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POESIA/CORDEL : CUIDADO COM “DANADO” DO NAMORO NA INTERNET – Por João Roberto Maciel Aquino.

 

 

 

 

NAMORO VIRTUAL

 

 

 

 

Eu, um cabra amatutado,

Sofrido ao sol do sertão

Onde nasci e fui criado

Sem conhecer diversão,

Já depois de homem feito

Um dia, meti os peitos

E fui morar na cidade

Atrás de conversa a toa

Que a coisa lá era boa

E cheia de modernidade.

 

 

Comprei uma casa na rua

Pintei, troquei fechadura,

Mudei-me de mala e cuia,

Fui viver essa aventura.

Falei com Ciço Morcego

Pra me arranjar um emprego

Em sua mercearia

Fiz logo umas amizades

Com uns cabras de minha idade

Imburaquei na putaria.

 

 

Depois do expediente,

Corria pro cabaré

Pra me espaiá na aguardente

E chumbregá com as muié.

De trabalho e bebedeira

Passava a semana inteira

Sem ter tempo pra mais nada,

Mas o tempo foi passando

E eu fui me abusando

Dessa vida desregrada.

 

 

Domei meu instinto à força,

Abandonei o fuá,

Fui procurar uma moça

Direita pra namorar.

Mas a fama de depravado

Que já tinha se espalhado

Pela cidade todinha,

Impedia que eu achasse

Uma mulher que topasse

Ser a namorada minha.

 

 

Falei com meus camaradas

Pra me ajudar nesse pleito

E espalhar pra moçada

Que eu era um home direito

Que trabalhava, estudava,

Ia à missa, comungava,

Que larguei a putaria

E tava atrás duma donzela

Para me casar com ela

E constituir famía.

 


Mas, fama ruim pra largar

É uma coisa complicada.

E muito mais pra arranjar

O diabo duma namorada.

Mesmo bem afeiçoado,

Elegante, educado,

Moça não me dava trela.

Eu tava já desistindo

Mas tive uma ideia tinindo

Pra arrumar uma donzela.

 

 

Eu tinha ouvido falá

Que na tal da internet

Tudo no mundo tem lá

E tem coisa até que repete.

Eu pensei: Se é assim,

Pode dar certo pra mim

E acabar meu sofrimento

Levando a onda de azar

E me ajudando a achar

Uma muié pra casamento.

 

 

Fiz Manezim me ensinar

A manejar o bregueço.

Três dias nesse tear

Eu já fazia sucesso.

Marcava tempo em lan house

Pegava o teclado, o mouse

Danava-me a navegar

Google, hotmail, youtube,

Orkut, UOL, redtube,

Nem via o tempo passar.

 

 

Deixei de procurar na night

Cachaça e divertimento

Pra tá navegando em site

De relacionamento

E fui fazendo amizade

Com gente de outras cidades

Fui me entrosando, gostando

E ao ver a foto de Vera

Eu disse: Era essa miséria

Que eu tava procurando!…

 

 

Comecei teclar com ela

Gamei no primeiro dia

Disse-me que era donzela,

Evangélica, não bebia,

Na farrava, não fumava,

Trabalhava, estudava,

Vestia-se com compostura

Não gostava de desfrute

E pela foto do Orkut

Ela era uma formosura.

 

 

Eu no trabalho novato,

Não podia me ausentar,

Fiz então com Vera um trato

Pra ela vir me visitar.

Domingo de madrugada

Me arrumei, fui pra estrada

Esperar ela chegar,

Mas quando o ônibus parou

Que a danada saltou

Vi meu sonho se acabar.

 

 

Que troço feio da mulesta!

Gorda, zambeta, baixinha,

Zarôia, um nopró na testa,

A venta maior que a minha,

Um corpinho de baleia,

A boca mordia a urêia,

Um jeitão de piriguete,

Olhei a peste todinha,

Não vi nada da Verinha

Que conheci na internet.

