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POESIA/CORDEL – ANO NOVO, VIDA NOVA (?) – Por João Roberto Maciel Aquino.

ANO NOVO… VIDA VELHA…(?)

 

 

 

Com o Ano Novo chegando

Se enche de promessa o ar:

Iniciar uma dieta,

Ir à missa, caminhar,

Diminuir a cachaça,

Parar de vez de fumar.

 

1º do ano e, nada

Do prometido se vê

– É confraternização,

O que é que eu posso fazer?

Amanhã é vida nova,

Eu vou mostrar pra você.

E lá vou eu, Zé Promessa

Cumprindo meu ritual.

Aguento um mês, apulso,

Aí chega o carnaval

Quebro a promessa e juro

Depois voltar ao normal.

 

Mas, chega a Semana Santa,

Fica a coisa complicada

Vinho pra tudo que é lado

Bredo, maxixe, imbuzada,

Arroz e feijão de côco,

Peixada, bacalhoada.

Stand by nas promessas

Aí, termina o verão.

Chegam as comidas de milho,

O frio é uma tentação,

O jeito é deixar o regime

Só pra depois do São João.

Passa o São João e, de novo

Tento suspender a cana.

E a Festa das Marocas?

Eita tentação sacana,

E os Festivais de Inverno

Com festa toda semana?…

Tem nada não. Em setembro

Vou cumprir o prometido

Mas, chega a Festa do Leite

Pronto, agora tô fudido

Só de outubro pra novembro

Vejo meu pleito cumprido.

 

Padroeira do Brasil,

Lá vem um feriadão.

Padroeiro da cidade,

O Sagrado Coração

Haja festa e haja motivo

Para bebemoração.

E entre uma festa e outra,

Casamentos, batizados,

Formaturas, aniversários,

Um título conquistado

Pelo meu time querido

Não dá pra passar lotado.

 

O Ano Novo ficou velho

Só eu não fico mais novo

Revejo lá meus conceitos

Prá no próximo Ano Novo

Ver se consigo cumprir

Minhas promessas, de novo.

João Roberto

POESIA – Natá Matuto -(*) – Colaboração de João Roberto Maciel Aquino.

Natá matuto

 

 

Nosso matuto, gente especiá
que passa o ano inteiro no roçado
não perde uma festa de Natá
vem dos sítios, das fazendas, povoados
vem os véios, as moças, a meninada
se arruma tudo e vem pra rua cedo
que nem formigas pelo meio da estrada
com suas trouxas de bagúi no dedo

 

Vem tudo de pés no chão
pra se carçá na chegada
de isprito e pó coração
as trouxas vem carrregada
quando tá se aproximando
da venda de Seu Migué
se acentam na carçada
pru mode alimpá os pé

As moças ajeita os vestido novo
de gurgurão, seda, popelina
e vão se misturá no meio do povo
e os véios com cuidado nas meninas
os homi vem de terno engomado
chapéu novo, manta azul ferreto
os colarim das camisa alevantado
vão direto pra frente do coreto

 

A banda já vem tocando
o seu bonito dobrado
tá todo mundo esperando
o coreto tá todo arrudiado
se assobe, pega os assento
bota instrumento na mão
enquanto o maestro Bento
manda tocá “sardade de Matão

Um bando vão logo andá
de mão dada, homi e muié
outros vão apreciá
as roda, as canoa, os carrocé,
outros vão pros botequim
beber, cuspir, sabê nutiça
conversa boa ali só chega ao fim
quando ouve o sino chamando pra missa

 

No pantamá da igreja
tem um artá infeitado
que as cumadre chega e beija
aquele artá sagrado
a despois vão se assentá
pra esperá o vigaro
as oito tão todas lá
debruiando seus rusario

Nas barracas sem coberta
tá cheio de mesa intupida
garrafa de cana aberta
tem bolo e carne cozida
se assentam e começa a prosa
e ficam em combinação
pras muié tumá gasosa
e os homi no vinho São João

 

Na geladeira do lado
a meninada de sapato apertado
mete a cara na gelada
até ficarem impanzinado
a mãe chama o filho ligeito
e diz: Otávio, vem cá
chera logo esse dinheiro
pru mode num vomitá!…

No beco do Armazém
que é o beco da mijada
se nota aquele vai e vem
de toda essa matutada
o rapaz tá na carçada
amostrando à manorada
as luz que tão pinicando
e achando a coisa engraçada

 

Despois da missa do galo
e ouvir todo sermão
vorta Zabé mais Gonçado
pelos beco ao impurrão
Cumadre Antonha Sabina
se peita com Zé Rumão
e pregunta: Viu Sulina,
perdida nessa afrição?

