; a falta de políticas públicas deixa a juventude sem perspectivas; não há espaços para as crianças e para os idosos.

Errou-se: os interesses individuais sobrepujaram os coletivos, arruinando valores, comprometendo o bem estar social.
A despeito de tudo isto, muitos desejam, sim, retornar às origens. É da natureza humana. Como bem disse o paraibano José Américo de Almeida “voltar é uma forma de renascer”.

E tem uma explicação lógica: além dos fatores emotivos, vê-se que as grandes cidades, em que pese oferecerem mais opções de lazer, mais recursos na área de saúde, maior preocupação com todas as faixas etárias, maiores facilidades tecnológicas, etc., tem os males das pequenas cidades amplificados.

Num balanço quantitativo e qualitativo de prós e contras a vida nas pequenas cidades interioranas acaba tendo uma ligeira vantagem (sim, porque como disse o Marcola numa entrevista, “estamos todos no inferno”), especialmente para aqueles que já se enxergam se aproximando da linha do horizonte rumo ao ocaso (da existência).

O Portão – Roberto Carlos

Sou candidato (calma, gente, a voltar!). Espero – aliás é uma coisa que eu tenho certeza se ele vivo estiver- encontrar o meu cachorro a sorrir para mim, para revivermos os momentos de alegria e passearmos por todos os cantos do lugar, sempre. Até que a morte nos separe.

marco soares

 

* Autor: Por Marco Soares –  Marco Aurélio Ferreira Soares é engenheiro civil, professor, colaborador pioneiro do OABELHUDO, escritor, autor de sete livros, cronista e poeta.

Brasil/Homenagem : Morre Bellini, o capitão da Suécia em 1958 *

A Seleção se desfazendo…

BRASIL CAMPEÃO MUNDIAL DE 1958

Vicente Feola (técnico), Djalma Santos Zito, Bellini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar em pé. Agachados: Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagalo e Mario Américo (massagista)

Vicente Feola (técnico), Djalma Santos Zito, Bellini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar em pé. Agachados: Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagalo e Mario Américo (massagista)

selecaobrasileira1958 em pé no campo

Capitão da seleção brasileira campeã mundial em 1958 e reserva na equipe do título da Copa de 1962, o ex-zagueiro Hilderaldo Luís Bellini, o Bellini, morreu nesta quinta-feira, aos 83 anos.

O ex-jogador estava internado com um quadro de parada cardíaca e apneia na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) de um hospital de São Paulo.

Bellini sofria há mais de 10 anos com o Mal de Alzheimer. No mês passado, após ficar hospitalizado por 60 dias, passou a receber acompanhamento médico em casa. O quadro da doença vem piorando gradativamente e, há cerca de três anos, o ex-zagueiro perdeu a fala.
O ex-atleta iniciou sua carreira no Itapirense, de Itapira (SP), sua terra natal, e se tornou famoso no Vasco, onde chegou em 1952 e jogou até 1961.

Ele acabou sendo o responsável em criar o famoso gesto de levantar a taça de campeão. Segundo relatou, o gesto foi feito para que todos do estádio pudessem ver o troféu.

Esse gesto perpetuou-se. Uma estátua foi erguida em frente ao estádio do Maracanã...

Esse gesto perpetuou-se. Uma estátua foi erguida em frente ao estádio do Maracanã…

O ato acabou virando universal e repetido, entre outros, por todos os capitães brasileiros nas conquistas de 1962, 1970, 1994 e 2002.
Ele conquistou 10 títulos pelo clube carioca, entre eles três estaduais e um Rio-São Paulo. Bellini jogou por cinco anos no São Paulo, mas não conquistou nenhum título.

Pela seleção brasileira, além da Copa do Mundo de 1958, conquistou também a Copa de 1962 e duas edições da Copa Roca.
Sua foto levantando a Taça Jules Rimet com as mãos sobre a cabeça é uma das marcas do futebol brasileiro, e passou a ser repetida por todo capitão ao levantar a taça.

O gesto virou estátua na entrada do Maracanã, que recebe muitas visitas de turistas.

Bellini nasceu em 7 de junho de 1930, em Itapira (a 164 km de São Paulo).

Jogou futebol amador no Itapirense e entre 1949 e 1952 defendeu a Esportiva Sanjoanense, de São João da Boa Vista.

Em 1952, foi contratado pelo Vasco, onde foi campeão estadual naquele ano e também em 1956 e 1958. Foi campeão ainda do Rio-São Paulo, também em 1958.

Sua primeira convocação para a seleção foi em 1956.

Ele também fez parte da equipe campeã mundial em 1962, mas era reserva.

* Fonte: Terceiro Tempo

Brasil/Homenagem : Congresso comemora os 20 anos do Plano Real *

Congresso homenageia Itamar

e Fernando Henrique pelos

20 anos do Plano Real

 

FHC era ministro da fazenda e Itamar Franco presidente da República na implantação do P`lano Real

FHC era ministro da fazenda e Itamar Franco presidente da República na implantação do Plano Real

Ao comentar, hoje (25), a atual política econômica, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-1998 e 1999-2002) disse que o Brasil está, neste momento, em um compasso um pouco diferente do do resto do mundo, e que isso precisa ser ajustado. Segundo ele, não se pode dizer que a inflação no Brasil não está sob controle.

Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comenta a atual política econômica  Wilson Dias/Agência Brasil

Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comenta a atual política econômica Wilson Dias/Agência Brasil

“Não posso ser injusto e dizer que o governo não controla a inflação. Eu [quando presidente da República] tinha 20%, 30% ao mês [de inflação]. Agora [a inflação] é 6% ao ano. Isso não quer dizer que não tenhamos que continuar controlando. Eu me preocupo, sim, com a questão de cumprir o programa de metas da inflação e com a responsabilidade fiscal. A política econômica não é receita, é navegação. Temos que ver, a cada momento, o que se deve fazer”, ressaltou Fernando Henrique, minutos antes do início da sessão do Congresso Nacional em comemoração aos 20 anos do Plano Real. Para ele, a economia ter de ser avaliada sempre e não pode ser gerida por uma ideia fixa.

Implantado em 27 de fevereiro de 1994, no governo Itamar Franco (1992-1994), com a edição da Medida Provisória 434, o plano foi um grande programa de estabilização econômica que teve como objetivo controlar a hiperinflação que atingia país. Antes da mudança da moeda de cruzeiro real para real, os brasileiros tiveram a Unidade Real de Valor (URV), moeda virtual criada para ajudar na transição. Fernando Henrique Cardoso era, então, ministro da Fazenda.

