Tag Archives: Cordel

Homenagens : POESIA E CORDEL (Efemérides) – A disputa de Severino Milanês e Pinto do Monteiro.

Homenagem a dois eméritos

Poetas e Cordelistas,

colaboradores do blog:

João Roberto e Robson Aquino

Literatura de Cordel

Literatura popular, impressa em forma de versos, apresentada em pequenos folhetos que trazem histórias fantásticas saídas da imaginação dos seus criadores (“A Mãe que Xingou o Filho no Ventre e ele Nasceu com Chifre e com Rabo“) ou relatam tragédias (“As Enchentes no Brasil no Ano 74”), fatos históricos (“A Guerra de Canudos”) etc.

Os folhetos são livrinhos de 4 por 6 polegadas, impressos em papel barato e geralmente têm a capa ilustrada por uma xilogravura. Por muito tempo, esses folhetos foram a única fonte de informação e divertimento da população mais pobre do Nordeste e ainda hoje eles são encontrados em feiras-livres e mercados populares.

O termo Literatura de Cordel deve-se ao fato de que os folhetos ficavam expostos à venda pendurados num barbante (cordão, cordel). A origem do Folheto de Cordel, segundo Luís da Câmara Cascudo, deve-se à iniciativa dos cantadores de viola em imprimir e vender a sua poesia e à “adaptação à poesia das histórias em prosa que vieram de Portugal e da Espanha”. Em Portugal, o folheto era conhecido por “Literatura de Cego”, devido a uma lei promulgada por Dom João VI que limitava a sua venda à Irmandade do Menino Jesus dos Homens Cegos de Lisboa. O folheto em Portugal era escrito em forma de prosa. Ao chegar ao Brasil, passou a ser escrito em sextilhas de versos de sete sílabas. O primeiro brasileiro a publicar um romance de Cordel foi, provavelmente, Sílvio Pirauá (1848/1913), famoso cantador de viola paraibano. Os poetas populares do Nordeste dividem a Literatura de Cordel em dois tipos: Romance (ficção) e Folheto de Época (narrativa de fatos).

Os experts merecem ser lembrados. Esse poeta paraibano, Pinto do Monteiro, cantador de viola, tinha o pensamento de navalha, nunca perdia uma batalha de letras nem titubeava no improviso. Peleja travada na década de 1980, escrita pelo companheiro Severino Milanês.

Guerreiros de conhecimentos transformando provocações em poesia. | imagem e peleja: Revista Agulha

# Milanês estava cantando em Vitória de Santo Antão chegou Severino Pinto (Pinto do Monteiro) nessa mesma ocasião em casa de um marchante travaram uma discussão…(M= Milanês e P=Pinto)

 

M – Pinto, você veio aqui
se acabar no desespero
eu quero cortar-lhe a crista
desmantelar seu poleiro
aonde tem galo velho
pinto não canta em terreiro

P – mas comigo é diferente
eu sou um pinto graúdo
arranco esporão de galo
ele corre e fica mudo
deixa as galinhas sem dono
eu tomo conta de tudo

M – Para um pinto é bastante
um banho de água quente
um gavião na cabeça
uma raposa na frente
um maracajá atrás
não há pinto que aguente

P – Da raposa eu tiro o couro
de mim não se aproxima
o maracajá se esconde
o gavião desanima
do dono faço poleiro
durmo, canto e choco em cima.

M – Pinto, cantador de fora
aqui não terá partido
tem que ser obediente
cortês e bem resumido
ou me rende obediência
ou então é destruído

P – Meu passeio nesta terra
foi acabar sua fama
derrubar a sua casa
quebrar-lhe as varas da cama
deixar os cacos na rua
você dormindo na lama

M – Quando vier se confesse
deixe em casa uma quantia
encomende o ataúde
e avise a freguezia
que é para ouvir a sua
missa do sétimo dia

P – Ainda eu estando doente
com uma asa quebrada
o bico todo rombudo
e a titela pelada
aonde eu estiver cantando
você não toma chegada

M – O pinto que eu pegar
pélo logo e não prometo
vindo grande sai pequeno
chegando branco sai preto
sendo de aço eu envergo
sendo de ferro eu derreto

P – No dia que eu tenho raiva
o vento sente um cansaço
o dia perde a beleza
a lua perde o espaço
o sol se transforma em gelo
cai de pedaço em pedaço