 

 

E ela ainda falou

A me ver bem pensativo:

– Parece que não gostou

De ver seu amor ao vivo?…

Subiu um bafo de boca,

E eu tonto, com a voz rouca

Disse: Home vai te lascar!

Marmota feia da febre,

Que vender gato por lebre?

Procure outro aruá!…

 

 

Ela disse: Não foi golpe,

Aquela foto era minha.

Eu só fiz um fotoshop

Dum retrato meu, mocinha!…

Parei o ônibus, ela entrou,

Dei dinheiro ao cobrador,

Disse: cobre aí o frete

E leve esse troço pra trás

E jurei por Deus, nunca mais

Namorar pela internet!

 

 

Autor: João Roberto Maciel de Aquino

POESIA E CORDEL SOBRE CACHAÇA – Diversos poetas.(*)

CACHAÇA É O TEMA

Publicado por Luiz Berto em REPENTES, MOTES E GLOSAS – Pedro Fernando Malta(Bestafubana)

 

 

Cego Aderaldo


Cachaça é bebida boa
O povo chama “branquinha”:
Botam mel pra ficar doce
Então chamam “meladinha”,
Mas sai com as pernas trançando
Como quem cose bainha!

Os que gostam de aguardente
Não devem beber demais,
Que um velho de oitenta anos
Bebendo quer ser rapaz,
E no banho veste a calça
Com a barguilha pra trás.

* * *

Francisco Evaristo

 

O homem degenerado
Que se vicia a beber
Quando está puxando fogo
Só trata em aborrecer,
Faz coisas que o diabo
Faz questão pra não querer…

A cachaça, meus amigos,
Sempre só faz ação feia:
Logo que o cabra a toma
A todo mundo aperreia,
Precisa até a policia
Levá-lo logo à cadeia…

E termina até na peia
Devido ser imprudente
Depois se solta, mas fica
Tristonho e muito doente
Tudo isso só porque
Meteu-se na aguardente

Eis a razão porque digo
Dela qual o seu defeito:
Ataca primeiro o cérebro
Come o “figo”, acaba o peito,
E depois do mal tá crônico
Não há médico que dê jeito.

* * *

Zé da Venda

 

Carro sem roda não anda
Bebo deitado não cai
Corno em casa não manda
E cana sem ponche não vai.

* * *

Ascenso Ferreira

 

Suco de cana caiana
passado nos alambiques,
pode ser que prejudique,
mas bebo toda sumana .

* * *

Raminho

 

Aguardente é moça branca,
filha do velho usineiro.
Por causa dessa derrota,
hoje sou um cachaceiro.

* * *

Chico de Noca

 

Para quem bebe aguardente,
Se mete num grande porre,
Dá, apanha, mata ou morre
O beber não é decente…
Porém dando pra contente
Ou mesmo pra entristecer,
Podendo a cana fazer
Tornar-se franco um sovino,
Direi sempre que combino:
Não é defeito o beber!

* * *

Zé Preto


Nasce um menino e se cria
Na proa duma barcaça.
Não há serviço no mar
quesse menino num faça.
Quando se ajunta c’uns outros,
Começa a beber cachaça.

* * *

Siqueira de Amorim

 

Aguardente geribita
feita da cana caiana
Eu bebo desde o começo
Até o fim da semana
O cantador só é forte
Quando canta e bebe cana!

Um pouquinho de aguardente
A muita gente conforta:
Faz esquecer a tristeza,
Revive a esperança morta
Até as mulheres bebem
Também por detrás da porta!

Quando eu pego na viola
Disposto a cantar repente
Digo ao dono do “pagode”:
— Traga um pouco de aguardente…
Bebo pra matar o frio
E bebo pra ficar quente!

Hoje bebe todo mundo
Deputado e senador,
Bebe o soldado, o sargento,
O juiz, o promotor.
Como é que pode deixar
De beber o cantador?