Ele lembrou a tensão reinante na véspera do lançamento do plano. “Havia muita incompreensão. As pessoas tinham receio de que a URV fosse prejudicar os trabalhadores. Havia muita resistência de ministros, mas o presidente Itamar foi firme. Em pouco tempo, a população entendeu e aderiu. Isso é que é importante. Está na hora de tomar outras decisões – não vou dizer o que é, mas o povo sente que está na hora de apontar um novo rumo“, ressaltou.

Na sessão solene, o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), destacou a importância do plano para a estabilização da economia e melhoria da renda dos mais pobres. Tudo isso é muito positivo, mas há ainda um longo caminho a percorrer para a redução das desigualdades no Brasil, disse Renan. “O importante é que o primeiro passo já foi dado, lá atrás, em 1994, com o Plano Real, um patrimônio do Brasil e de sua sociedade”, ressaltou o senador, que também homenageou o ex-presidente Itamar Franco, morto em 2011.

Para o senador Aécio Neves (PSDB-MG), que propôs a sessão especial, desde a implantação do Plano Real, renasceu no Brasil a esperança da construção de um futuro planejado. De acordo com Aécio, antes do plano, a inflação e a desordem nas finanças públicas deixaram o Brasil à beira do caos, em várias ocasiões.

O senador mineiro destacou que os princípios do Plano Real foram apropriados de tal forma por nossa sociedade que, desde então, os sucessivos governos não abriram mão de sua defesa. “Entretanto, o tempo passa e uma nova geração de brasileiros – aqueles que eram muito jovens em 1994 e os que hoje têm menos de 20 anos – não viveram o horror da inflação, como seus pais. Mesmo a nossa memória se relativiza com o passar dos anos“, ressaltou Aécio Neves.

* Fonte: Agência Brasil – Karine Melo – Repórter da Agência Brasil

Crônica/Opinião: Pesqueira – Dos Áureos Tempos e a Perspectiva de Hoje – Por Ivonaldo Leite *

Luzes da ribalta sobre a centenária Pesqueira:

entre o passado e o futuro

 

Tempos áureos com a Fábrica Peixe em plena atividade

Tempos áureos com a Fábrica Peixe em plena atividade

 

“…luzes da ribalta histórica que estão sobre a própria cidade”.

 

 

Pesqueira Fabrica Rosa e o cruzeiro ao fundoFabrica Peixe foto antiga em trabalho

“Quando uma luz se apaga fica mais escuro do que se jamais ela tivesse brilhado”. Ao tomar de empréstimo esta frase à peça shakespereana Ricardo III, o escritor estadunidense John Steinbeck talvez estivesse, em síntese, a dar expressão a duas de suas principais obras: Para um Deus Desconhecido e O Inverno da Nossa Desesperança. Uma sensação de nostalgia, lapidada pelo turvo travo do tempo, e, por outra parte, de incerteza em relação ao que virá.

Para aqueles que tomam contato com a história de Pesqueira, cidade situada no agreste pernambucano, e que são apreciadores dos clássicos da literatura universal, sabem que é possível estabelecer uma conexão entre obras desta (como as de Steinbeck) e o percurso daquela.

Cidade pioneira na industrialização, Pesqueira foi, durante o século XX, um pólo industrial de destaque no país, no tocante à fabricação de doces, cujas raízes remontam ao fim do século XIX, com a fundação da Fábrica Peixe, em 1898, por obra do empreendedorismo local através de Carlos Frederico Xavier de Britto, resultando daí as Indústrias Carlos de Britto S.A.

Não demorou muito para a empresa se fazer presente em Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Somando-se à Peixe, e dando dinamismo ao polo do doce pesqueirense, outras fábricas surgiram, como a Tigre, Touro e Rosa.

Para fazê-las funcionar, as mãos dos trabalhadores operavam com máquinas de alta tecnologia, na época, importadas da Europa, Estados Unidos e Canadá. Dos arredores rurais da cidade, chegava a goiaba em grande volume, para o fabrico da goiabada, vindo depois o tomate para a produção dos seus derivados. Foi assim que a cidade chegou a ser mencionada como um dos maiores polos produtores de doce da América Latina.

Esse quadro de pujança econômica, aliada à dimensão histórica da cidade, cuja origem centenária remonta à definição do território de Pernambuco no período colonial, fazia de Pesqueira uma cidade ímpar no estado. Todavia, a realidade começou a mudar a partir da segunda metade do século XX. Foi se instaurando o declínio do polo industrial de Pesqueira, com as fábricas reduzindo a produção e encerrado as suas atividades. A última a se manter em funcionamento foi exatamente a mais antiga, a Fábrica Peixe.

Mas, em 2002, em um último ato sem despedidas e aplausos, as luzes da ribalta também se apagaram para ela: inesperadamente, de surpresa, uma delegação da então italiana Cirio, última controladora da Peixe, amanheceu o dia em seus portões para decretar o seu fechamento. Em seu apoio, a delegação trouxe um grande efetivo para reprimir eventuais protestos dos trabalhadores. Terminava o último capítulo de uma história de mais de cem de anos de Pesqueira na fabricação de doces.

“Quando uma luz se apaga fica mais escuro do que se jamais ela tivesse brilhado.” O prédio da outrora Peixe agora abriga a feira livre, e, numa espécie de “rito antropológico” (em decorrência de a cidade ter referenciado a sua identidade na existência das fábricas, sobretudo a mais antiga), concede-se, ainda hoje, que se faça soar o seu apito, como se a Fábrica continuasse a funcionar.

Teses de doutorado e dissertações de mestrado já foram escritas sobre o polo da indústria do doce de Pesqueira. Algumas abordagens andaram a procura das causas do seu declínio. Contudo, a impressão que se tem é que, apesar do já dito, ainda falta algo a dizer, principalmente do ponto de vista da sociologia do trabalho/desenvolvimento e da história econômica/social.

A perda do controle acionário da Fábrica Peixe pela família dos seus fundadores, o aparecimento do fungo que inviabilizou a continuidade da produção de tomates no município, a imobilidade dos agentes públicos em defesa da economia da cidade, os reflexos na economia brasileira do seu caráter dependente-associado (ao capital externo), etc., são exemplos de variáveis a ter em conta.