M – No dia que dou um grito
estremece o ocidente
o globo fica parado
o fruto não dá semente
a terra foge do eixo
o sol deixa de ser quente

P – Eu sou um pinto de raça
o bico é como marreta
onde bate quebra osso
sai flepa que dá palheta
abre buraco na carne
que dá pra fazer gaveta

M – Eu pego um pinto de raça
e amolo uma faquinha
faço um trabalho com ele
depois pesponto com linha
ele vivendo cem anos
não vai perto de galinha

P – Milanês, você comigo
desaparece ligeiro
eu chego lá tiro raça
me aposso do poleiro
e você dorme no mato
sem poder vir no terreiro

M – Pinto, agora nós vamos
cantar em literatura
eu quero experimentá-lo
hoje aqui em toda altura
você pode ganhar esta
porém com grande amargura

P – pergunte o que tem vontade
não desespere da fé
do oceano, rio e golfo
estreito, lago ou maré
hoje você vai saber
pinto cantando quem é

M – Pinto, você me responda
de pensamento profundo
sem titubear na fala
num minuto ou num segundo
se leu me diga qual foi
a primeira invenção do mundo

P – Respondo porque conheço
vou dar-lhe minha notícia
foi o quadrante solar
pelo povo da Fenícia
os babilônios também
gozaram a mesma delícia

M – Como você respondeu-me
não merece disciplina
hoje aqui não há padrinho
que revogue a sua sina
se você souber me diga
quem inventou a vacina?

P – Não pense que com pergunta
enrasca a mim, Milanês
foi a vacina inventada
no ano noventa e seis
quem estuda bem conhece
que foi Jener Escocês

M – Sua resposta foi boa
de vocação verdadeira
mas queira Deus o colega
suba agora essa ladeira
me diga quem inventou
o relógio de algibeira?

P – No ano mil e quinhentos
Pedro Hélio com façanha
em Nuremberg inventou
essa obra tão estranha
cidade da Baviera
que pertence a Alemanha

M – Pinto, cantando não gosto
de amigo nem camarada
se conhece a história
Roma onde foi fundada?
o nome do fundador
e a data comemorada?

P – Em l7 e 53
antes de Cristo chegar
nas margens do Rio Tibre
isso eu posso lhe provar
Rômulo ali fundou Roma
a 15 milhas do mar

M – Pinto, eu na poesia
quero mostrar-lhe quem sou
relativo o avião
perguntando ainda vou
diga o primeiro balão
quem foi que inventou?

P – Em mil seiscentos e nove
Bartolomeu de Gusmão
no dia oito de agosto
fez o primeiro balão
hoje no mundo moderno
chama-se o mesmo avião

M – Pinto estou satisfeito
já de você eu não zombo
mas não pense que com isto
atira terra no lombo
disponha de Milanês
pra ver se ele aguenta o tombo

P – Milanês, você comigo
ou canta ou perde o valor
você me responda agora
seja de que  forma for
de quem foi a invenção
do primeiro barco a vapor?

M – Eu quero lhe explicar
digo não muito ruim
a 16 a 87
você não desmente a mim
o inventor desse barco
foi o sábio Diniz Papim

P – Em que ano inaugurou-se
da Europa ao Brasil
a linha pra esse barco
a vapor e mercantil?
Se não souber dê o fora
vá soprar em um funil

M – Foi um navio inglês
que levantou a bandeira
em 18 a 51
veio a terra brasileira
sendo a nove de janeiro
fez a viagem primeira

P – E qual foi a 1ª guerra
feita a barco a vapor?
Você ou diz ou apanha
da surra muda de cor
quebra a viola e deserta
nunca mais é cantador

M – Em l8 e 65
a esquadra brasileira
dentro do Riachuelo
içou a sua bandeira
na guerra do Paraguai
foi a batalha primeira

P – Milanês, você comigo
ou canta muito ou emperra
não pode se defender
salta, pula, chora e berra
qual foi a primeira estrada
de ferro, na nossa terra?

M – Foi quando Pedro II
tinha aqui poderes mil
em 18 e 54
no dia trinta de abril
inaugurou-se em Mauá
a primeira do Brasil

P – Milanês, você é fraco
não aguenta o desafio
eu ainda estou zombando
porque estou de sangue frio
me diga quem inventou
o telégrafo sem fio?