* * *

Edinho de Magali

 

Sou canista sem segundo
Bebo mais que toda a gente
Se o veneno da serpente
Fosse cachaça com sobra
Eu desejava ser cobra
Tanto gosto de aguardente.

* * *

Zé Quincas

 

Se o rapaz fez mal à moça
E assaltou na sacristia
A culpa é da ‘marvada’
O pastor já bem dizia.

Se o rico bebeu uísque
E caiu no mictório,
Se excedeu, coitado, é pena
Não deve haver falatório.

Vomitou bem no decote
Da mulher do seu amigo
Correu nu em gritaria
Se borrou até o umbigo.

Esqueceu a mãe no freezer
CPF no bidê
Empurrou a avó na escada
Se for contar, ninguém crê

A cena é cotidiana,
Tudo isto é tolerável…
Quem não erra? – reza o dito,
O doutor é tão amável’

Mas, se um pobre bebe cana
É só diz uma verdade,
É cachaceiro, doente,
Não é de sociedade.

Um preconceito tarado
Grava a nossa cachaça
Sem razão, sem argumento,
Uma febre que não passa.”

* * *

Cancioneiro popular sergiano

 

Água de cana é cachaça
Concha pequena é cuié
Língua de véia é a desgraça
Bicho danado é muié.

* * *

Taioca dos Palmares

 

Bebo cana toda hora
Bebo cana todo dia
No dia que bebo cana
Burra peida e gata mia.

 

(*) Fonte: postado originalmente no bestafubana.

POESIA/CORDEL: VIVENDO E APRENDENDO/A Sabedoria do povo (?) – Por Robson Maciel Aquino.

O CORDEL DO POVO ENGANADO

Robson Aquino

Oh Brasil véio perdido
Que qualquer um chega e manda
Só basta ter uns trocados
Fazer sua propaganda
Vira logo autoridade
Mandando em toda cidade
Chefe do poder local
Começou com Portugal
França e depois Holanda

A Inglaterra, também
Levou ouro de montão
Pra proteger um rei fraco
Do bravo Napoleão
Exigiu e foi aceito
Um tratado “mei” suspeito
Todo cheio de vantagem
Pense numa pilantragem
Lascou nós, desde então

Dom Pedro veio em seguida
Com uma tal de independência
Raspou o fundo do tacho
Selou nossa decadência
Ainda saiu como herói
Isso, sim, é que me dói
E eu não consigo entender
Quem fez o povo sofrer
Faz-se a ele reverência

A República das Espadas
Deodoro e Floriano
A primeira ditadura
Bem por debaixo do pano
Rui Barbosa era ministro
Com um plano muito sinistro
Chamado de encilhamento
Freou nosso crescimento
E o Brasil foi pelo cano

Política Café com Leite
Essa não dá prá entender
Minas Gerais e São Paulo
Revezando no poder
Enquanto um esperava
O outro, então, quem mandava
No restante do país
Eita Brasil infeliz
Que não pára de sofrer

Getúlio Dorneles Vargas
Pôs fim a Velha República
Governou por quinze anos
Armou pro povo uma arapuca
Chamando Plano Cohen
Que até hoje ninguém
Sequer pegou nessa lista
Muito menos os comunistas
Vítima maior da cutruca

Teve uma coisa esquisita
Chamaram revolução
Caçaram os comunistas
Dizendo ser solução
Deram um golpe de Estado
Com fardas e estrelados
Disseram: é por pouco tempo
Mas gostaram do invento
Pra sair foi complicado

Castelo Branco começa
Geisel e Médici, suas crias
Dá-lhe porrada no lombo
Adeus à democracia
E tome AI5 no povo
Foi tanto choque no ovo
Figueiredo abre o badalo:
“Gosto mais do cheiro de cavalo
Do que o do homem”, dizia

Então veio a anistia
Com ela, Collor de Melo
Esse não durou nadinha
Desmoronou-se o castelo
Mas antes de ir embora
Deixou formada uma escola
De pilantras pra roubar
E o povo sempre a penar
Debaixo desse chinelo