Museu do Doce IvonaldoCarlos Xavier de Brito e dona YayáMoacyr de Brito e dona Rute

Nos dias presentes, afora a produção feita de forma artesanal e por pequenos empreendimentos, o que restou da centenária indústria do doce pesqueirense pode ser observado apenas como registro histórico, graças, por exemplo, ao abnegado empenho do sr. Hugo Paixão, fundador do Museu do Doce, no mesmo local onde funcionava a Fábrica Rosa.

Pesqueira O Cruzeiro  e o mirante  305038_135320893298057_486875071_nPesqueira vista do Cruzeiro

O registro histórico, por vezes, é carregado de laivos de nostalgia. E isso se aplica ao caso aqui em tela. Mas, o plano histórico também tem outra dimensão. Como já foi dito, “a história é um profeta com olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será”.

Ainda tateando por novos caminhos para a sua economia, em substituição ao que foi um século de indústria doceira, a cidade de Pesqueira oscila entre a nostalgia do passado e os desafios do porvir. Poderá trilhar caminhos venturosos, se tirar as devidas lições do passado. Isto é, se olhar as luzes da ribalta histórica que estão sobre a própria cidade.

 

* Autor: Ivonaldo Leite – Professor da Universidade Federal da Paraíba. (Postado originalmente no blogdomagno)

História/Efemérides: 30 Anos das Diretas Já e 20 Anos do Plano Real. O que vem por aí? *

 

 

Trinta anos da Diretas Já e 20 anos do Plano Real podem inflamar protestos e influenciar na campanha deste ano

 

Comício das Diretas Já  -  foto: colunistas.ig.com.br

Comício das Diretas Já – foto: colunistas.ig.com.br

 

 

Além da Copa do Mundo e dos protestos que podem voltar em junho/julho, dois aniversários devem ocupar a pauta política do Brasil neste ano de eleição.

Os 30 anos das Diretas Já e dos 20 anos da criação do Plano Real têm “potencial” para trazer o passado para o debate e influenciar na campanha presidencial.

Campanha das Diretas Já - Movimento maior, (foto DP)

Campanha das Diretas Já – Movimento maior, (foto DP)

 

Desde o início deste mês as Diretas estão sendo relembradas e festejadas.

Já o Real deve começar a motivar discussões sobre as transformações vividas pelo país a partir da estabilização da moeda.

20 Anos do Plano Real - Estabilidade econômica e o fim da inflação (foto Ayron Santos DP)

20 Anos do Plano Real – Estabilidade econômica e o fim da inflação (foto Ayron Santos DP)

Neste último caso, é bem provável que o pré-candidato do PSDB ao Planalto, Aécio Neves, faça do Plano um “cabo eleitoral”.

Afinal, a idealização do projeto, a elaboração das medidas do governo (Itamar Franco) e a execução das reformas econômica e monetária foram tocadas pelo então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, que acabou se tornando, no ano seguinte, o primeiro Presidente da República tucano.

01/01/1995 - Posse FHC e Marco Maciel. Itamar Franco ao centro (foto Eraldo Peres CB)

01/01/1995 – Posse FHC e Marco Maciel. Itamar Franco ao centro (foto Eraldo Peres CB)

 

 

Já as Diretas devem ser exploradas pelos presidenciáveis indistintamente. Isso porque de alguma maneira os que aparecem como possíveis concorrentes têm alguma conexão com a campanha que, em plena ditadura militar, mobilizou as massas pela recuperação do direito de votar para presidente.

* Fonte: Blog Política/Josué Nogueira

Canetadas On Line/Homenagem ao Doutor Joaquim Cavalcanti de Britto – Por Jurandir Carmelo *

DR. JOAQUIM DE BRITTO

 

 dr. Joaquim de Brito, do jornal folha de Pesqueira, do ano II, número XIV - Pesqueira, 20 de Fevereiro de 1949. Diretor: Paulo de Oliveira (meu pai), dos arquivos de Jurandir Carmelo.

dr. Joaquim de Brito, do jornal folha de Pesqueira, do ano II, número XIV – Pesqueira, 20 de Fevereiro de 1949. Diretor: Paulo de Oliveira (meu pai), dos arquivos de Jurandir Carmelo.

 

 

Após essa movimentação em torno da reforma do Estádio Joaquim de Brito, muitas pessoas me perguntam se eu sei dizer alguma coisa sobre o Cidadão Joaquim de Brito. Quem era o Dr. Joaquim de Brito? Prometi responder e aqui estou cumprindo o prometido.

Sobre o Dr. Joaquim de Brito, busquei nos meus arquivos sobre Pesqueira, especialmente, nos velhos jornais do meu saudoso Pai, o Jornalista Paulo de Oliveira, o que contar para essa gente nova sobre o patrono do estádio que acaba de ser entregue aos desportistas.

Separei edições publicadas dos jornais “CORREIO DE BRITO”, que circulou de 1927/1930, o qual era de propriedade dos irmãos Cândido e Joaquim de Brito, tendo nos saudosos nos jornalistas Peixoto Sobrinho e Paulo de Oliveira, os editores chefe e adjunto.

Preferi, entretanto, utilizar as matérias jornalísticas do jornal “FOLHA DE PESQUEIRA”, que circulou de 1947 até 1962, com números intercalados, quando do falecimento do seu Proprietário e Diretor, o meu saudoso Pai, cujo nome acima já foi declinado, até porque quando do falecimento do Dr. Joaquim de Brito, Paulo de Oliveira fechou duas edições relatando a vida do ilustre pesqueirense. Confesso que existem matérias suficientes para publicar um livro, em coletânea.

Entre os jornais que guardo, com muito carinho, da “FOLHA DE PESQUEIRA”, encontrei duas edições publicadas sobre o Dr. Joaquim de Brito. A primeira delas, no dia 20 de Fevereiro de 1949, em um domingo, com ampla reportagem sobre o industrial, sócio da Fábrica Peixe, e fundador da Fábrica Peixe de São Paulo, em homenagem ao seu falecimento, ocorrido no dia 8 de Fevereiro de 1949, às 20h30min, na cidade do Recife, com ampla cobertura jornalística, contando como ocorreu a sua morte e o seu sepultamento, como veremos em notas abaixo.

A segunda edição da “FOLHA DE PESQUEIRA”, a que me referi, anteriormente, foi publicada em data de 30 de setembro de 1951, circulando, também, em um dia de domingo. Nessa segunda edição, a motivação eram as homenagens pós-morte que a cidade de Pesqueira prestava ao distinto filho, que tanto fez pela sua terra natal e a sua gente.