M – Pinto, você não pense
que meu barco vai a pique
em mil seiscentos e oito
na cidade de Munique
Suemering inventou
este aparelho tão chique

P – Eu já vi que Milanês
não responde cousa à toa
se ainda quiser cantar
hoje um de nós desacoa
puxe por mim que vai ver
um pinto de raça boa

M – Pinto, o seu pensamento
pra todo lado manobra
mas eu não conheço medo
barulho pra mim não sobra
é fogo queimando fogo
é cobra engolindo cobra

P – Do pessoal do salão
levantou-se um cavalheiro
dizendo: quero que cantem
pelo seguinte roteiro
Milanês pergunta a Pinto
como passa sem dinheiro

M – Oh! Pinto, você precisa
dum palitó jaquetão
uma manta, um cinturão
uma calça, uma camisa
está de algibeira lisa
não encontra um cavalheiro
que forneça ao companheiro
pra fazer-lhe um beneficio
olhe aí o precipício
como compra sem dinheiro?

P – Eu recomendo a mulher
que compre na prestação
um palitó jaquetão
a camisa se tiver
quando o cobrador vier
ela esteja no terreiro
eu fico no fogareiro
pelo oitão vou furando
ele ali fica esperando
assim compro sem dinheiro

M – Você em uma cidade
precisa de refeição
porém não tem um tostão
que mate a necessidade
ali não há caridade
na casa do hoteleiro
só encontra desespero
fala e ninguém lhe atende
fiado ninguém lhe vende
como come sem dinheiro?

P – Eu levo um carrapato
guardado dentro do bolso
vou no hotel peço almoço
no fim boto ele no prato
faço logo um desacato
chamo o garçon ligeiro
ele me diz: cavalheiro
cale a boca, vá embora;
saio por ali a fora
assim como sem dinheiro

M – Você precisa casar
para ser pai de família
precisa roupa e mobília
cama para se deitar
você não pode comprar
cadeira nem petisqueiro
atoalhado estrangeiro
mesa para refeição
você não tem um tostão
como casa sem dinheiro?

P – Se a moça me amar, enfim
me tendo amor e firmeza
não especula riqueza
nem diz que eu sou ruim
ela ontem disse a mim:
eu quero é um cavalheiro
e você é o primeiro
para ser meu defensor
quero é gozar teu amor
e assim caso sem dinheiro

M – Você depois de casado
sua esposa cai doente
você não tem um parente
que lhe empreste 1 cruzado
ver seu anjo idolatrado
gemendo sem paradeiro
olhe aí o desespero
na porta do camarada
só ver pobreza e mais nada
como cura sem dinheiro?

P – Eu boto-a nos hospitais
do governo do estado
pra quem está necessitado
aquilo serve demais
as irmãs especiais
chamam logo o enfermeiro:
— Vamos com isto ligeiro
tratam com mais brevidade;
se interna na caridade
assim curo sem dinheiro

M – Oh! Pinto, camaradinha
você precisa ir à feira
para comprar macaxeira
arroz, batata e farinha
bacalhau, charque e sardinha
tomate, vinho e tempero
gás, açúcar e candeeiro
biscoito, chá, macarrão
bolacha, manteiga e pão
Como compra sem dinheiro?

P – Eu dou um jeito no pé
envergo um dedo da mão
um dali dá-me um pão
outro dá-me um café
à tarde vou à maré
espero ali o peixeiro
ele é hospitaleiro
humanitário e carola
dá-me um peixe por esmola
e assim como sem dinheiro

Com este verso do Pinto encheu de riso o salão houve uma recepção naquele nobre recinto ergueu-se um rapaz distinto com frase meiga e bela disse: mudem de tabela pra uma ideia mais grata:

“nem a polícia me empata de chorar na cova dela”.

 

P – Eu tive uma namorada
bonita igual Madalena
parecia uma verbena
pela manhã orvalhada
a morte tomou chegada
matou a minha donzela
quando sepultaram ela
quase a tristeza me mata
nem a polícia me empata
eu chorar na cova dela

M – Eu amei uma criatura
ela o coração me deu
na minha ausência morreu
eu sofri muita amargura
fui à sua sepultura
para abraçar-me com ela
ainda via a capela
toda bordada de prata
nem a polícia me empata
eu chorar na cova dela

P – Um dia um amigo meu,
disse com toda bravura
deixe de sua loucura
se esqueça de quem morreu
uma desapareceu
Procure outra donzela;
eu disse: igualmente aquela
não existe nesta data
nem a polícia me empata
eu chorar na cova dela

M- Desperto de madrugada
o sono desaparece
me levanto e faço prece
na cova de minha amada
volto pela mesma estrada
com o pensamento nela
quando eu não avisto ela
vou dormir dentro da mata
nem a polícia me empata
eu chorar na cova dela.