Tá nas hora de nós isse
vá dize a Mané Paulo
quem quisé ficá que fique,
já vimo a Missa do Galo!
e antes que eu esqueça,
chame cumadre Guducha
tire a manta da cabeça
amarre na trocha e puxa.

 

A festa tá se acabando
o dia já quer raiar
tá tudo se arrumando
pras suas casas voltá

Essa é a festa de todos os anos
festa do povo, festa sem iguá
é um consolo para os desengano
da matutada, gente ispiciá

 

Gente que fica sempre relembrando
a luz correndo no quilarão da igreja
as roda girante, os bote, os carrocé rodando
pra alegria da família sertaneja

Festa com o jeito de ser nordestino
feita com luz, cores e calor
aniversário do Jesus menino
Festa do Divino Salvador.

 

(*) – Eu vi essa poesia no Jornal Vanguarda de Caruaru, há algumas décadas. Guardei os versos de cór, mas, esqueci de guardar o nome do autor. Se algum dos leitores souber nos dar essa informação, nós agradeceremos e aproveitaremos para prestar-lhe uma homenagem pela criação dessa pérola.

João Roberto M Aquino.

POESIA – VIDA – “…Nos recônditos da minh’ alma”… – Por Marco Aurélio Ferreira Soares.

VIDA

 

Vou vivendo em eterna busca
De lugar em lugar, incessantemente
Fazendo uma coisa, outra, outra mais.
Ainda bem: estou vivo!
E antes que a cortina se feche
Vou procurando discernir o que valeu a pena
Para guardar eternamente
Nos recônditos da minh’ alma
Para revigorar-me, quando preciso for.

Marco Aurélio

Poesia – POETA – Por Angela Lucena – Colaboração de João Roberto Maciel Aquino.

POETA

 

 

É um escultor de sonhos
Que entre delírios e verdades
Usa suas vaidades
Não limitando tamanhos

Às vezes em ares tristonhos
Ou cheio de felicidades
Fala de dores e de saudades
Momentos sérios e risonhos

Difícil é retê-lo
O seu caminho tem seta
Mas, também há pesadelo

 

Para se cumprir a meta
Quem procurar entendê-lo
Verá que é um poeta.

 

Ângela Lucena/Poetisa filha do violeiro João Cabeleira de Jenipapo.

POESIA – O PERFIL DOS “POLÍTICOS BRASILEIROS”. de Varnecir Santos do Nascimento – Colaboração de Jozinaldo Viturino de Freitas.

A imagem fala por si...

 

 

 

PERFIL DOS

“POLÍTICOS BRASILEROS”

 

Ser enganador, mentir,
Enrolar, ser trambiqueiro,
Gostar de fazer promessa,
Não pagar, ser trapaceiro,
Eis os requisitos básicos
Do político brasileiro.

Fazer tudo por dinheiro,
Detestar pessoa séria,
Não importar se o povo,
Tá morrendo na miséria.
Ao escutar falar dela,
Achar que isso é pilhéria.

 

 

Se a fome deletéria
Castiga um desempregado,
Ao saber dessa notícia
Fingir-se penalizado,
Porém, quando for comer,
Não lembrar do esfomeado.

Senador ou deputado
Quem quer ser, vai se tornar
Graduado em trambicagem,
Pós-graduado em roubar,
Um mestre em negociata,
E doutor em subornar.

 

Nessa escola quem entrar
Sai de diploma na mão,
Um pós-doutor em desvio,
Propina e roubo a nação
PHD em escândalo,
Gênio da enganação.

De superfaturação
Terá aula em abundância,
Passar o povo pra trás,
Não importa a circunstância,
Chefiar quadrilha e máfia
De bingo e de ambulância.

 

Jamais medirá distância
Pra fazer maracutaia,
Ou contratar cafetina
E puta de mini-saia
Pra na mulher do casal
No prostíbulo, botar gaia.

Ignorar qualquer vaia
Ou aceitá-la sorrindo,
Estar morrendo de raiva,
Porém, andar se abrindo,
Alguém lhe jogar um ovo,
Fingir que é aplaudido.

 

Aprender viver fugindo
Do povo que lhe procura,
Nunca apresentar projetos
De incentivo à cultura,
Odiar sempre a verdade
Amar a mentira pura.