Flagrante de dr. Joaquim Cavalcanti de Brito em 02 de fevereiro de 1947 na vila de Cimbres

Flagrante de dr. Joaquim Cavalcanti de Brito em 02 de fevereiro de 1947 na vila de Cimbres

A manchete dessa segunda edição, bem diz dessa motivação, quando assim se pronunciou:

PESQUEIRA RESGATOU UMA DÍVIDA DE GRATIDÃO NAS HOMENAGENS PRESTADAS À MEMÓRIA DO DR. JOAQUIM DE BRITO. INAUGURAÇÕES DA AVENIDA QUE TEM O NOME DO SAUDOSO INDUSTRIAL PESQUEIRENSE E DO BUSTO QUE SE ERGUE À ENTRADA DA VILA DE MIMOSO. MISSA E ORAÇÃO GRATULATÓRIA NO CONVENTO DESTA CIDADE.

Aqui em Canetadas on line, vamos mostrar um pouco dessas reportagens feitas pelo Jornalista Paulo de Oliveira, com mais ênfase para a primeira edição da “FOLHA DE PESQUEIRA” – Ano II – Nº XIV, Edição com 08 (oito) publicada no domingo, dia 20 de Fevereiro de 1949, tendo como Diretor Paulo de Oliveira.

São notas soltas, sem atentar para qualquer ordem cronológica, cujo trabalho que objetiva tão somente mostrar ao povo de Pesqueira, aos que se interessam pela sua história, quem foi o Dr. Joaquim de Brito, Britto antes escrito com dois “TT”.

Em resumo a manchete diz tudo daquela edição da FOLHA DE PESQUEIRA diz tudo que consta naquela publicação, em edição com oito (8) páginas, em frente e verso. Eis a manchete:

DR. JOAQUIM CAVALCANTI DE BRITO. AS HOMENAGENS À MEMÓRIA DO INDUSTRIAL JOAQUIM DE BRITO FORAM UMA AFIRMAÇÃO DA ESTIMA E DA GRATIDÃO DOS SEUS CONTERRÂNEOS. COMO ECOOU A NOTÍCIA DO FALECIMENTO. A CHEGADA DO TREM ESPECIAL QUE TRANSPORTOU O CORPO A ESTA CIDADE. AS DEMONSTRAÇÕES DE PESAR. EM CÂMARA ARDENTE, O ILUSTRE MORTO É VISITADO POR INCALCULÁVEL MULTIDÃO. O ENTERRO. LUTO OFICIAL POR TRÊS DIAS. NA CÂMARA MUNICIPAL. VIDA BIOGRÁFICA. OUTRAS NOTAS.

A SEGUIR A AMPLA REPORTAGEM, TENDO COMO REPÓRTER O DIRETOR E PROPRIETÁRIO DA “FOLHA DE PESQUEIRA”, O JORNALISTA PAULO DE OLIVEIRA.

BIOGRAFIA.

O Dr. Joaquim Cavalcanti de Britto nasceu em Pesqueira no dia 25 de abril de 1893, sendo seus pais o coronel Carlos Frederico Xavier de Britto e dona Maria da Conceição Cavalcanti de Britto (fundadores da Fábrica Peixe), sendo seus irmãos Cândido Cavalcanti de Britto, Carlos Cavalcanti de Britto, Manuel Caitano de Britto, senhoras Alice Britto de Freitas, casada com o Sr. Adalberto Cavalcanti de Freitas, Adélia de Britto e Silva, viúva do Sr. Agostinho Silva; Judite Britto de Castro, esposa do Sr. Antonio Hermenegildo de Castro; Constança Britto de Oliveira Andrade, casada com o Dr. Eurico Britto de Oliveira Andrade; e Emilia Cavalcanti de Britto.

OS ESTUDOS. AS PRIMEIRAS LETRAS E A UNIVERSIDADE, NA ALEMANHA. A ESPECIALIZAÇÃO NA FILADÉLFIA, ESTADOS UNIDOS.

O Dr. Joaquim de Brito estudou as primeiras letras no colégio do monsenhor Fabrício e iniciou o curso de humanidades, no Colégio Porto Carreiro. Em Saint Gall (Suíça) fez o curso preparatório de línguas e matemática para ter acesso à Escola de Eletricidade de Mittweida (Alemanha), na qual se titulou engenheiro eletricista, em 14 de agosto de 1914. Da Europa, passou à Filadélfia, nos Estados Unidos, onde se aperfeiçoou em eletricidade e fez o curso de mecânica.

A VOLTA PARA O BRASIL.

De volta ao Brasil, em 1919, trabalhou como técnico de eletricidade da Pernambucotramways and Power Co. Ltda., fundando então a firma J. Britto & Cia., especializada em instalações elétricas. Como técnico dessa especialidade, montou a Usina Elétrica de Campina Grande, tornando-se concessionário do serviço de iluminação daquela cidade Paraibana.

O CASAMENTO.

> Em 1924, contraiu casamento com a senhora Ana Didier de Brito, tendo desse consorcio dois filhos varões, Paulo Didier de Brito (solteiro), industrial, diretor da Companhia Paulista de Alimentação (Biscoitos Duchen) e subdiretor das Indústrias Alimentícias Carlos de Brito S/A (Fábricas Peixe); e o estudante pré-universitário Jorge Didier de Brito.

O INGRESSO DO DR. JOAQUIM DE BRITTO NA FÁBRICA PEIXE E A SUA TRAJETÓRIA COMO INDUSTRIAL.

O desenvolvimento que já há esse tempo começava a se fazer sentir na Fábrica Peixe, de Pesqueira, e a necessidade de um técnico que lhe dirigisse a parte mecânica, então ampliada com a aquisição da maquinária estrangeira, fez com que entrasse a trabalhar na empresa dos seus pais, da qual pouco tempo depois se tornava sócio solidário. Introduziu na empresa a fabricação de conservas de tomate, fomentando ao lado de seu irmão Cândido Carlos Cavalcanti de Brito, a cultura desse fruto neste município.

Com a fundação da Fábrica Peixe, do Distrito Federal (Rio de Janeiro) a qual ficou sob a gerência daquele seu irmão, assumiu a direção da fábrica desta cidade, cujos trabalhos de aperfeiçoamento e ampliação E dirigiu de 1936 a 1937.

A FÁBRICA PEIXE DE SÃO PAULO.