 

Caros apreciadores qualquer um que analisou nem Pinto do Monteiro saiu vaiado nem Severino Milanês apanhou.

Vamos esperar por outra que esta aqui terminou

– FIM –

# Severino Milanês da Silva, Juazeiro-CE,

02/10/1982

VERSOS/POESIA : Meu Amigo e Desafeto/”…E tu nada mais serás/Que uma lembrança esquecida…” – Por Robson Maciel Aquino.

Meu amigo e desafeto

 

 

 

Senta aí meu companheiro
Velho amigo e desafeto
Distante e sempre tão perto
Que às vezes confunde a gente
Pelo o que vê e o que sente
Olho você do meu lado
Longe me esperas sentado
Te flagro triste e contente

 

Tome assento, camarada
Medusa de três cabeças
Que alimenta tuas presas
Na fonte do meu querer
Se passar te dar prazer
Te adiante, vais embora
Aponta a rota e decola
Mas não deixarás de ser

 

Não podes matar lembranças
Por isso, juntos estamos
Se perto nos atracamos
Distantes crio saudade
Lá longe, a ansiedade
Se vamos nos encontrar
Não posso em ti confiar
Já que és mentira e verdade

 

Se abanque, diabo de luz
O santo da escuridão
Com seu tridente na mão
Passeias no paraíso
No seu rosário indeciso
Um mistério, duas pragas
Tanto escreves como apagas
Amor, ódio, dor e riso

 

Filho da santa e da puta
Todos sonham em te vencer
Podem ganhar de você
Mas não te matam inteiro
Pois vivo vales dinheiro
E morto não tens valor
Sou teu dono, és meu senhor
O último sendo o primeiro

 

Brinde comigo, doutor
Que cura a dor da saudade
Com a agulha da piedade
Costuras sonho e desejo
Dá um tapa, leva um beijo
Abraça e sai apanhado
Pois és fim inacabado
O invisível que eu vejo

 

O seu chicote de couro
Retalha a face da gente
Não há na terra um vivente
Que não tema esses seus traços
Pois eles sugerem cansaço
O final de uma jornada
A última curva da estrada
Da perna, o último passo

 

Dono daquilo que faz
És um artista discreto
Pintas de branco meu teto
Sem me pedir permissão
Na palma da minha mão
Tá gravada a tua estrada
Que uma cigana ajoelhada
Diz saber a direção

 

Meu amigo, amigo tempo
Não posso não te odiar
Nem fingir não te amar
Pois és mais que a existência
Muito além que a eloquência
Um metro após o infinito
Desejo de todo aflito
Um guru da paciência

 

Espere aí, meu senhor
Faça jus à sua fama
Sossegue! Nada de drama
O que passou é lembrança
Que o futuro alcança
E fabrica todo dia
Saudade, sonho, alegria
O velho, o homem, a criança

 

Não há como te parar
Nem correr na tua frente
Então, paralelamente
Vamos fazer um contrato
Me dê de ontem um retrato
De hoje a intensidade
Que amanhã, qualquer verdade
Mesmo dura, serei grato

 

Um dia transpassaremos
Essa faixa de chegada
Aonde a roda é parada
E a morte já foi vencida
Sem corte, dor ou ferida
Com diferenças iguais
E tu nada mais serás
Que uma lembrança esquecida.

 

 

* Autor : Robson Aquino

SEXTILHAS DE CORDEL – “Tá Tudo Mudado” – Por João Roberto Maciel Aquino.

TUDO MUDADO

 

 

Nunca mais eu vi vaqueiro
Entrando em mata fechada
De guarda peito e perneira
Atrás de rês desgarrada.
Não tem mais boi mandingueiro
A mata foi derrubada.

 

Padre de batina preta
Sair fazendo sermão
Em rua, sítio, arruado,
Aconselhando cristão
E o cidadão: Bença, padre!
– Deus te abençoe, meu irmão!

 

Nunca mais vi um carreiro
e sua vara de ferrão
guiando a junta de bois
Vem Xexéu! Bora Cancão!
e o carro de bois gemendo
pela boca do cocão.