Fernando Henrique Cardoso
Que foi líder estudantil
Sociólogo de renome
Presidente do Brasil
Foi logo dando o recado
Meu escrito tá negado
Só vale daqui pra frente
Neoliberal dos mais crentes
Vendeu tudo e ainda riu

Oito anos de espera
Assumiu o homem bruto
Lula era o presidente
Com poder absoluto
Foi chegando devagar
Sem querer incomodar
Comendo pelas beiradas
Com um tempo tava formada
A Gangue Valério-duto

O bastão foi repassado
Uma mulher assumiu
Palocci mostrou a cara
E ela fez que não viu
Mas o desgaste político
Foi um forte ponto crítico
Que derrubou o pajé
Caiu, mas caiu de pé
Como sempre, eu acredito

Deixando a politicagem
Com seus podres mecanismos
Dominações diferentes
Surgem com muito cinismo
Religioso aloprado
Advogado folgado
Que pensa que é doutor
Um merda dum jogador
Tratado com estrelismo

As grandes corporações
Com seus ídolos criados
A Globo ditando as regras
Fortalece o seu reinado
A cada dia que passa
O povo tem sua raça
Sua crença e sua fé
Do jeito que ela quer
E ainda acha engraçado

Eu não vou falar mais nada
Não adianta. Pra que?
Um dia esse povo acorda
Então vai se perceber
O quando foi explorado
Por políticos depravados
E, quem sabe, se revolte
Se livre desse chicote
E pegue de volta o poder.

POESIA JUNINA – Homenagem aos Festejos do São João – Por Marco Aurélio Ferreira Soares.

"Olha pro céu meu amor/Vê como ele está lindo/...

SÃO JOÃO DA CODEVASF – 2011

Por: Marco Aurélio

 

Aqui na 6ª SR
Já começou o São João
O pátio tá todo enfeitado
E a maior animação
Viva a superintendente
Que muito apoiou a gente
Nessa realização

 

Tem sanfona, tem zabumba
Um casal se esfregando
Canjica, pamonha, licor
Uma fogueira queimando
Espiga de milho assado
E um sujeito abestado
Sentado num banco olhando

 

Um bêbado, mulher caçando
E elas dele correndo
Um sóbrio, quieto num canto
E elas se oferecendo
Se essa festa durar
Vai dar muito o que falar
Veja o que estou dizendo

Tudo estava indo bem
Sem a “marvada” bebida
Agora bagunçou tudo
E não se vê mais saída
Os homens perderam o rumo
As mulheres, todo o prumo
São João tá puto da vida!

 

Por que não se divertir
Beber com moderação?
Depois que a merda tá feita
É difícil solução
Não adianta chorar
Pedir pra doutor consertar
Que não tem mais jeito não.

 

Se não seguirem esta regra
Sou capaz de apostar:
Alguém vai ganhar barriga
E um trouxa vai bancar
Teremos mais um cristão
Para no próximo São João
O santo abençoar…

 

E não adianta correr
Tem de pagar a pensão
A justiça não perdoa
Disso, não abre exceção
Assuma o seu pimpolho
Comece a ser “ferrolho”
É a melhor solução.

 

Faça logo uma poupança
Pra dar luxo pra mulher
Mais do que o teu carinho
É isso que ela quer
Cuida bem do teu rebento
Se não tu vira detento
Como um malandro qualquer.

 

Assim é a pisada hoje
E nunca foi diferente
Mulher é uma coisa boa
Vira o juízo da gente
Mas não seja um vacilão
Pra não parar na prisão
Que a boca lá é quente!

 

Homem junto com mulher
É sempre uma tentação
Nem Deus do céu evitou
A cobra entrar em ação
Tá nas sagradas escrituras
Que todas as nossas amarguras
São culpa de Eva e Adão!

 

Encerrando esses versos
Quero pedir permissão
Pra ir embora ligeiro
Q’eu não posso beber não
Já tá me dando vontade
Tenham santa piedade
Valei-me, meu São João!

