Tag Archives: Poesia

SEXTILHAS DE CORDEL – “Tá Tudo Mudado” – Por João Roberto Maciel Aquino.

TUDO MUDADO

 

 

Nunca mais eu vi vaqueiro
Entrando em mata fechada
De guarda peito e perneira
Atrás de rês desgarrada.
Não tem mais boi mandingueiro
A mata foi derrubada.

 

Padre de batina preta
Sair fazendo sermão
Em rua, sítio, arruado,
Aconselhando cristão
E o cidadão: Bença, padre!
– Deus te abençoe, meu irmão!

 

Nunca mais vi um carreiro
e sua vara de ferrão
guiando a junta de bois
Vem Xexéu! Bora Cancão!
e o carro de bois gemendo
pela boca do cocão.

 

Não tem pipoca, sorvete,
Brinquedos pra meninada,
Nem coreto com bandinha
Na praça toda enfeitada,
Com casais de namorados
De “duque”  pela calçada.

 

Não vi mais moça donzela
Fazendo adivinhação,
Nem pipoco de ronqueira
O céu cheinho de balão,
Coco em volta da fogueira
Nas noites de São João.

 

Não tem nas beiras de rios
Lavadeiras a cantar,
Ensaboando as roupas
E botando pra quarar.
Os rios viraram esgotos
Nem junco nasce mais lá.

 

Emudeceram os boêmios,
Calou-se a viola esperta,
Não se faz mais serenatas
Pela cidade deserta
Para a amada escutar
Pela janela entreaberta.

 

Acabou-se baile nos clubes,
Os hi-fi, os assustados
As melodias suaves,
Casais dançando colados
Hoje é só tecnomusic,
Tá tudo desmantelado.

 

O mundo modernizou-se
Não sei onde vai parar.
E o homem está condenado
Por deixá-lo desandar
A viver prisioneiro
Dentro do seu próprio lar.

 

Autor : João Roberto Maciel de Aquino

TOADA : QUERO VOLTAR, SANHARÓ! “Lembrando da mocidade/Passa o tempo, fico eu…” – Por Robson Maciel Aquino.

SANHARÓ - vista aérea. Vê-se a BR que leva e traz e o velho rio ipojuca, onde a meninada se banhava...(foto Davi Calado)

Quero voltar, Sanharó!

Toada

Eu vi os raios do sol
Beijar a crista da serra
Senti um cheiro de terra
Molhada no meu nariz
Ouvi cantar o concriz
Me encantou rouxinol
Do alto eu vi Sanharó
Com sua bela matriz

 

Lugar onde fui feliz
No tempo que era criança
Distante só a lembrança
Me fazia soluçar
Não podia me lembrar
Pé-de-serra, Maniçoba
E o caminho das algarobas
Me levando pra estudar

 

Saudade chega a sangrar
Abre no peito uma ferida
Relembro minha partida
E tudo que ali ficou
A casa do meu avô
E o campinho da salina
Namorar com a menina
Que um dia por mim chorou

 

O tempo nunca calou
A voz do filho ausente
Que viveu, praticamente,
Das lembranças do passado
Com seu desejo negado
A dor da separação
Rasgando o seu coração
Deixando o pobre arrasado

 

 

Voltar pr’ali é um desejo
Que eu sonho em realizar
Não pode haver um lugar
Melhor que aquele que é seu
Só sabe quem já perdeu
Meus versos cantam saudade
Lembrando da mocidade
Passa o tempo, fico eu

 

Ver a porteira, a cangalha;
Tambor de leite no chão
No radio, ouvir Gonzagão
Cantando a sua Asa-branca
Um calendário com a santa
Na parede de sapê
Pra todos nós proteger
Debaixo da sua manta

 

O café forte e cheiroso
Antes de um dia pesado
Sentindo o cheiro do gado
Ouvindo o galo cantar
Não sei como fui parar
Tão longe dessa beleza
Deus criou, e a natureza
Não parou de me ofertar

 

Se um dia o tempo pensasse
Naquilo que ele levou
Medisse com tal rigor
Cada segundo roubado
Cada momento vedado
E a dor da separação
Pra sua reparação
Me levava pro passado

 

 

Me sentava na calçada
Me dava tudo igualzinho
Meus amigos, meus vizinhos
A minha história repleta
A estrada e a bicicleta
E a curva onde retornar
Pra nunca mais me afastar
Pois isso é que me completa

Autor: Antonio ROBSON Maciel AQUINO.