 

Não tem pipoca, sorvete,
Brinquedos pra meninada,
Nem coreto com bandinha
Na praça toda enfeitada,
Com casais de namorados
De “duque”  pela calçada.

 

Não vi mais moça donzela
Fazendo adivinhação,
Nem pipoco de ronqueira
O céu cheinho de balão,
Coco em volta da fogueira
Nas noites de São João.

 

Não tem nas beiras de rios
Lavadeiras a cantar,
Ensaboando as roupas
E botando pra quarar.
Os rios viraram esgotos
Nem junco nasce mais lá.

 

Emudeceram os boêmios,
Calou-se a viola esperta,
Não se faz mais serenatas
Pela cidade deserta
Para a amada escutar
Pela janela entreaberta.

 

Acabou-se baile nos clubes,
Os hi-fi, os assustados
As melodias suaves,
Casais dançando colados
Hoje é só tecnomusic,
Tá tudo desmantelado.

 

O mundo modernizou-se
Não sei onde vai parar.
E o homem está condenado
Por deixá-lo desandar
A viver prisioneiro
Dentro do seu próprio lar.

 

Autor : João Roberto Maciel de Aquino

POESIA/CORDEL – ANO NOVO, VIDA NOVA (?) – Por João Roberto Maciel Aquino.

ANO NOVO… VIDA VELHA…(?)

 

 

 

Com o Ano Novo chegando

Se enche de promessa o ar:

Iniciar uma dieta,

Ir à missa, caminhar,

Diminuir a cachaça,

Parar de vez de fumar.

 

1º do ano e, nada

Do prometido se vê

– É confraternização,

O que é que eu posso fazer?

Amanhã é vida nova,

Eu vou mostrar pra você.

E lá vou eu, Zé Promessa

Cumprindo meu ritual.

Aguento um mês, apulso,

Aí chega o carnaval

Quebro a promessa e juro

Depois voltar ao normal.

 

Mas, chega a Semana Santa,

Fica a coisa complicada

Vinho pra tudo que é lado

Bredo, maxixe, imbuzada,

Arroz e feijão de côco,

Peixada, bacalhoada.

Stand by nas promessas

Aí, termina o verão.

Chegam as comidas de milho,

O frio é uma tentação,

O jeito é deixar o regime

Só pra depois do São João.

Passa o São João e, de novo

Tento suspender a cana.

E a Festa das Marocas?

Eita tentação sacana,

E os Festivais de Inverno

Com festa toda semana?…

Tem nada não. Em setembro

Vou cumprir o prometido

Mas, chega a Festa do Leite

Pronto, agora tô fudido

Só de outubro pra novembro

Vejo meu pleito cumprido.

 

Padroeira do Brasil,

Lá vem um feriadão.

Padroeiro da cidade,

O Sagrado Coração

Haja festa e haja motivo

Para bebemoração.

E entre uma festa e outra,

Casamentos, batizados,

Formaturas, aniversários,

Um título conquistado

Pelo meu time querido

Não dá pra passar lotado.

 

O Ano Novo ficou velho

Só eu não fico mais novo

Revejo lá meus conceitos

Prá no próximo Ano Novo

Ver se consigo cumprir

Minhas promessas, de novo.

João Roberto

Poesia – POETA – Por Angela Lucena – Colaboração de João Roberto Maciel Aquino.

POETA

 

 

É um escultor de sonhos
Que entre delírios e verdades
Usa suas vaidades
Não limitando tamanhos

Às vezes em ares tristonhos
Ou cheio de felicidades
Fala de dores e de saudades
Momentos sérios e risonhos

Difícil é retê-lo
O seu caminho tem seta
Mas, também há pesadelo

 

Para se cumprir a meta
Quem procurar entendê-lo
Verá que é um poeta.

 

Ângela Lucena/Poetisa filha do violeiro João Cabeleira de Jenipapo.

POESIA/CORDEL – “Mais uma vez ao relento…” Por Angela Lucena.(*) – Colaboração de João Roberto M Aquino.

COMO SOFRE O MEU AMOR

 

A Poetisa – Angela Lucena

 

 

 

 

 

 

Mais uma vez ao relento

Só mesmo em meu pensamento

Posso contigo estar.