Escalado pela empresa para fundar a Fábrica Peixe, de São Paulo, transportou-se para aquela capital, onde permaneceu à frente da nova fábrica durante alguns anos orientando simultaneamente, os negócios das companhias que lhe são filiadas Produtos Alimentícios A Sulamérica S/A e Companhia Paulista de Alimentação (Biscoitos Duchen).

O LATICÍNIO COM O NOME DE PAULO DE BRITO & CIA.

Fundou nesta cidade a Indústria de Laticínios, que “gira” sob a firma Paulo de Brito e Cia., hoje pertencente aos seus referidos filhos. Voltando ao Recife, adoeceu algum tempo depois de pertinaz moléstia que o vitimou no dia 8 do corrente (8/2/1949) às 20h30min.

JOAQUIM DE BRITO, NA POLÍTICA.

Desde 1930, com a retirada de seu irmão Cândido de Brito, para o Rio de Janeiro, tomou posição política neste município, dirigindo o memorável pleito municipal de 1936 e fazendo triunfar o seu candidato tenente Dorival de Oliveira Galindo. Exerceu ainda os cargos de vice-prefeito e vereador. Eleito deputado estadual em 1935, exerceu o mandato até fins de 1936, quando, sob a alegação de que a firma Carlos de Brito & Cia., da qual era um dos chefes, tinha a concessão de uma empresa de transporte nesta cidade, foi cassado o seu mandato. Era membro da diretoria de Indústrias Alimentícias Carlos de Brito S/A (Fábricas Peixe) da Usina Central Barreiros S/A, da Companhia Paulista de Alimentação (Biscoitos Duchen) e de Produtos Alimentícios A Sulamérica S/A.

NOTAS COMPLEMENTARES. LUTO OFICIAL

O Governo Municipal, ao ter conhecimento do falecimento do Dr. Joaquim de Brito, suspendeu o expediente da prefeitura e baixou um ato determinando luto oficial por três dias.

BANDEIRA A MEIO-PAU

A Câmara Municipal fez hastear a bandeira nacional em sinal de pesar, tendo ainda telegrafado à família e fazendo constar da ata dos seus trabalhos um voto de pesar.

SILÊNCIO NO SAP (Serviço de Altofalante de Pesqueira)

O Serviço de Alto-falante, de Pesqueira, suspendeu por três dias suas irradiações.

DOROTÉIAS NOS FUNERAIS

O Colégio Santa Doroteia esteve presente aos funerais, representado por duas religiosas da comunidade.

BELO JARDIM SE FEZ REPRESENTAR

Do vizinho município de Belo Jardim esteve presente numeroso grupo de pessoas, das quais conseguimos anotar as seguintes: Srs. Custódio Ferreira, representando o prefeito Artur Paes; Antonio Moreira, Felicíssimo Leite, Albino Arruda Marinho, Gumercindo Leite, Etelmiro Firmino João Franklin Cordeiro, Dr. Inácio de Barros Correia, sargento José Emiliano, delegado de polícia; Dr. Pedro Vidal, Srta. Alaíde Gouveia, Vicente Barbosa, Pedro Moura Junior, Viúva Jorge Aleixo, Srta. Anita Leite, Armando Leite de Araújo, José Ramos e Abraão Santos, este, por motivo de saúde, representado por sua esposa, Sra. Maria Abraão Santos.

A Sociedade de Cultura Musical, de Belo Jardim, esteve presente aos funerais com a seguinte comissão: João Franklin, presidente; Alaíde Gouveia, secretária; Dr. Pedro Vidal, orador e José Ribas, fiscal.

ARCOVERDE PRESENTE

Da cidade de Arcoverde associaram-se às homenagens de Pesqueira ao extinto, os Drs. Luiz Coelho e Rui de Barros Correia e Srs. Felix Paiva, José Rodrigues, e Antonio Napoleão Arcoverde, que assistiram aos funerais.

COMÉRCIO FECHA AS SUAS PORTAS

Por iniciativa da Associação Comercial, o comercio da cidade, apesar, de dia de feira, conservou-se fechado desde a hora do enterro.

A BANDA DE MÚSICA

A Sociedade Musical “11 de Setembro”, associou-se as homenagens, comparecendo a banda de musica que acompanhou o féretro, executando marchas fúnebres.

AÉREO E JÓQUEI CLUBE TOMARAM LUTO POR TRÊS DIAS

O Aéreo Clube de Pesqueira e Jóquei Clube, dos quais o extinto era sócio, tomaram luto por três dias. Do Jóquei Clube, o Dr. Joaquim de Brito era sócio benemérito.

No avião “Nossa Senhora do Rosário”, viajaram do Recife a esta cidade os industriais José Adolfo Pessoa de Queiroz, um dos diretores da usina Santa Terezinha e Álvaro Azevedo, diretor-gerente da Usina Central Barreiros S/A.

O CLUBE DOS 50.

O Clube dos 50 no dia do enterramento cerrou suas portas. Declarando luto por três, suspendendo todas as suas atividades sociais.

UMA MULTIDÃO NAS RUAS DE PESQUEIRA, MAS SEM NENHUM ACIDENTE.

O sargento Otacílio Siqueira, comissário de polícia deste distrito, dirigiu, com inteligência e habilidade, todo o serviço de isolamento, auxiliado por soldados do destacamento. Do mesmo modo, o inspetor de trânsito Caitano Monteiro, controlou o movimento de veículos, não se registrando o menor acidente.

TELEGRAFADA DO AÉREO CLUBE DE VITÓRIA DE SANTÃO ANTÃO.

O Dr. Moacyr Brito de Freitas, presidente do Aéreo Clube, recebeu o seguinte telegrama: “Fineza fazer apresentar nome Aéreo Clube de Vitória de Santo Antão pesar família industrial Joaquim de Brito. Agradece a diretoria”.

AS CANETADAS DE PAULO DE OLIVEIRA. PUBLICADA NA PÁGINA 8, DA FOLHA DE PESQUEIRA, NO DIA 20 DE FEVEREIRO DE 1949, COM O TÍTULO:

DR. JOAQUIM CAVALCANTI DE BRITO – Um grande coração

Homem naturalmente simples, Joaquim de Brito desaparece quando ainda poderia viver a existência daqueles que nunca procuraram fazer mal ao próximo.

