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Crônica: Morreu o pé de castanhola

Atendendo a pedidos de amigos/colaboradores, vamos postar no abelhudo, algumas crônicas que foram divulgadas pelo sanharonews.

(Crônica oferecida aos amigos Helena e Leonan Tenório)

 

 

Quase tive um choque ! Ao chegar à casa de papai vi que faltava algo  que me pareceu estranho! Havia sumido, desaparecida aquela árvore que como guardiã daquele lar, estava ali fincada há décadas, muito antes da construção daquela nossa nova casa.

 

Fui então informado de que o nosso pé de castanholas havia morrido. Sucumbira ao tempo, deixando órfãos os animais que por muitas décadas se abrigaram à sua sombra, além dos veículos que ali também faziam pouso.

Aquela castanhola era co-irmã de outras dezenas que permearam as nossas ruas. Principalmente a nossa Coronel Júlio Nunes. Essa rua era repleta de pés de ficus e de castanholas, a saber: Havia pés de ficus nas casas de Antônio Avelino, no armazém de Zé Monteiro, na casa de Totô Batista, na fábrica de Aristides Guimarães, na casa de Sebastião Porfírio e na bodega de meu pai, Paulo Muniz. Representava a metade linear da rua. A outra metade era repleta de castanholas. Salvo engano, essa falecida, representava um dos últimos espécimes que ainda resistiam às intempéries do tempo.

 

A nossa cidade é muito pobre em arborização. Do tempo que me entendo como gente, reconheço as árvores que já encontrei, basicamente, castanholas e ficus. Lembro que Erivaldo Monteiro, quando prefeito, mandou arborizar com algaroba, isso na década de setenta. Mais de vinte anos depois, Geovane Leite, disseminou o plantio de sombreiros que hoje embelezam principalmente a sua rua, Dr. Benjamim Caraciolo. A rua que hoje eu moro, a Jurandir de Brito, é a recordista da cidade por metro quadrado sem ter árvore alguma. Uma pena!

 

À sombra daquele pé castanholas, papai conseguira com seu fiel amigo  João do Grupo, um banco de praça. Esse banco é remanescente daquela primeira praça erigida por volta dos anos cinqüenta. Formavam uma excelente dupla. Esse velho banco, viúvo da castanhola, certamente terá muita paciência para esperar o crescimento desse novo amigo – um sombreiro que minha irmã, Frai, o adotou.

 

 

 

Muitos hão de se lembrar do flamboyant que ficava em frente à bodega de Sebastião Simão e da casa de dona Regina, mãe de Vavá Frazão. Era um dos veteranos, cuja beleza foi incorporada a paisagem bucólica da nossa Praça capitão Augusto Rodrigues. Desafiou o tempo a florir nos finais de ano.

Até que alguém, impiedosamente, mandou ceifá-lo. Primeiro pelas picaretas e machados. Como resistia bravamente, parecia até que quanto mais o maltratavam mais ele se agarrava à terra que lhe viu nascer e florescer. Foi enfim acorrentado e puxado pela força de um trator sob os olhares complacentes dos que viram e calaram. Em seu lugar foi plantado um pé de não sei o quê. Até hoje, já se passaram alguns anos e o infeliz ocupante, não deu ar de sua graça. Bem feito!

 

Fico a imaginar quais mãos abençoadas plantaram essas árvores e outras mãos que as regaram e fizeram-nas tão resistentes. O pé de figo em frente à minha antiga casa foi nossa paixão, até ser trocado por essa castanhola, quando nos mudamos do número 132 para 158 da mesma rua que nos viu crescer.

 

As árvores, como as flores e as pessoas, também vivem de amor. Sem a pieguice do saudosismo, devemos nos sentir donos daquilo que nos pertence, ainda que seja historicamente. Vejo certa preocupação com o novo. O centro da cidade foi todo desfigurado. As fachadas das casas foram literalmente modificadas. Enfearam a Casa Paroquial com aquelas janelas horríveis de basculhantes retirando as de postigos. O Mesmo fez dona Sônia de Joel. A casa de Mariolinda foi ultrajada pela ganância de certo comerciante. A única coisa bonita que existia no prédio da prefeitura, eram dois pinheiros que o prefeito à época, numa atitude insana, mandou cortá-los. Não devemos esquecer do prédio do nosso antigo cinema. Não merece qualquer comentário. Resta o quê? A casa de dona Aliete que mudou o muro original, era todo ondulado, a casa, hoje, de Leonides que mudou a concepção das portas e janelas e vai, vai, chega-se ali na casa onde mora Aiá Ledo. Essa, acho eu, é das últimas que não sofreu nenhuma mutilação física. Sua fachada é a mesma desde quando a sua esquerda funcionava a Sede que antecedeu o nosso Clube Lítero Recreativo. Há ainda uma outra com bom aspecto arquitetônico que é a casa dos herdeiros de João Avelino.