Passo horas de aflição

Vendo o pobre coração

Quase a ponto de parar

Sentindo saudades tua

Vou procurar-te na rua

Certa de que não irei te encontrar

E o tempo vai passando

Eu, as horas vou contando

Sem um minuto perder

Cheia de ansiedade

Porque meu amor na verdade

Satisfaço-me em te ver

E quando o momento chega

É grande a emoção

O fogo ardente da paixão

Começa a me incendiar

E só porque eu te vi

E nem se quer eu senti

Teus lábios os meus tocar

Este amor tão bonito

É a razão do meu viver

Se eu deixar de senti-lo

É preferível morrer

Ele é meu alimento

Me serve como alento

Na hora do meu sofrer.

 

 

(*) – A poetisa Ângela Lucena é sanharoense de Jenipapo e filha do também poeta e repentista João Cabeleira. Foto e poesia extraídos do blog Jenipapo em Foco.

POESIA – O PERFIL DOS “POLÍTICOS BRASILEIROS”. de Varnecir Santos do Nascimento – Colaboração de Jozinaldo Viturino de Freitas.

A imagem fala por si...

 

 

 

PERFIL DOS

“POLÍTICOS BRASILEROS”

 

Ser enganador, mentir,
Enrolar, ser trambiqueiro,
Gostar de fazer promessa,
Não pagar, ser trapaceiro,
Eis os requisitos básicos
Do político brasileiro.

Fazer tudo por dinheiro,
Detestar pessoa séria,
Não importar se o povo,
Tá morrendo na miséria.
Ao escutar falar dela,
Achar que isso é pilhéria.

 

 

Se a fome deletéria
Castiga um desempregado,
Ao saber dessa notícia
Fingir-se penalizado,
Porém, quando for comer,
Não lembrar do esfomeado.

Senador ou deputado
Quem quer ser, vai se tornar
Graduado em trambicagem,
Pós-graduado em roubar,
Um mestre em negociata,
E doutor em subornar.

 

Nessa escola quem entrar
Sai de diploma na mão,
Um pós-doutor em desvio,
Propina e roubo a nação
PHD em escândalo,
Gênio da enganação.

De superfaturação
Terá aula em abundância,
Passar o povo pra trás,
Não importa a circunstância,
Chefiar quadrilha e máfia
De bingo e de ambulância.

 

Jamais medirá distância
Pra fazer maracutaia,
Ou contratar cafetina
E puta de mini-saia
Pra na mulher do casal
No prostíbulo, botar gaia.

Ignorar qualquer vaia
Ou aceitá-la sorrindo,
Estar morrendo de raiva,
Porém, andar se abrindo,
Alguém lhe jogar um ovo,
Fingir que é aplaudido.

 

Aprender viver fugindo
Do povo que lhe procura,
Nunca apresentar projetos
De incentivo à cultura,
Odiar sempre a verdade
Amar a mentira pura.

Na câmara ou prefeitura,
Em todos dois empregar
O filho, o sogro e a sogra
Neto e genro colocar
Para receber dinheiro,
Sem precisar trabalhar.

 

Topar sempre viajar
Em viagem planetária,
Pra triplicar o salário,
Só embolsando diária,
Fazendo a população
Brasileira de otária.

Não ver a vida precária
Do menor abandonado,
Dos moradores de rua
E de um jovem drogado,
De tanto trabalhador
No país desempregado.

 

Ficar muito indignado
Com roubo e enrolação,
Se assaltarem o dinheiro
Do erário da nação
Denunciar a justiça,
Sendo você o ladrão.

 

Ser contra a corrupção
Só que aparentemente,
Criticar sempre os ladrões
E pousar de inocente
Mas, dentro dos gabinetes,
Roubar mais que serpente.

Pra imprensa e toda gente
Claramente demonstrar
Que não quer como colega
Quem não seja exemplar,
Porém, no voto secreto,
Jamais o deixar cassar.

 

Destemido plagiar
Projetos do companheiro,
Ser sócio de várias tramas
De lavagem de dinheiro,
Quando perder nas pesquisas
Contratar um marqueteiro.

Gatuno, rato, ladrão,
Biltre, larápio, indecente.
Calhorda, abjeto, infame,
Enganador, prepotente,
Vêm formando os governos,
No Brasil, infelizmente.

 

Varneci Santos do Nascimento

(Foto no Google)

SANHARÓ : O POETA E OS APELIDOS. a saga continua… – Por João Roberto Maciel Aquino.

SERÁ QUE ESTOU NESSA LISTA?