POESIA : A IMPLOSÃO DA MENTIRA – Affonso Romano de Santanna. – Colaboração de Carlos Henrique S Muniz.

A implosão da mentira

 

 

Affonso Romano de Santanna(*)

 

Fragmento 1

 

 

Mentiram-me. Mentiram-me ontem

e hoje mentem novamente. Mentem

de corpo e alma, completamente.

E mentem de maneira tão pungente

que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.

Não mentem tristes. Alegremente

mentem. Mentem tão nacional/mente

que acham que mentindo história afora

vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases

falam. E desfilam de tal modo nuas

que mesmo um cego pode ver

a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil

e para alguns é cara e escura.

Mas não se chega à verdade

pela mentira, nem à democracia

pela ditadura.

 

Fragmento 2

Evidente/mente a crer

nos que me mentem

uma flor nasceu em Hiroshima

e em Auschwitz havia um circo

permanente.

Mentem. Mentem caricatural-

mente.

Mentem como a careca

mente ao pente,

mentem como a dentadura

mente ao dente,

mentem como a carroça

à besta em frente,

mentem como a doença

ao doente,

mentem clara/mente

como o espelho transparente.

Mentem deslavadamente,

como nenhuma lavadeira mente

ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem

com a cara limpa e nas mãos

o sangue quente. Mentem

ardente/mente como um doente

em seus instantes de febre. Mentem

fabulosa/mente como o caçador que quer passar

gato por lebre. E nessa trilha de mentiras

a caça é que caça o caçador

com a armadilha.

E assim cada qual

mente industrial?mente,

mente partidária?mente,

mente incivil?mente,

mente tropical?mente,

mente incontinente?mente,

mente hereditária?mente,

mente, mente, mente.

E de tanto mentir tão brava/mente

constroem um país

de mentira

—diária/mente.

 

Fragmento 3

 

Mentem no passado. E no presente

passam a mentira a limpo. E no futuro

mentem novamente.

Mentem fazendo o sol girar

em torno à terra medieval/mente.

Por isto, desta vez, não é Galileu

quem mente.

mas o tribunal que o julga

herege/mente.

Mentem como se Colombo partindo

do Ocidente para o Oriente

pudesse descobrir de mentira

um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria,

viajando pelo avesso, iludindo a corrente

em curso, transformando a história do país

num acidente de percurso.

 

Fragmento 4

Tanta mentira assim industriada

me faz partir para o deserto

penitente/mente, ou me exilar

com Mozart musical/mente em harpas

e oboés, como um solista vegetal

que absorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem.

mesmo se têm um caçador à sua frente.

Penso nos pássaros

cuja verdade do canto nos toca

matinalmente.

Penso nas flores

cuja verdade das cores escorre no mel

silvestremente.

Penso no sol que morre diariamente

jorrando luz, embora

tenha a noite pela frente.

 

Fragmento 5

 

Página branca onde escrevo. Único espaço

de verdade que me resta. Onde transcrevo

o arroubo, a esperança, e onde tarde

ou cedo deposito meu espanto e medo.

Para tanta mentira só mesmo um poema

explosivo-conotativo

onde o advérbio e o adjetivo não mentem

ao substantivo

e a rima rebenta a frase

numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva

se não explode pra fora

pra dentro explode

implosiva.

 

(*) Afonso Romano de Santanna é membro da ABL – Academia Brasileira de Letras.

POESIA/CORDEL : O HOMEM ENVELHECE… E SOFRE… – Por Marco Soares.

VELHICE MASCULINA

 

 

 

Cabeça careca
Dispensa os pentes
Nos olhos, uns óculos
Ou um par de lentes

 

Ouvidos não ouvem
Sem um aparelho
Mil rugas no rosto
Vê–se no espelho

Dentes não existem
Tem é dentadura
Pescoço enterrado
Minguando a altura

 

Outrora sarada
Tão linda e perfeita
A barriga flácida
Nos joelhos peita

As pernas fraquinhas
Tentam caminhar
Mas apenas se arrastam
Ao invés de andar

 

E a peia, coitada!
Antes brava e tão forte
Tá mais para o sul
Do que para o norte

Decerto é triste
Grande a frustração
Chegar ao ponto
De não ter mais tesão

 

Mas como a cabeça [de cima]
Não se lembra de nada
Disso não se dá conta
Fica sossegada

É puro milagre
Melhor: perfeição
D’Aquele que fez
Toda criação.