 

A fachada da antiga coletoria estadual, hoje, sede do Conselho Tutelar é também remanescente dos anos sessenta e mantém a sua originalidade. Outra mudança negativa ocorreu no muro da Escola Nossa Senhora de Fátima. Era ondulado e combinava com o arco do portal de entrada. Faltou competência ou bom gosto para saber mantê-los.

 

Creio que a única construção no centro da cidade que ainda se mantém fiel as origens é a “casinha” do antigo motor-da-luz, ali junto ao nosso Clube. Quem sabe se pudesse ser tombada e se transformar num espaço ligado à cultura e a história do município. Há de se ressaltar o trabalho de restauro dos prédios que serviram a Refesa, hoje pertencentes ao município, e que agora têm serventia ao tímido movimento da nossa cena cultural.

 

Lembrar os pinheiros que embelezaram a nossa praça principal. Nasceram no início dos anos setenta, quando da administração do então prefeito Paulo Foerster, cuja obra de maior destaque foi a construção da nova praça. Diga-se de passagem, que essa obra foi motivo de orgulho para todos. Recordo, no período natalino, quando as luzes nos pinheiros formavam um belo conjunto, pareciam Árvores de Natal. Infelizmente, faltou zelo e atenção e as lindas araucárias, não resistiram às pragas e tiveram que ser dizimadas. Lamentável!

 

Faz bem aos nossos olhos, os pinheiros que imponentes, decoram a frente do Hospital João XXIII. Há outros, juntamente com belas palmeiras no antigo Colégio Pio XII e Escola Normal Emilia Câmara. Árvores essas remanescentes das ações prioritárias do saudoso e inesquecível Padre Heraldo Cordeiro de Barros.

 

Fico imaginando, onde foi parar o pé de romã de dona Sinhá? Ressurgiu. Foi estoicamente resgatado graças à verve do nosso conterrâneo, os grande Carlos Elder e seu irmão Romerão, em brilhante composição.

 

Quem nos dera que houvesse uma campanha para se resgatar a mata ciliar do rio ipojuca, ainda que contemplasse apenas o perímetro onde ele, feito uma cobra, passa silente pela zona urbana da nossa cidade. O rio está com a sua calha totalmente assoreada e, hoje, representa um risco muito grande em períodos chuvosos.

 

Mas, voltando a minha tristeza pela perda do pé de castanholas. Conforta-me saber que outras pessoas também o admiravam. Alguém, no afã de me conformar, falou – “ora Paulinho, isso tava muito velho”. Lembrei-me de que o mesmo eu ouvira quando da retirada do flamboyant da praça. Pensei com os meus botões, qual sorte daremos as coisas que estão ficando velhas ?

Mesmo sendo um vegetal, que tal transferir o exemplo para o ser humano? O que faremos com os nossos velhos e o que farão conosco dentro de alguns anos? Lembrei-me de um pensamento do grande poeta Fernando Pessoa: O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem – por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.

 

Dom Pablito

Dona Maria – Uma heroína sanharoense.

MARIA VALENÇA BATISTA

 

 

Viúva aos quarenta anos. Nove filhos e uma vida pela frente cheia de desafios. Casada com Sebastião Valença. Agropecuarista, lutador pela vida e pai de uma prole imensa, deixou o nosso convívio ainda muito cedo. Dona Maria Valença Batista, assumiu as rédeas da família e hoje, ao comemorar seus setenta anos, tem sim, muito o que comemorar! Tivemos oportunidade, o ano passado, quando do jubileu de prata do Grupo Irmãos Valença, de enaltecer a tenacidade dessa laboriosa família. De Evandro à Val, passando por Edivaldo, Edinaldo, Ezio, Evanildo, e as meninas: Salete, Sônia e Sandra. Há ainda os aderentes, tais como genros e noras. Hoje, dezenas de netos e até bisneto. É uma família que orgulha a cidade de Sanharó. Ao comemorar tal data, torna-se motivo da alegria de todos os familiares e um sem número de amigos que se irmanam para desejar a Matriarca, dona Maria, muita saúde, paz e que continue sendo a guerreira de sempre. Orgulhosa de ter entregue ao mundo uma plêiade de gente decente. A honra e dignidade, em conjunto com o espírito de luta e a determinação desse grupo é, de fato, um Patrimônio Vivo da história do nosso município.