 

 OS APELIDOS E OS APELIDADOS

 

 

 

Lembrando os moleques desse meu rincão

Fiz umas sextilhas, mandei pro blogueiro

Citando os nomes de alguns presepeiros

E fui criticado na publicação:

– Faltou muita gente nesta relação,

Pense direitinho, faça uma maior,

Fale em Pedro Cem, Ciço Paguá, Soró

E mais uma tuia de menino ruim

Que juntos, Pesqueira e Belo Jardim

Não vai ter metade, nem vai ter pior.

 

Marcaram época em Sanharó

Telmisio, Tuba, Gil Avelino,

Gonzaga Leite, Eudinho, Cutitino,

Bode de Ventura, Foreba, Cocó,

Nelson e Veneno de Zefa Bogó,

Pólo, Germano, Gileno, Lidinho,

Jacaré, Risaldo, Zaco, Ivanildinho,

Buguinho de Alice, Galego Azul,

Arimatéia, Jorge de Lindu,

Juca de Plácido, Coelho, Gilbertinho.

 

Buquê, Anchieta, Zome, Armandinho,

Ney, Zé Furado, Furica e Tita,

Lala, Mandinho e Binha Guaxita,

Renan, Galo, Fontes, Zé de Ditinho,

Cóca, Piaba, Dalécio, Tavinho,

Júnior de Mãezinha, Meleca, Goieiro,

Fita, Fofaterra, Sunga, Candeeiro,

Bira, Passaro, César Babão,

Paulo Tiririca, Delta, Bizungão,

Orlando de Zuca, Enilson Fumeiro.

 

Os filhos todinhos de Seu João Medeiros,

Sávio e Nenen de Zé de Zoê,

Lula de Otacílio, Toinho Benguê,

Normando, Nedson, Paulo Sapateiro,

Magliano, Leopoldo, Zezinho do Ferreiro,

Léo de Hilton Leite, Mujica, Buguinho,

Neguinho de Rita, Rute de Estevinho,

Josa, Tempestade, Augusto, Boré,

Maguinho, Fernando e Chiquinho de Cazé,

Benedito Manjarra, Lacerda, Bertinho.

 

Os filhos de Zé Grande: Nilson e Edinho,

Marco de Floriano, Paulinho de Ventura,

Murilo de Aprígio, Zumbiga, Gastura,

Geraldo Lotéro, Zica, Edilsinho,

Marco de Amaro e Jorge de Chico Machinho,

Mano de Fabiano, Paulinho Muniz,

Os filhos de Topinha lá no chafariz,

Mauro Soares, Chico de Miguel,

Irassom, Amarildo, os filhos de Joel,

Fizeram daqui um lugar feliz.

 

Serviram de palco: a praça da matriz,

Os parques das festas, o rio de Raimundo,

O poço de Lalai, perigoso e fundo,

Bananal lotado de miritis,

As quadras com jogos estudantis,

As ruas, a ponte, palhoça de forró,

As tardes de chuva, as manhãs de sol,

As salas de aula, o pátio da escola,

Para esses artistas do riso, da bola

E das presepadas no meu Sanharó.

 

João Roberto Maciel Aquino –

Poeta/Cordelista – Sanharoense.

POESIA/CORDEL – “…Eu era feliz e não sabia…” Moleques Que Fomos… – Por João Roberto Maciel Aquino.

 

 

MOLEQUES QUE FOMOS

 

 

 

Eu andei observando

Como o tempo está mudado,

Os moleques de hoje em dia

Como estão modificados,

E os brinquedos atuais

Não parecem em nada mais

Com os de algum tempo passado.

 

 

Os brinquedos de hoje em dia

São muito sofisticados.

Pilhas, controles remotos,

Laser, joistic, teclado.

O brinquedo brinca sozinho

E o pirralho, coitadinho

Só assistindo sentado.

 

 

Peladas em meio de rua,

Páreos em rua ladeirada,

Com carros de rolimã

Ou bicicleta alugada,

Era o divertimento

Da molecada passada.

 

Hoje ninguém brinca mais

De bila, finca, pião,

Barra bandeira, peteca,

Firo, damas e gamão

Onça, cavalo de pau,

Carro puxado a cordão.

 

 

E moleque presepeiro,

Amorcegador de trem,

Arengueiros, anarquistas,

Sem poupar nada e ninguém,

Ruins de marca maior

Nesta nossa Sanharó

Tinha de encher FEBEM.