 

"Tem tanta fogueira/Tem tanto balão/Tem tanta brincadeira/Todo mundo no terreiro faz adivinhação/...

POESIA/CORDEL – A SOGRA QUE ENGANOU O DIABO. – De Leoandor Gomes de Barros(*)

 

 

 

A SOGRA ENGANANDO O DIABO

 

Pensem numa mulher sabida e braba...

 


 


Dizem, não sei se é ditado,
Que ao diabo ninguém logra;
Porém vou contar o caso
Que se deu com minha sogra.
As testemunhas são eu,
Meu sogro, que já morreu,
E a velha, que é falecida.
Esse caso foi passado
Na rua do Pé Quebrado
Da vila Corpo Sem Vida.

Chamava-se Quebra-Quengo
A mãe de minha mulher,
Que se chamava Aluada
Da Silva Quebra-Colher,
Filha do Zé Cabeludo.
Irmã de Vítor Cascudo
E de Marcelino Brabo,
Pai de Corisco Estupor;
Mas ouça agora o senhor
Que fez a velha ao diabo.

Minha sogra era uma velha
Bem carola e rezadeira,
Tinha seu quengo lixado,
Era audaz e feiticeira;
Para ela tudo era tolo,
Porque ela dava bolo
No tipo mais estradeiro.
Era assim o seu serviço:
Ela virava o feitiço
Por cima do feiticeiro!

Disse o demo: — Quebra-Quengo,
Qual é a tua virtude?
Dizem que és azucrinada
E que a ti ninguém ilude?
Disse a velha: — Inda mais esta!
Você parece que é besta!
Que tem você c’o que faço?
Disse ele: — Tudo desmancho,
Nem Santo Antônio com gancho
Te livra hoje do meu laço!

Ela indagou: — Quem és tu?
Respondeu: — Sou o demônio,
Nem me espanto com milagre,
Nem com reza a Santo Antônio!
Pretendo entrar no teu couro!
E nisto ouviu-se um estouro!
Gritou a velha: — Jesus!
Ligeira se ajoelhou
E, depois, se persignou
E rezou o Credo em cruz!

Nisto, o diabo fugiu.
E, quando a velha se ergueu,
Ele chegou de mansinho,
Dizendo logo: — Sou eu!
Agora sou teu amigo
Quero andar junto contigo,
Mostrar-te que sou fiel.
Minha carta, queres ver?
A velha pediu pra ler
E apossou-se do papel.

— Dê-me isto! grita o diabo,
Em tom de quem sofre agravo.
Diz a velha: — Não dou mais!
Tu, agora, és o meu escravo!
Disse o diabo: — Danada!
Meteu-me numa quengada!
Sou agora escravo dela!
E disse com humildade:
— Dê-me a minha liberdade,
Que esticarei a canela!

Disse a velha: — Pé de pato,
Farás o que te mandar?
Respondeu: — Pois sim, senhora,
Pode me determinar,
Porque estou no seu cabresto
Carregarei água em cesto,
Transformarei terra em massa,
Que para isso tenho estudo;
Afinal, eu farei tudo
Que a senhora disser — faça!

Disse a velha: — Vá na igreja,
Traga a imagem de Jesus.
Respondeu: — Posso trazê-la,
Mas ela vem sem a cruz,
Porque desta tenho medo!
Disse a velha: — Volte cedo!
Ele seguiu a viagem
E ao sacristão iludiu:
Uma estampa lhe pediu
Que só tivesse uma imagem.

A velha, então, conheceu
Do cão o quengo moderno,
E, receando que um dia
A levasse para o inferno,
Para algum canto o mandou
E em sua ausência traçou
Com giz uma cruz na porta.
Voltou o cão sem demora,
Viu a cruz, ficou de fora,
Gritando com a cara torta.

