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POESIA/CORDEL: VIVENDO E APRENDENDO/A Sabedoria do povo (?) – Por Robson Maciel Aquino.

O CORDEL DO POVO ENGANADO

Robson Aquino

Oh Brasil véio perdido
Que qualquer um chega e manda
Só basta ter uns trocados
Fazer sua propaganda
Vira logo autoridade
Mandando em toda cidade
Chefe do poder local
Começou com Portugal
França e depois Holanda

A Inglaterra, também
Levou ouro de montão
Pra proteger um rei fraco
Do bravo Napoleão
Exigiu e foi aceito
Um tratado “mei” suspeito
Todo cheio de vantagem
Pense numa pilantragem
Lascou nós, desde então

Dom Pedro veio em seguida
Com uma tal de independência
Raspou o fundo do tacho
Selou nossa decadência
Ainda saiu como herói
Isso, sim, é que me dói
E eu não consigo entender
Quem fez o povo sofrer
Faz-se a ele reverência

A República das Espadas
Deodoro e Floriano
A primeira ditadura
Bem por debaixo do pano
Rui Barbosa era ministro
Com um plano muito sinistro
Chamado de encilhamento
Freou nosso crescimento
E o Brasil foi pelo cano

Política Café com Leite
Essa não dá prá entender
Minas Gerais e São Paulo
Revezando no poder
Enquanto um esperava
O outro, então, quem mandava
No restante do país
Eita Brasil infeliz
Que não pára de sofrer

Getúlio Dorneles Vargas
Pôs fim a Velha República
Governou por quinze anos
Armou pro povo uma arapuca
Chamando Plano Cohen
Que até hoje ninguém
Sequer pegou nessa lista
Muito menos os comunistas
Vítima maior da cutruca

Teve uma coisa esquisita
Chamaram revolução
Caçaram os comunistas
Dizendo ser solução
Deram um golpe de Estado
Com fardas e estrelados
Disseram: é por pouco tempo
Mas gostaram do invento
Pra sair foi complicado

Castelo Branco começa
Geisel e Médici, suas crias
Dá-lhe porrada no lombo
Adeus à democracia
E tome AI5 no povo
Foi tanto choque no ovo
Figueiredo abre o badalo:
“Gosto mais do cheiro de cavalo
Do que o do homem”, dizia

Então veio a anistia
Com ela, Collor de Melo
Esse não durou nadinha
Desmoronou-se o castelo
Mas antes de ir embora
Deixou formada uma escola
De pilantras pra roubar
E o povo sempre a penar
Debaixo desse chinelo

Fernando Henrique Cardoso
Que foi líder estudantil
Sociólogo de renome
Presidente do Brasil
Foi logo dando o recado
Meu escrito tá negado
Só vale daqui pra frente
Neoliberal dos mais crentes
Vendeu tudo e ainda riu

Oito anos de espera
Assumiu o homem bruto
Lula era o presidente
Com poder absoluto
Foi chegando devagar
Sem querer incomodar
Comendo pelas beiradas
Com um tempo tava formada
A Gangue Valério-duto

O bastão foi repassado
Uma mulher assumiu
Palocci mostrou a cara
E ela fez que não viu
Mas o desgaste político
Foi um forte ponto crítico
Que derrubou o pajé
Caiu, mas caiu de pé
Como sempre, eu acredito

Deixando a politicagem
Com seus podres mecanismos
Dominações diferentes
Surgem com muito cinismo
Religioso aloprado
Advogado folgado
Que pensa que é doutor
Um merda dum jogador
Tratado com estrelismo

As grandes corporações
Com seus ídolos criados
A Globo ditando as regras
Fortalece o seu reinado
A cada dia que passa
O povo tem sua raça
Sua crença e sua fé
Do jeito que ela quer
E ainda acha engraçado

Eu não vou falar mais nada
Não adianta. Pra que?
Um dia esse povo acorda
Então vai se perceber
O quando foi explorado
Por políticos depravados
E, quem sabe, se revolte
Se livre desse chicote
E pegue de volta o poder.

POESIA JUNINA – Homenagem aos Festejos do São João – Por Marco Aurélio Ferreira Soares.

"Olha pro céu meu amor/Vê como ele está lindo/...