 

Tinha um Juca de Plácido

Oh moleque ruim de mais

Zé de Ditinho, Manjarra,

Também não ficavam atrás

Cada um ruim do seu jeito

E um tal Bertinho de Zé Preto

Era quase um satanás.

Zé Maria de Genésia

Quando com Nena encontrava

Era uma briga na certa

Ninguém no mundo empatava

Lilsinho, Nelsinho, Gibinha,

Tornavam a Lingüeta rinha

Ninguém saia ou entrava.

 

 

Quem mais sofria com eles:

As professoras, coitadas.

Que era Dona Conceição,

Dona Elvira, Dona Inalda,

Filadélfia, Terezinha,

Dona Sônia, Dona Nevinha,

Marly Ribas, Dona Alda.

A molecada de hoje,

Nem parece com esses pivetes.

Sem peraltices, sem brigas,

Sem pedradas, sem bofetes,

Não entram mais no esquema

Só querem shopping, cinema,

Vídeo games, internet.

 

 

Menino era sempre autêntico,

Rezando ou jogando bola,

No catecismo de Diva

Na argüição da escola,

Nos chambregos atrás dos muros

Dos namoros sem futuro

Ou nas farras de mariola.

 

Presepadas sem maldades

Só para rir aos montões.

Brigavam e com meia hora

Só abraços e perdões

Sem ódio ou ressentimentos

Tudo era divertimento,

Sem cangas, peias ou grilhões.

 

 

E em 12 de outubro

Vou pedir em oração

À Virgem de Aparecida,

São Cosme e São Damião

Que guiem nossos destinos

e não deixem faltar meninos

presepeiros no sertão.

Autor: João Roberto Maciel Aquino.

HOMENAGEM

 

Em homenagem aos moleques de todas essas épocas tão  vivas, tão vividas e tão sanharoenses…Moleques  que Fomos é um retrato na parede de cada coração infanto-juvenil, tão bem emoldurado na verve sensível e lúdica num soneto de sonho de cada um de nós… Moleque que Fomos em imagens latentes que vagueiam em nossos sonhos do presente e de um telurismo riquíssimo  que só a alma do poeta saberia recordar…

Em nossa homenagem, o blog posta o video de Ataulfo Alves Meus Tempos de Criança. (Basta clicar na seta e aguardar carregar)

 

TRIBUTO.

Tomo emprestado ao autor o seu enredo e o ofereço a um grande amigo de infância. Relembro, com saudade, um joguinho na sua sinuquinha no alpendre da casa de seus avós. Refiro-me ao estimado José Monteiro da Costa – Zé de Ineizinha. Sempre o reencontro e sempre relembramos nossos momentos juvenis.

POESIA/CORDEL – “…um sorriso desdentado…” – O PEDINTE – Por Robson Maciel Aquino.

 

Pedinte. Uma chaga social...

 

O Pedinte

 

 

 

Vejo um homem sentado na calçada
Barba branca e um sorriso desdentado
Todo em trapos na sombra da sacada
Um olhar bem distante e tão cansado

Pobre homem por todos reprimido
Que a esperança cansou e foi embora
No semblante infeliz e tão sofrido
A alegria inverteu-se e nele chora

 

Quem será esse velho desprezado?
Que passado viveu pr’esse presente?
Como pode colher o grão plantado,
Se com lágrimas regou suas sementes?

 

Quanta dor é possível perceber
Nessa mão estendida a implorar
E os seus dedos que estão sempre a tremer
Denunciam a vergonha sem parar

 

Não importa o ventre que pariu
Esse corpo inativo; sem ação
Se nascestes da pátria mãe gentil
De direito és igual; és cidadão

 

Mas direito a que? Pergunto eu!
A uma cova, sobre ela uma flor da praça?
Ou quem sabe a um diploma de plebeu
Sem parede pra expor sua desgraça

 

Esse homem perdido em sua cena
Já não sabe dizer o que dói mais:
O passado que hoje lhe condena
Ou a lápide a ser grafada: “aqui jaz”

E o corpo à distância vai sumindo
Sou mais um a ter pena e ir embora
Quanta culpa e culpados vão surgindo
Na análise que fiz e faço agora

 

Quando um homem se humilha a outro homem
A nação por ninguém é respeitada
Os valores apodrecem e logo somem
O país e seu povo valem nada.

Autor; Antonio Robson Maciel Aquino.