 

 

TESTE:

Esta composição é de:
a) Robson Aquino
b) Jessier Quirino
c) João Roberto
d) Zé Limeira
e) Outro autor

A POESIA COMO MENSAGEM DE ANO NOVO(*) – Colaboração de Eliane Soares.

Para você, em 2012

 

 

 

“Desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
A esperança renovada.

Para você,
Desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir
Todas as músicas que puder emocionar.

Para você,
Desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
Que sua família esteja mais unida,
Que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas.
Mas nada seria suficiente para
Repassar o que realmente desejo a você.

Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto,
ao rumo da sua felicidade!”

(*) Carlos Drummond de Andrade

POESIA/CORDEL – ANO NOVO, VIDA NOVA (?) – Por João Roberto Maciel Aquino.

ANO NOVO… VIDA VELHA…(?)

 

 

 

Com o Ano Novo chegando

Se enche de promessa o ar:

Iniciar uma dieta,

Ir à missa, caminhar,

Diminuir a cachaça,

Parar de vez de fumar.

 

1º do ano e, nada

Do prometido se vê

– É confraternização,

O que é que eu posso fazer?

Amanhã é vida nova,

Eu vou mostrar pra você.

E lá vou eu, Zé Promessa

Cumprindo meu ritual.

Aguento um mês, apulso,

Aí chega o carnaval

Quebro a promessa e juro

Depois voltar ao normal.

 

Mas, chega a Semana Santa,

Fica a coisa complicada

Vinho pra tudo que é lado

Bredo, maxixe, imbuzada,

Arroz e feijão de côco,

Peixada, bacalhoada.

Stand by nas promessas

Aí, termina o verão.

Chegam as comidas de milho,

O frio é uma tentação,

O jeito é deixar o regime

Só pra depois do São João.

Passa o São João e, de novo

Tento suspender a cana.

E a Festa das Marocas?

Eita tentação sacana,

E os Festivais de Inverno

Com festa toda semana?…

Tem nada não. Em setembro

Vou cumprir o prometido

Mas, chega a Festa do Leite

Pronto, agora tô fudido

Só de outubro pra novembro

Vejo meu pleito cumprido.

 

Padroeira do Brasil,

Lá vem um feriadão.

Padroeiro da cidade,

O Sagrado Coração

Haja festa e haja motivo

Para bebemoração.

E entre uma festa e outra,

Casamentos, batizados,

Formaturas, aniversários,

Um título conquistado

Pelo meu time querido

Não dá pra passar lotado.

 

O Ano Novo ficou velho

Só eu não fico mais novo

Revejo lá meus conceitos

Prá no próximo Ano Novo

Ver se consigo cumprir

Minhas promessas, de novo.

João Roberto

POESIA – Natá Matuto -(*) – Colaboração de João Roberto Maciel Aquino.

Natá matuto

 

 

Nosso matuto, gente especiá
que passa o ano inteiro no roçado
não perde uma festa de Natá
vem dos sítios, das fazendas, povoados
vem os véios, as moças, a meninada
se arruma tudo e vem pra rua cedo
que nem formigas pelo meio da estrada
com suas trouxas de bagúi no dedo

 

Vem tudo de pés no chão
pra se carçá na chegada
de isprito e pó coração
as trouxas vem carrregada
quando tá se aproximando
da venda de Seu Migué
se acentam na carçada
pru mode alimpá os pé

As moças ajeita os vestido novo
de gurgurão, seda, popelina
e vão se misturá no meio do povo
e os véios com cuidado nas meninas
os homi vem de terno engomado
chapéu novo, manta azul ferreto
os colarim das camisa alevantado
vão direto pra frente do coreto

 

A banda já vem tocando
o seu bonito dobrado
tá todo mundo esperando
o coreto tá todo arrudiado
se assobe, pega os assento
bota instrumento na mão
enquanto o maestro Bento
manda tocá “sardade de Matão

Um bando vão logo andá
de mão dada, homi e muié
outros vão apreciá
as roda, as canoa, os carrocé,
outros vão pros botequim
beber, cuspir, sabê nutiça
conversa boa ali só chega ao fim
quando ouve o sino chamando pra missa

 

No pantamá da igreja
tem um artá infeitado
que as cumadre chega e beija
aquele artá sagrado
a despois vão se assentá
pra esperá o vigaro
as oito tão todas lá
debruiando seus rusario