SÃO JOÃO DA CODEVASF – 2011

Por: Marco Aurélio

 

Aqui na 6ª SR
Já começou o São João
O pátio tá todo enfeitado
E a maior animação
Viva a superintendente
Que muito apoiou a gente
Nessa realização

 

Tem sanfona, tem zabumba
Um casal se esfregando
Canjica, pamonha, licor
Uma fogueira queimando
Espiga de milho assado
E um sujeito abestado
Sentado num banco olhando

 

Um bêbado, mulher caçando
E elas dele correndo
Um sóbrio, quieto num canto
E elas se oferecendo
Se essa festa durar
Vai dar muito o que falar
Veja o que estou dizendo

Tudo estava indo bem
Sem a “marvada” bebida
Agora bagunçou tudo
E não se vê mais saída
Os homens perderam o rumo
As mulheres, todo o prumo
São João tá puto da vida!

 

Por que não se divertir
Beber com moderação?
Depois que a merda tá feita
É difícil solução
Não adianta chorar
Pedir pra doutor consertar
Que não tem mais jeito não.

 

Se não seguirem esta regra
Sou capaz de apostar:
Alguém vai ganhar barriga
E um trouxa vai bancar
Teremos mais um cristão
Para no próximo São João
O santo abençoar…

 

E não adianta correr
Tem de pagar a pensão
A justiça não perdoa
Disso, não abre exceção
Assuma o seu pimpolho
Comece a ser “ferrolho”
É a melhor solução.

 

Faça logo uma poupança
Pra dar luxo pra mulher
Mais do que o teu carinho
É isso que ela quer
Cuida bem do teu rebento
Se não tu vira detento
Como um malandro qualquer.

 

Assim é a pisada hoje
E nunca foi diferente
Mulher é uma coisa boa
Vira o juízo da gente
Mas não seja um vacilão
Pra não parar na prisão
Que a boca lá é quente!

 

Homem junto com mulher
É sempre uma tentação
Nem Deus do céu evitou
A cobra entrar em ação
Tá nas sagradas escrituras
Que todas as nossas amarguras
São culpa de Eva e Adão!

 

Encerrando esses versos
Quero pedir permissão
Pra ir embora ligeiro
Q’eu não posso beber não
Já tá me dando vontade
Tenham santa piedade
Valei-me, meu São João!

 

"Tem tanta fogueira/Tem tanto balão/Tem tanta brincadeira/Todo mundo no terreiro faz adivinhação/...

POESIA/CORDEL – A SOGRA QUE ENGANOU O DIABO. – De Leoandor Gomes de Barros(*)

 

 

 

A SOGRA ENGANANDO O DIABO

 

Pensem numa mulher sabida e braba...

 


 


Dizem, não sei se é ditado,
Que ao diabo ninguém logra;
Porém vou contar o caso
Que se deu com minha sogra.
As testemunhas são eu,
Meu sogro, que já morreu,
E a velha, que é falecida.
Esse caso foi passado
Na rua do Pé Quebrado
Da vila Corpo Sem Vida.

Chamava-se Quebra-Quengo
A mãe de minha mulher,
Que se chamava Aluada
Da Silva Quebra-Colher,
Filha do Zé Cabeludo.
Irmã de Vítor Cascudo
E de Marcelino Brabo,
Pai de Corisco Estupor;
Mas ouça agora o senhor
Que fez a velha ao diabo.

Minha sogra era uma velha
Bem carola e rezadeira,
Tinha seu quengo lixado,
Era audaz e feiticeira;
Para ela tudo era tolo,
Porque ela dava bolo
No tipo mais estradeiro.
Era assim o seu serviço:
Ela virava o feitiço
Por cima do feiticeiro!

Disse o demo: — Quebra-Quengo,
Qual é a tua virtude?
Dizem que és azucrinada
E que a ti ninguém ilude?
Disse a velha: — Inda mais esta!
Você parece que é besta!
Que tem você c’o que faço?
Disse ele: — Tudo desmancho,
Nem Santo Antônio com gancho
Te livra hoje do meu laço!

Ela indagou: — Quem és tu?
Respondeu: — Sou o demônio,
Nem me espanto com milagre,
Nem com reza a Santo Antônio!
Pretendo entrar no teu couro!
E nisto ouviu-se um estouro!
Gritou a velha: — Jesus!
Ligeira se ajoelhou
E, depois, se persignou
E rezou o Credo em cruz!