Na câmara ou prefeitura,
Em todos dois empregar
O filho, o sogro e a sogra
Neto e genro colocar
Para receber dinheiro,
Sem precisar trabalhar.

 

Topar sempre viajar
Em viagem planetária,
Pra triplicar o salário,
Só embolsando diária,
Fazendo a população
Brasileira de otária.

Não ver a vida precária
Do menor abandonado,
Dos moradores de rua
E de um jovem drogado,
De tanto trabalhador
No país desempregado.

 

Ficar muito indignado
Com roubo e enrolação,
Se assaltarem o dinheiro
Do erário da nação
Denunciar a justiça,
Sendo você o ladrão.

 

Ser contra a corrupção
Só que aparentemente,
Criticar sempre os ladrões
E pousar de inocente
Mas, dentro dos gabinetes,
Roubar mais que serpente.

Pra imprensa e toda gente
Claramente demonstrar
Que não quer como colega
Quem não seja exemplar,
Porém, no voto secreto,
Jamais o deixar cassar.

 

Destemido plagiar
Projetos do companheiro,
Ser sócio de várias tramas
De lavagem de dinheiro,
Quando perder nas pesquisas
Contratar um marqueteiro.

Gatuno, rato, ladrão,
Biltre, larápio, indecente.
Calhorda, abjeto, infame,
Enganador, prepotente,
Vêm formando os governos,
No Brasil, infelizmente.

 

Varneci Santos do Nascimento

(Foto no Google)

POESIA/CORDEL – “…Eu era feliz e não sabia…” Moleques Que Fomos… – Por João Roberto Maciel Aquino.

 

 

MOLEQUES QUE FOMOS

 

 

 

Eu andei observando

Como o tempo está mudado,

Os moleques de hoje em dia

Como estão modificados,

E os brinquedos atuais

Não parecem em nada mais

Com os de algum tempo passado.

 

 

Os brinquedos de hoje em dia

São muito sofisticados.

Pilhas, controles remotos,

Laser, joistic, teclado.

O brinquedo brinca sozinho

E o pirralho, coitadinho

Só assistindo sentado.

 

 

Peladas em meio de rua,

Páreos em rua ladeirada,

Com carros de rolimã

Ou bicicleta alugada,

Era o divertimento

Da molecada passada.

 

Hoje ninguém brinca mais

De bila, finca, pião,

Barra bandeira, peteca,

Firo, damas e gamão

Onça, cavalo de pau,

Carro puxado a cordão.

 

 

E moleque presepeiro,

Amorcegador de trem,

Arengueiros, anarquistas,

Sem poupar nada e ninguém,

Ruins de marca maior

Nesta nossa Sanharó

Tinha de encher FEBEM.

 

Tinha um Juca de Plácido

Oh moleque ruim de mais

Zé de Ditinho, Manjarra,

Também não ficavam atrás

Cada um ruim do seu jeito

E um tal Bertinho de Zé Preto

Era quase um satanás.

Zé Maria de Genésia

Quando com Nena encontrava

Era uma briga na certa

Ninguém no mundo empatava

Lilsinho, Nelsinho, Gibinha,

Tornavam a Lingüeta rinha

Ninguém saia ou entrava.

 

 

Quem mais sofria com eles:

As professoras, coitadas.

Que era Dona Conceição,

Dona Elvira, Dona Inalda,

Filadélfia, Terezinha,

Dona Sônia, Dona Nevinha,

Marly Ribas, Dona Alda.

A molecada de hoje,

Nem parece com esses pivetes.

Sem peraltices, sem brigas,

Sem pedradas, sem bofetes,

Não entram mais no esquema

Só querem shopping, cinema,

Vídeo games, internet.

 

 

Menino era sempre autêntico,

Rezando ou jogando bola,

No catecismo de Diva

Na argüição da escola,

Nos chambregos atrás dos muros

Dos namoros sem futuro

Ou nas farras de mariola.

 

Presepadas sem maldades

Só para rir aos montões.

Brigavam e com meia hora

Só abraços e perdões

Sem ódio ou ressentimentos

Tudo era divertimento,

Sem cangas, peias ou grilhões.

 

 

E em 12 de outubro

Vou pedir em oração

À Virgem de Aparecida,

São Cosme e São Damião

Que guiem nossos destinos

e não deixem faltar meninos

presepeiros no sertão.

Autor: João Roberto Maciel Aquino.