O Ilustre pesqueirense marcou a sua vida no sentido de bem servir a tôda gente que o procurasse. Era uma figura singular de filósofo, na verdadeira interpretação da palavra. Sempre bem humorado, tinha admiração e estima pelos desventurados da sorte. Sabia compreender e definir os homens de bons sentimentos. E para todos que o cercavam tinha palavras de incentivo à prática do bem. Personalidade afetuosa e boa, quem com ele convivia na intimidade sabe quanto eram nobres os sentimentos de solidariedade cristã e social de Joaquim de Brito. Não são poucos os protegidos que deixou espalhados em Pesqueira, Recife e São Paulo. Por toda parte onde andava fazia o bem. Era do seu feitio cristão, porque de coração generoso, porque de gestos filantrópicos. No seu todo filosófico, olhava a humanidade com as vistas da sua alma cheia de bondade.

Joaquim de Brito deixou muitas lágrimas. E só um filósofo da sua estirpe moral enche corações de saudades que serão perenes.

Pesqueira mais uma vez está de luto! Joaquim de Brito era um pesqueirense fanático pela sua terra. Não havia distância que o fizesse esquecê-la. Tinha satisfação e orgulho quando se achava no convívio dos seus conterrâneos. Por isso a demonstração pública com que a população do município o consagrou, no dia do seu enterramento. Foi uma afirmação incontestável da estima dos seus amigos, de todas as classes sociais. Foi também uma apoteose à sua memória. Os irmãos Britto perderam um dos seus maiores valores.

Pesqueira perdeu um homem de grande coração!

A PALAVRA DO PREFEITO ÉSIO ARAÚJO. (PÁG. 8, 20 DE FEVEREIRO DE 1949), COM O TÍTULO:

ITINERÁRIO – Ésio Magalhães Araújo

É pesaroso escrever sobre os amigos que se vão deste mundo.

Para os que em nada acreditam, repetem como Machado de Assis:

“Não sou somente a vida; também sou a morte, tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei”.

Machado falava como se fosse a Natureza. Dava à vida um fim definitivo. O fim de uma viagem sem itinerário. Para os cristãos o itinerário é a vida e o fim é outra vida melhor, que chamamos de vida eterna.

Quero me referir, depois destas primeiras linhas a guisa de prefácio, à morte do pesqueirense Joaquim Cavalcanti de Brito.

Se não fosse possuidor de qualidades admiráveis, não me arriscaria a escrever, neste instante de recordações tristes, sobre a sua pessoa desparecida há poucos dias.

No entanto, poucos são os pesqueirenses que merecem tanto quanto ele, após o seu fim, um elogio sem sombra nem laivos de servilismo.

Antes de tudo, devemos nos lembrar: do seu amor à terra natal. Quão poucos na minha terra amaram ou amam essas paisagens, a sua gente, como Quincas as amou?

Viajando-se a São Paulo, Quincas, não deixava os seus amigos em descanso. Solicitava submisso, que se falasse de Pesqueira, do tempo, das terras, da produção e também dos seus homens. Referia-se aos de “maior peso” e aos de quase “peso nenhum”, como se fossem todos iguais.

Na sua simplicidade – por formação natural – de rico-rico o no conceito de Cristo, – prendia aos que dele se aproximavam; cativava aos que com ele trocavam ideias gerais sobre os problemas gerais. De tudo sabia um pouco; de tudo discutia; sempre com certa visão, mostrando, de logo, conhecimentos comuns no homem que venceu na vida.

Quão duro para minha terra perder, em curto espaço de tempo, dois de seus filhos queridos! O que se pode concluir é que, Quincas e Jurandir (nota atual: Jurandir Brito de Freitas, falecido em 1947), se entranharam de tal forma nos sentimentos de Pesqueira, que se tornou difícil compreender a terra e sua gente sem tê-los como principais figuras!

Duas vidas, dois destinos iguais. Ambos de corações do mesmo feitio. Forjados na mesma oficina.

O Itinerário dos dois é um. Quem espalhou o bem sem procurar recompensas; quem amou o próximo sem receber nada em troca; quem fez caridade sem propaganda e sem sentido diverso, só a consternação de um povo, no dia derradeiro, prova o bem que todos devotavam aos dois pesqueirenses.

O itinerário de Quincas nesta Cida foi de cristão – simples e humilde. Na outra vida será luminoso e grandioso.

FOLHA DE PESQUEIRA – ANO II – Nº XIV – PESQUEIRA, 20 DE FEVEREIRO DE 1949 – DIRETOR: PAULO DE OLIVEIRA – PERNAMBUCO.

REPORTAGEM E OUTRAS NOTAS SOBRE O DR. JOAQUIM CAVALCANTI DE BRITO.

A DOENÇA QUE O VITIMOU.

Enfermo, há cerca de um ano, a violenta moléstia que atacou o organismo do Dr. Joaquim de Brito era sempre e progressiva. Todos os recursos foram insuficientes. Especialistas americanos e argentinos foram consultados, a par de figuras de renomado valor na medicina brasileira. Deixando São Paulo, passou alguns meses no Rio de Janeiro, após o que se transportou para o Recife, indo residir à Avenida Beira-Mar. Cercado dos membros do seu lar, dos seus irmãos e demais parentes, veio, entretanto, o Dr. Joaquim de Brito falecer às 20h30min do dia 8 de corrente.

A REPERCUSSÃO DO FALECIMENTO NESTA CIDADE.

Avisados os demais parentes de Pesqueira, logo a cidade tomou conhecimento da triste e lamentável notícia. Pessoas ligadas ao extinto partiram imediatamente para Recife, a fim de velar o corpo e acompanha-lo a esta cidade, entre eles o seu cunhado industrial Adalberto de Freitas, Dr. Joaquim Bento Rodrigues, industrial José Pita, Srs. Pery Andrade, Alberto de Castro, Alonso Emerenciano e Fransico Mota e Silva. Enquanto isso, seu sobrinho Dr. Moacyr Brito de Freitas tomava todas as providências para receber, no dia seguinte, o cortejo fúnebre. Convites eram espalhados na cidade, distritos e municípios circunvizinhos. Os sinos da catedral dobravam a finados e o Serviço de Alto Falante anunciava a triste notícia.

PARTIDA DO RECIFE, NO TREM DA GREAT WESTERN.