Nisto, o diabo fugiu.
E, quando a velha se ergueu,
Ele chegou de mansinho,
Dizendo logo: — Sou eu!
Agora sou teu amigo
Quero andar junto contigo,
Mostrar-te que sou fiel.
Minha carta, queres ver?
A velha pediu pra ler
E apossou-se do papel.

— Dê-me isto! grita o diabo,
Em tom de quem sofre agravo.
Diz a velha: — Não dou mais!
Tu, agora, és o meu escravo!
Disse o diabo: — Danada!
Meteu-me numa quengada!
Sou agora escravo dela!
E disse com humildade:
— Dê-me a minha liberdade,
Que esticarei a canela!

Disse a velha: — Pé de pato,
Farás o que te mandar?
Respondeu: — Pois sim, senhora,
Pode me determinar,
Porque estou no seu cabresto
Carregarei água em cesto,
Transformarei terra em massa,
Que para isso tenho estudo;
Afinal, eu farei tudo
Que a senhora disser — faça!

Disse a velha: — Vá na igreja,
Traga a imagem de Jesus.
Respondeu: — Posso trazê-la,
Mas ela vem sem a cruz,
Porque desta tenho medo!
Disse a velha: — Volte cedo!
Ele seguiu a viagem
E ao sacristão iludiu:
Uma estampa lhe pediu
Que só tivesse uma imagem.

A velha, então, conheceu
Do cão o quengo moderno,
E, receando que um dia
A levasse para o inferno,
Para algum canto o mandou
E em sua ausência traçou
Com giz uma cruz na porta.
Voltou o cão sem demora,
Viu a cruz, ficou de fora,
Gritando com a cara torta.

Gritou o cão no terreiro:
— Aqui não posso passar!
Venha me dar minha carta,
Quero pro inferno voltar!
Disse a velha que não dava,
Mas ele continuava
A rinchar como uma besta.
— Pois fecha os olhos! ela diz.
Ele fechou e, com giz,
Fez-lhe outra cruz bem na testa!

Aí entregou-lhe a carta
E o demo pôs-se na estrada,
Dizendo com seus botões:
— Não quero mais caçoada
Com velha que seja sogra,
Porque ela sempre nos logra!
Foi, assim, a murmurar.
Quando no inferno chegou,
O maioral lhe gritou:
— Aqui não podes entrar!

— Então, já não me conhece?
Perguntou ao maioral.
— Conheço, porém, aqui
Não entras com tal sinal:
Estás com uma cruz na testa!
Disse ele: — Que história é esta?
Que é que estás aí dizendo?
Mirou-se dum espelho à luz:
Quando distinguiu a cruz,
Saiu danado, correndo!

E, na carreira em que ia,
Precipitou-se no abismo,
Perdeu o ser diabólico,
Virou-se no caiporismo,
Pela terra se espalhou,
Em todo lugar se achou,
Ao caipora encaiporando,
Embaraçando seus passos
E com traiçoeiros laços
As sogras auxiliando…

Deste fato as testemunhas
Já disse todas quais são.
Agora, quer o senhor
Saber se é exato ou não?
Invoque no espiritismo
Ou pergunte ao caiporismo,
Este que sempre nos logra,
Se sua origem não veio
Do diabo imundo e feio
E do quengo duma sogra!

 

Autor: Leandro Gomes de Barros

 

Fonte: postado originalmento no bestafubana

POESIA/CORDEL – OU É “OITO OU OITENTA” – Por João Roberto Maciel Aquino.

OITO OU OITENTA

 

Já tem bebum pra danar

Lotando o bar de Valdinho

E tá faltando papudinho

Nas palestras do AA.

Sertão seco pra danar

E tanta seca no sul.

Tanto pé de mulungu

No caminho de Jenipapo,

E nenhum pé de jenipapo

No caminho de Mulungu.

 

Pouca batata de imbu

E tanto doce pra fazer.

Só tem cana pra moer

E falta mel de urucu.

Tanta grade de Pitú

Cada vez mais cachaceiro.

Mixaria de dinheiro

Gasta com educação

Quanto político ladrão

Quanto eleitor trapaceiro.

 

Só vi pé de marmeleiro

Quando fui pra Maniçoba.

Só se vê pé de algaroba

Quem vai lá pra Cajueiro.