HOMENAGEM

 

Em homenagem aos moleques de todas essas épocas tão  vivas, tão vividas e tão sanharoenses…Moleques  que Fomos é um retrato na parede de cada coração infanto-juvenil, tão bem emoldurado na verve sensível e lúdica num soneto de sonho de cada um de nós… Moleque que Fomos em imagens latentes que vagueiam em nossos sonhos do presente e de um telurismo riquíssimo  que só a alma do poeta saberia recordar…

Em nossa homenagem, o blog posta o video de Ataulfo Alves Meus Tempos de Criança. (Basta clicar na seta e aguardar carregar)

 

TRIBUTO.

Tomo emprestado ao autor o seu enredo e o ofereço a um grande amigo de infância. Relembro, com saudade, um joguinho na sua sinuquinha no alpendre da casa de seus avós. Refiro-me ao estimado José Monteiro da Costa – Zé de Ineizinha. Sempre o reencontro e sempre relembramos nossos momentos juvenis.

POESIA/CORDEL – “…um sorriso desdentado…” – O PEDINTE – Por Robson Maciel Aquino.

 

Pedinte. Uma chaga social...

 

O Pedinte

 

 

 

Vejo um homem sentado na calçada
Barba branca e um sorriso desdentado
Todo em trapos na sombra da sacada
Um olhar bem distante e tão cansado

Pobre homem por todos reprimido
Que a esperança cansou e foi embora
No semblante infeliz e tão sofrido
A alegria inverteu-se e nele chora

 

Quem será esse velho desprezado?
Que passado viveu pr’esse presente?
Como pode colher o grão plantado,
Se com lágrimas regou suas sementes?

 

Quanta dor é possível perceber
Nessa mão estendida a implorar
E os seus dedos que estão sempre a tremer
Denunciam a vergonha sem parar

 

Não importa o ventre que pariu
Esse corpo inativo; sem ação
Se nascestes da pátria mãe gentil
De direito és igual; és cidadão

 

Mas direito a que? Pergunto eu!
A uma cova, sobre ela uma flor da praça?
Ou quem sabe a um diploma de plebeu
Sem parede pra expor sua desgraça

 

Esse homem perdido em sua cena
Já não sabe dizer o que dói mais:
O passado que hoje lhe condena
Ou a lápide a ser grafada: “aqui jaz”

E o corpo à distância vai sumindo
Sou mais um a ter pena e ir embora
Quanta culpa e culpados vão surgindo
Na análise que fiz e faço agora

 

Quando um homem se humilha a outro homem
A nação por ninguém é respeitada
Os valores apodrecem e logo somem
O país e seu povo valem nada.

Autor; Antonio Robson Maciel Aquino.

POESIA – A BUSCA PELA FELICIDADE – Por Robson Maciel Aquino.

O POETA PROVOCA - O que é ser feliz? E ajuda na busca...


 

 

 

 

A tal da felicidade

 

 

 

Acordei, sentei na cama
Passei a mão no cabelo
Estirei meu corpo inteiro
E os nervos bem no lugar
Me peguei, pois, a pensar
No que é felicidade
E para o bem da verdade
Não foi difícil encontrar.

 

Felicidade, doutor
É uma cidade pequena
É um terço, uma novena
Ver a igreja lotada
Um forró numa latada
Um bom dia devagar
É ver a noite chegar
Sentado em sua calçada.

Felicidade eu percebo
No bouquet todo enfeitado
Das mãos da noiva, atirado
Às mãos de quem quer casar
E entre o atire e o pegar
Formar-se um grande alvoroço
De moças querendo moços
Pra ser feliz no altar.

 

É acordar de manhã
Com o cheiro bom de café
Ouvindo a voz da mulher
Cantarolando Gonzaga
Ver as faíscas infernadas
Rasgando o céu do fogão
Na minha imaginação
Felicidade acordada.

Menino solto brincando
Correndo pelas estradas
Com sua infância regada
De liberdade sem freio
Nenhum perigo ou receio
Da tal de modernidade
Vivendo a realidade
Tão simples desse seu meio.

 

Felicidade passeia
Nas asas de um passarinho
Repousa dentro do ninho
Contempla toda beleza
Desliza na correnteza
Planta e espera a colheita
Numa harmonia perfeita
Do homem com a natureza.

É passear pela feira
Pisar em casca de manga
Chupar imbu e pitanga
Comprar farinha e feijão
Porco, carneiro e capão
Beber cachaça num bar
Isso sim é se encontrar
Cheio de satisfação.