Gritou o cão no terreiro:
— Aqui não posso passar!
Venha me dar minha carta,
Quero pro inferno voltar!
Disse a velha que não dava,
Mas ele continuava
A rinchar como uma besta.
— Pois fecha os olhos! ela diz.
Ele fechou e, com giz,
Fez-lhe outra cruz bem na testa!

Aí entregou-lhe a carta
E o demo pôs-se na estrada,
Dizendo com seus botões:
— Não quero mais caçoada
Com velha que seja sogra,
Porque ela sempre nos logra!
Foi, assim, a murmurar.
Quando no inferno chegou,
O maioral lhe gritou:
— Aqui não podes entrar!

— Então, já não me conhece?
Perguntou ao maioral.
— Conheço, porém, aqui
Não entras com tal sinal:
Estás com uma cruz na testa!
Disse ele: — Que história é esta?
Que é que estás aí dizendo?
Mirou-se dum espelho à luz:
Quando distinguiu a cruz,
Saiu danado, correndo!

E, na carreira em que ia,
Precipitou-se no abismo,
Perdeu o ser diabólico,
Virou-se no caiporismo,
Pela terra se espalhou,
Em todo lugar se achou,
Ao caipora encaiporando,
Embaraçando seus passos
E com traiçoeiros laços
As sogras auxiliando…

Deste fato as testemunhas
Já disse todas quais são.
Agora, quer o senhor
Saber se é exato ou não?
Invoque no espiritismo
Ou pergunte ao caiporismo,
Este que sempre nos logra,
Se sua origem não veio
Do diabo imundo e feio
E do quengo duma sogra!

 

Autor: Leandro Gomes de Barros

 

Fonte: postado originalmento no bestafubana

POESIA/CORDEL – OU É “OITO OU OITENTA” – Por João Roberto Maciel Aquino.

OITO OU OITENTA

 

Já tem bebum pra danar

Lotando o bar de Valdinho

E tá faltando papudinho

Nas palestras do AA.

Sertão seco pra danar

E tanta seca no sul.

Tanto pé de mulungu

No caminho de Jenipapo,

E nenhum pé de jenipapo

No caminho de Mulungu.

 

Pouca batata de imbu

E tanto doce pra fazer.

Só tem cana pra moer

E falta mel de urucu.

Tanta grade de Pitú

Cada vez mais cachaceiro.

Mixaria de dinheiro

Gasta com educação

Quanto político ladrão

Quanto eleitor trapaceiro.

 

Só vi pé de marmeleiro

Quando fui pra Maniçoba.

Só se vê pé de algaroba

Quem vai lá pra Cajueiro.

Tanta rês no tabuleiro

E carro de boi se acabando

A buraqueira é sobrando

Na estrada de Mutuca

Falta peixe no Ipojuca

E o preço da carne aumentando.

 

A vergonha se acabando

E crescendo a corrupção.

Tanto frio em Poção

E aqui a terra rachando.

Suape patrocinando

Emprego pra peãozada.

E, sem mão de obra treinada

Acaba-se a animação

Apodrecendo o feijão

Que Deus deu de mão beijada.

 

Pena máxima aplicada

A quem mata um gavião.

E quem assassina um cristão

Às vezes não sofre nada.

Preso em casa gradeada

Fica o povão ordeiro.

Enquanto que o bandoleiro

Em minoria, na praça,

Pinta, borda e ainda acha graça

Do cidadão brasileiro.

 

Toneladas de dinheiro

Gastas em obra inacabada.

E verbas desperdiçadas

Com “sem terra” e com grileiro.

Segurança em desespero,

Saúde indo pro caixão,

O que sobra pro mensalão

Falta pro judiciário,

Muito para salafrário

Nada para educação.

 

Esse nosso Brasilzão

É difícil de entender

Uns sem nada pra comer

Outros só no camarão

Uísque, champagne, salmão,

Mar, iate, caviar,

Uns tentando escapar

Outros explorando sem dó

E de pior a pior

Não sei onde vai parar.

 

João Roberto Maciel de Aquino