A família do Dr. Joaquim de Brito providenciou transportar o corpo do seu querido chefe numa composição da Great Western, formada por quatro carros, inclusive um da administração. O comboio partiu do Recife às 7,10. Nele viajavam mais de duzentas pessoas, inclusive a viúva e filhos, dona Ana Didier de Britto, industrial Paulo de Britto e o universitário Jorge de Britto; seus irmãos, industrial Manuel Cavalcanti de Britto e senhoras Emília Cavalcanti de Britto e Adélia de Britto e Silva, além de vários sobrinhos, auxiliares do escritório, chefes de secções e operários da Fábrica Peixe. Também fez parte da comitiva, o Dr. Eustáquio da Silva, assistente jurídico da firma Carlos de Brito & Cia.

AUTORIDADES, PESSOAS DE REPRESENTAÇÃO E GRANDE MASSA POPULAR AGUARDAVAM A CHEGADA DO COMBOIO.

O trem especial deveria chegar a Pesqueira às 13h30min, o que não aconteceu. A cidade, desde 9 horas, recebia caminhões lotados que despejavam pessoas procedentes de Mimoso, Cimbres, Poção, Salobro, Jenipapo, Mutuca, Pão de Açúcar, dos municípios recém-criados de Alagoinha e Sanharó, bem como dos de Caruaru, Belo Jardim e Arcoverde. Cerca das 12 horas, já a cidade apresentava um movimento humano para mais de três mil pessoas. De momento a momento, a estação da Great Western informava ao Dr. Moacyr de Freitas da localização do trem especial. O atraso crescia a cada informação transmitida, até se confirmar que só as 15,30 o comboio chegaria à cidade.

Precisamente às 14 horas toda a Praça João Pessoa, onde fica localizada a estação ferroviária, comportava avultada multidão de homens, mulheres e crianças.

Na gare, estavam presentes, entre outras pessoas que não foi absolutamente possível nossa reportagem anotar, os Srs. Dom Adelmo Machado, bispo diocesano; Dr. Ésio Araújo, prefeito do município; deputados Arruda Marinho e Lídio Paraíba; industriais Álvaro Azevedo e José Adolfo Pessoa de Queiroz; Dr. Moacyr Brito de Freitas, frei João Batista, guardião do Convento de São Francisco, frei Venâncio. Dr. Gilberto de Brito e Silva, Dr. Carlito Didier Pita, Dr. Adalberto de Castro, José Araújo Filho, Antonio Magalhães Araújo, Augusto Carlos, José Guilherme de Andrada, Dr. Pedro de Barros Correia, Dr. Walter Didier, Milton Didier, Wilson Chacon, diretor de A VOZ DE PESQUEIRA; Antonio fontes, Umberto Didier Pita, José Cisneiro, Dr. Odon Bueno Lessa de Andrade, Dr. Luiz Cristovam dos Santos, Dr. Arlindo Bastos, Dr. Alcindo França, vereadores José de Almeida Maciel, Manuel Tenório de Brito, Genésio Rosas, Luiz Clovis de Freias, Félix Alves Maciel, Epifânio de Vasconcelos e Silva, José Basílio, Laurentino Ventura Caraciolo, Enedino de Freitas e Austriclínio Galindo, este por motivo de saúde representado pelo jornalista Paulo de Oliveira, Otávio Bezerra do Rego Barros, Agostinho Bezerra Cavalcanti, representado, representado por seu filho Fernando Cavalcanti; Napoleão Tenório de Brito, Luiz Rocha, além de numerosas famílias e grande número de senhorinhas.

FINALMENTE O TREM CHEGA À PESQUEIRA.

Exatamente às 15,30, o trem especial dava entrada na estação. Ao primeiro silvo da locomotiva, quando esta se aproximava, o povo avançou para ver de perto o desembarque do corpo. A confusão foi das maiores. Graças, porém, ao serviço de isolamento feito no largo da estação, foi possível transportar-se o esquife do carro para a carreta mortuária. Formou-se então grande préstito em demanda ao palacete da família Carlos Frederico Xavier de Brito. O tempo que se transformou numa tarde de trovoadas, caindo torrenciais chuvas que duraram cerca de uma hora. Exposto o corpo do ilustre pesqueirense em câmara ardente, foi atendido o desejo da multidão que queria olhar, pela última vez, aquele que em vida fora amigo dos seus conterrâneos. Aberto o esquife, o povo desfilou em fila olhando a figura tão simples, generosa e filantrópica que era o Dr. Joaquim de Britto. A chuva era intensa, mas a multidão indiferente às águas que caiam do espaço, como que a molhar de lágrimas a terra amada que tanto a queria o seu grande filho.

AS ORAÇÕES DA LITURGIA, FEITAS PELO BISPO DOM ADELMO MACHADO.

Terminada a visita pública, o exmo Sr. Bispo diocesano, Dom Adelmo Machado, acolitado por frei João Batista e frei Venâncio, fez as orações da liturgia. Em doloroso estado d’alma, no mais profundo sentimento de saudade, aproximaram-se a viúva, filhos e irmãos do extinto que, entre soluços, se despediam do ente querido. E rumo ao cemitério, num ligeiro interregno das chuvas, chegou o cortejo ao campo santo, onde numerosa multidão o aguardava. No jazigo da família Brito, foi recolhido o corpo, na ala esquerda, à entrada. Dom Adelmo Machado paramentou-se e proferiu orações no altar da capela. Usou então da palavra o deputado Arruda Marinho, em nome do povo de Pesqueira, fazendo o necrológio do extinto, exaltando-lhe os predicados morais, a sublimidade do seu coração de homem grandemente humano e cristão.

O SENADO FEDERAL, PELA PALAVRA DOS SENADORES VITORINO FREIRE E APOLÔNIO SALES, EXALTA A FIGURA DO DR. JOAQUIM DE BRITO.

Do “Diário do Congresso Nacional” passamos para as nossas colunas as palavras proferidas pelos senadores Vitorino Freire e Apolônio Sales, sobre a personalidade do Dr. Joaquim Cavalcanti de Brito. Bem justos os conceitos formulados por aqueles ilustres representantes da nação, na mais alta Casa do parlamento nacional, pois o Dr. Joaquim de Brito bem as merecia, porque era um homem de trabalho, de visão e dos acentuados sentimentos de brasilidade.

AS PALAVRAS DO SENADOR VITORINO FREIRE:

O SR. VITORINO FREIRE (Para explicação pessoal) – Sr. Presidente, telegrama do Recife nos dá notícia de haver falecido ontem, naquela capital, o industrial, engenheiro Joaquim de Brito, um dos chefes da grande firma Carlos de Brito & Cia., sediada em Pesqueira e disseminada em todo o Brasil.