Nas barracas sem coberta
tá cheio de mesa intupida
garrafa de cana aberta
tem bolo e carne cozida
se assentam e começa a prosa
e ficam em combinação
pras muié tumá gasosa
e os homi no vinho São João

 

Na geladeira do lado
a meninada de sapato apertado
mete a cara na gelada
até ficarem impanzinado
a mãe chama o filho ligeito
e diz: Otávio, vem cá
chera logo esse dinheiro
pru mode num vomitá!…

No beco do Armazém
que é o beco da mijada
se nota aquele vai e vem
de toda essa matutada
o rapaz tá na carçada
amostrando à manorada
as luz que tão pinicando
e achando a coisa engraçada

 

Despois da missa do galo
e ouvir todo sermão
vorta Zabé mais Gonçado
pelos beco ao impurrão
Cumadre Antonha Sabina
se peita com Zé Rumão
e pregunta: Viu Sulina,
perdida nessa afrição?

Tá nas hora de nós isse
vá dize a Mané Paulo
quem quisé ficá que fique,
já vimo a Missa do Galo!
e antes que eu esqueça,
chame cumadre Guducha
tire a manta da cabeça
amarre na trocha e puxa.

 

A festa tá se acabando
o dia já quer raiar
tá tudo se arrumando
pras suas casas voltá

Essa é a festa de todos os anos
festa do povo, festa sem iguá
é um consolo para os desengano
da matutada, gente ispiciá

 

Gente que fica sempre relembrando
a luz correndo no quilarão da igreja
as roda girante, os bote, os carrocé rodando
pra alegria da família sertaneja

Festa com o jeito de ser nordestino
feita com luz, cores e calor
aniversário do Jesus menino
Festa do Divino Salvador.

 

(*) – Eu vi essa poesia no Jornal Vanguarda de Caruaru, há algumas décadas. Guardei os versos de cór, mas, esqueci de guardar o nome do autor. Se algum dos leitores souber nos dar essa informação, nós agradeceremos e aproveitaremos para prestar-lhe uma homenagem pela criação dessa pérola.

João Roberto M Aquino.

POESIA – VIDA – “…Nos recônditos da minh’ alma”… – Por Marco Aurélio Ferreira Soares.

VIDA

 

Vou vivendo em eterna busca
De lugar em lugar, incessantemente
Fazendo uma coisa, outra, outra mais.
Ainda bem: estou vivo!
E antes que a cortina se feche
Vou procurando discernir o que valeu a pena
Para guardar eternamente
Nos recônditos da minh’ alma
Para revigorar-me, quando preciso for.

Marco Aurélio

Poesia – POETA – Por Angela Lucena – Colaboração de João Roberto Maciel Aquino.

POETA

 

 

É um escultor de sonhos
Que entre delírios e verdades
Usa suas vaidades
Não limitando tamanhos

Às vezes em ares tristonhos
Ou cheio de felicidades
Fala de dores e de saudades
Momentos sérios e risonhos

Difícil é retê-lo
O seu caminho tem seta
Mas, também há pesadelo

 

Para se cumprir a meta
Quem procurar entendê-lo
Verá que é um poeta.

 

Ângela Lucena/Poetisa filha do violeiro João Cabeleira de Jenipapo.

POESIA/CORDEL – “Mais uma vez ao relento…” Por Angela Lucena.(*) – Colaboração de João Roberto M Aquino.

COMO SOFRE O MEU AMOR

 

A Poetisa – Angela Lucena

 

 

 

 

 

 

Mais uma vez ao relento

Só mesmo em meu pensamento

Posso contigo estar.

Passo horas de aflição

Vendo o pobre coração

Quase a ponto de parar

Sentindo saudades tua

Vou procurar-te na rua

Certa de que não irei te encontrar

E o tempo vai passando

Eu, as horas vou contando

Sem um minuto perder

Cheia de ansiedade

Porque meu amor na verdade

Satisfaço-me em te ver

E quando o momento chega

É grande a emoção

O fogo ardente da paixão

Começa a me incendiar

E só porque eu te vi

E nem se quer eu senti

Teus lábios os meus tocar

Este amor tão bonito

É a razão do meu viver

Se eu deixar de senti-lo

É preferível morrer

Ele é meu alimento

Me serve como alento

Na hora do meu sofrer.

 

 

(*) – A poetisa Ângela Lucena é sanharoense de Jenipapo e filha do também poeta e repentista João Cabeleira. Foto e poesia extraídos do blog Jenipapo em Foco.