 

A família reunida
Diante da mesa posta
Comendo aquilo que gosta
De qualidade e fartura
Felicidade tão pura
Que ninguém ousa negar
E se eu pudesse pegar
Botava numa moldura.

AUTOR : ANTONIO ROBSON MACIEL AQUINO

POESIA/CORDEL – PINTO DO MONTEIRO(*)

PORQUE DEIXEI DE CANTAR

 

 

Deixei porque a idade
Já está muito avançada
A lembrança está cansada
E o som menos da metade
Perdi a felicidade
Que em moço eu possuía
Acabou-se a energia
Da máquina de fazer verso
Hoje vivo submerso
Num mar de melancolia

* * *

Minha amiga e companheira
Eu embrulhei num molambo
Pego nela por um bambo
Para tirar-lhe a poeira
Hoje não tem mais quem queira
Ir num canto me escutar
Fazer verso e gaguejar
Topar no meio e no fim
Cantar feio, pouco e ruim
Será melhor não cantar.

 

Não foi por uma pensão
Que o governo me deu
Porque o eu do meu eu
Não me dá mais produção
Cantor sem inspiração
Tem vontade e nada faz
Afinal, sou um dos tais
Que ninguém quer assistir
Nem o povo quer ouvir
Nem eu também posso mais.

* * *

Com a matéria abatida
Eu de muito longe venho
Com este espinhoso lenho
Tombando na minha vida
Tenho a lembrança esquecida
Uma rouquice ruim
A vida quase no fim
A cabeça meio tonta
Quem for novo tome conta
Cantar não é mais pra mim.

* * *

Se ninguém envelhecesse
Eu não estava aonde estou
Velho, doente, acabado
Sem saber pra onde vou
Toda alegria que tinha
Veio o tempo e carregou.

* * *

Poeta é um passarinho,
que quando tá na cadeia,
sua pena fica feia,
sente saudade do ninho,
do calor do filhotinho
da fonte da imensidade,
se come deixa a metade
da ração que o dono bota
se canta esqueçe a nota
da canção da liberdade.

* * *

No dia que eu tenho raiva
o vento sente um cansaço
o dia perde a beleza
a lua perde o espaço
o sol transforma-se em gelo
cai de pedaço em pedaço.

 

(*) Extraído do JBF.

CORDEL/POESIA – “A mãe cata piolho num sambudinho”…DOMINGO NOS ARREBALDES – Por João Roberto Maciel Aquino.

DOMINGO NOS ARREBALDES

 

(Aquarela de Nerival Rodrigues) - pelada de futebol (Google)

 

 

 

A mãe cata piolho num sambudinho,

Um vira-lata coça a sarna na calçada,

Colchões ao sol pra tirar cheiro de mijada,

Boteco aberto a espera do papudinho,

Um porco fuça a lama do meio do caminho,

A fuxiqueira se debruça na janela,

Fala do mundo e o mundo inteiro fala dela,

Uns peladeiros pulam o muro da escola,

Catam as pedras, fazem as traves, trazem a bola,

Amanheceu. Hoje é domingo na favela.

 

Acorda o velho, olhos cheios de remela,

Vai ao quintal, lava o rosto, escova a chapa,

Toma café com pão, bolachas sete capas,

Um molequinho toma banho numa gamela.

A cozinheira areia um monte de panelas

Pra preparar um cozinhado de feijão,

Arroz e carne guisada pro pirão,

Tempera a carne pro churrasco, trata o frango,

Hoje é domingo, tem que caprichar no rango,

Domingo é dia de confraternização.

 

Já se ouve gente afinando um violão,

Que vai juntar-se ao cavaco e o pandeiro,

Pra formar roda de samba no terreiro

Com tamborim e surdo na marcação.

Providenciam a cachaça e o limão,

Cobrem com gelo a cerveja do isopor,

Trazem as caixas de som do Agenor,

Acendem logo o carvão da churrasqueira.

Dê cá um copo que eu vou tomar a primeira,

Hoje se cura a tristeza, se esquece a dor.

 

Deixa morena, a roupa no quarador

E vem pra roda balançar essas cadeiras.

No teu balanço se balança a rua inteira

E faz o velho lembrar o bom que passou.

Faz outra cota que a cerveja acabou.

Daqui a pouco vou ver meu time jogar.

Depois do jogo vou pra casa descansar,

Dar um cochilo, me curar da bebedeira,

Trabalhar duro durante a semana inteira

E esperar outro fim de semana chegar!

 

 

João Roberto Maciel de Aquino