Com o desaparecimento do Dr. Joaquim de Brito perde o Estado de Pernambuco o chefe de uma das maiores organizações de trabalho já conhecidas. A firma Carlos de Brito & Cia., realizou em Pesqueira obra notável; e a grandeza desta cidade e dos municípios circunvizinhos apoia-se na organização denomina “Fábrica Peixe”.

Político em Pesqueira e um dos chefes do Partido Social Democrático daquele município, agia sempre com exemplar isenção.

Trazendo ao Senado a notícia do falecimento de tão ilustre brasileiro e modelar homem de trabalho, quero deixar nos Anais desta Casa a minha palavra de saudade, porque, filho daquela “região castigada”, na expressão feliz do Senador José Américo, “pela inconsciência da natureza bruta”. Admirei sempre o trabalho de assistência social dado por Carlos de Brito & Cia, àquelas populações sofredoras.

COMO SE EXPRESSOU O SENADOR APOLÔNIO SALES.

O Sr. APOLÔNIO SALES (Para explicação pessoal) – Sr. Presidente, acabo de ter notícia, pelas palavras sentidas e saudosas do nobre e prezado colega, Senador Vitorino Freire, do falecimento do Dr. Joaquim de Brito, um dos principais diretores da firma Carlos de Brito & Cia., cuja sede matriz é em Pernambuco, estendendo-se pelo Brasil afora numa obra econômica notável.

Senhor Presidente, não preciso usar de muitos termos para afirmar que todo o Pernambuco sente a perda do esteio daquela organização. O SR. VITORINO FREIRE – MUITO BEM.

O Sr. Apolônio Sales – Quem conhece as dificuldades naquela terra adusta de Pernambuco, para se plantar naquele meio sertão um parque industrial modelo, compreenderá o valor daqueles homens, entre os quais Joaquim de Brito era figura das mais expressivas.

Ainda mais, Sr. Presidente, como Senador pelo Partido Social Democrático de Pernambuco, a que se filiava o saudoso engenheiro, não posso deixar de consignar a sua expressão de pesar, quando vê desaparecer o grande industrial, o político moderado, sincero, leal, que fazia política pensando sobretudo nos destinos econômicos de sua pátria, para cujo progresso tanto trabalhava no seu querido Pernambuco.

Estas as palavras, que desejava proferir, indiscutivelmente com saudade do meu prezado amigo, Dr. Joaquim de Brito.

O ENCERRAMENTO DESTAS CANETADAS

Como disse acima, temos matéria suficiente para publicar até um livro sobre a história de vida do Dr. Joaquim de Brito. Mas, o que está escrito acima satisfaz a curiosidade daqueles que queriam saber sobre o patrono do Estádio Joaquim de Brito.

Canetadas que ofereço à minha amiga Paula Tenório de Brito Freitas e aos seus filhos Marcílio José e Moacyr Antonio, bisnetos de dona Alice Brito de Freitas e seu esposo Adalberto de Freitas, Ela (Alice), irmã do Dr. Joaquim Cavalcanti de Brito, netos de Dr. Moacyr Brito de Freitas e dona Rute Paes Barreto Brito de Freitas (meus padrinhos de batismo), in memoriam, também, aos meus saudosos amigos Marcílio e Tarcisio.

Jurandir Carmelo.

* Autor: Jurandir Carmelo. É pesqueirense, advogado, jornalista, cronista, emérito colaborador do blog OABELHUDO  e debatedor consagrado.

História: Alan Turing – O Gênio que foi Punido por ser homossexual *

 

Matemático brilhante, Alan Turing foi punido com a castração química por ser homossexual

Matemático brilhante, Alan Turing foi punido com a castração química por ser homossexual

 

 

Condenado por homossexualidade, homem que quebrou código nazista recebe perdão

 

 

 

O britânico Alan Turing (1912-1954), que ajudou os aliados a vencer a 2ª Guerra Mundial ao quebrar o código secreto nazista, recebeu um perdão real póstumo.

Homossexual, Turing foi punido com a castração química por manter relações com pessoas do mesmo sexo.

Ao ser condenado, o especialista perdeu o acesso a informações sigilosas e teve de interromper o trabalho de quebra de códigos que se provou vital para os aliados durante a 2ª Guerra Mundial.

O perdão foi concedido sob a Real Prerrogativa do Perdão após uma solicitação do ministro da Justiça do Reino Unido, Chris Grayling.

Tratamento “terrível”

“Alan Turing foi um homem excepcional com uma mente brilhante”, afirmou Grayling.
Ele disse que a pesquisa de Turing conduzida durante a guerra em Bletchley Park “encurtou o conflito” e “salvou milhares de vidas”.

O trabalho de Turing ajudou os Aliados a ler as mensagens navais alemães cifradas com a máquina Enigma. Ele também contribuiu com um trabalho fundamental na quebra de códigos que só foi divulgado ao público em abril de 2012.

“A sua vida foi ofuscada por sua condenação pela homossexualidade, algo que consideramos injusto e discriminatório e que agora foi finalmente revogada”, afirmou Grayling.

“Turing merece ser lembrado e reconhecido por sua fantástica contribuição ao esforço de guerra e por seu legado à ciência. Um perdão da Rainha é uma homenagem justa a um homem excepcional.”

O perdão passou a ter efeito na terça-feira, 24 de dezembro.

Morte

Turing morreu em junho 1954 por envenenamento por cianeto. Um inquérito aberto pela polícia concluiu que ele havia se suicidado.
No entanto, biógrafos , amigos e outros alunos de sua vida contestam o laudo e sugerem que sua morte foi um acidente.
Há anos, muitas pessoas vêm batalhando pela concessão de perdão a Turing.
Em dezembro de 2011, um petição online foi criada no site do governo britânico reivindicando o perdão a Turing.

A campanha reuniu mais de 34 mil assinaturas, mas o pedido acabou negado por Tom McNally, então ministro de Estado no Ministério da Justiça britânico, para quem Turing havia sido “devidamente condenado” pelo que era considerado um crime na época.
Antes disso, em agosto de 2009, uma petição havia sido criada para pedir o perdão a Turing. Na ocasião, o matemático ganhou um pedido de desculpas oficial do então primeiro-ministro Gordon Brown.
Brown definiu como “terrível” a maneira como Turing foi perseguido por sua homossexualidade.

* Fonte: BBCBrasil/