Tanta rês no tabuleiro

E carro de boi se acabando

A buraqueira é sobrando

Na estrada de Mutuca

Falta peixe no Ipojuca

E o preço da carne aumentando.

 

A vergonha se acabando

E crescendo a corrupção.

Tanto frio em Poção

E aqui a terra rachando.

Suape patrocinando

Emprego pra peãozada.

E, sem mão de obra treinada

Acaba-se a animação

Apodrecendo o feijão

Que Deus deu de mão beijada.

 

Pena máxima aplicada

A quem mata um gavião.

E quem assassina um cristão

Às vezes não sofre nada.

Preso em casa gradeada

Fica o povão ordeiro.

Enquanto que o bandoleiro

Em minoria, na praça,

Pinta, borda e ainda acha graça

Do cidadão brasileiro.

 

Toneladas de dinheiro

Gastas em obra inacabada.

E verbas desperdiçadas

Com “sem terra” e com grileiro.

Segurança em desespero,

Saúde indo pro caixão,

O que sobra pro mensalão

Falta pro judiciário,

Muito para salafrário

Nada para educação.

 

Esse nosso Brasilzão

É difícil de entender

Uns sem nada pra comer

Outros só no camarão

Uísque, champagne, salmão,

Mar, iate, caviar,

Uns tentando escapar

Outros explorando sem dó

E de pior a pior

Não sei onde vai parar.

 

João Roberto Maciel de Aquino

PERSONALIDADES/Meu Nordeste é isso – AUGUSTO DOS ANJOS – Colaboração de Renato Didier Aquino.

Augusto dos Anjos nasceu no Engenho Pau d’Arco, atualmente no município de Sapé, Estado da Paraíba. Foi educado nas primeiras letras pelo pai e estudou no Liceu Paraibano, onde viria a ser professor em 1908. Precoce poeta brasileiro, compôs os primeiros versos aos sete anos de idade.
Em 1903, ingressou no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, bacharelando-se em 1907. Em 1910 casa-se com Ester Fialho. Seu contato com a leitura, influenciaria muito na construção de sua dialética poética e visão de mundo.
Com a obra de Herbert Spencer, teria aprendido a incapacidade de se conhecer a essência das coisas e compreendido a evolução da natureza e da humanidade. De Ernst Haeckel, teria absorvido o conceito da monera como princípio da vida, e de que a morte e a vida são um puro fato químico. Arthur Schopenhauer o teria inspirado a perceber que o aniquilamento da vontade própria seria a única saída para o ser humano. E da Bíblia Sagrada ao qual, também, não contestava sua essência espiritualística, usando-a para contrapor, de forma poeticamente agressiva, os pensamentos remanescentes, em principal os ideais iluministas/materialistas que, endeusando-se, se emergiam na sua época.
Essa filosofia, fora do contexto europeu em que nascera, para Augusto dos Anjos seria a demonstração da realidade que via ao seu redor, com a crise de um modo de produção pré-materialista, proprietários falindo e ex-escravos na miséria. O mundo seria representado por ele, então, como repleto dessa tragédia, cada ser vivenciando-a no nascimento e na morte.
Dedicou-se ao magistério, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde foi professor em vários estabelecimentos de ensino. Faleceu em 12 de novembro de 1914, às 4 horas da madrugada, aos 30 anos, em Leopoldina, Minas Gerais, onde era diretor de um grupo escolar. A causa de sua morte foi a pneumonia.
Durante sua vida, publicou vários poemas em periódicos, o primeiro, Saudade, em 1900. Em 1912, publicou seu livro único de poemas –  Eu. Após sua morte, seu amigo Órris Soares organizaria uma edição chamada Eu e Outras Poesias, incluindo poemas até então não publicados pelo autor.

Curiosidades


Um personagem constante em seus poemas é um pé de tamarindo que ainda hoje existe no Engenho Pau d’Arco.

Seu amigo Órris Soares contou que Augusto dos Anjos costumava compor “de cabeça”, enquanto gesticulava e pronunciava os versos de forma excêntrica, e só depois transcrevia o poema para o papel.
É patrono da cadeira número 1 da Academia Paraibana de Letras, que teve como fundador o jurista e ensaísta José Flósculo da Nóbrega e como primeiro ocupante o seu biógrafo Humberto Nóbrega, sendo ocupada, atualmente, por José Neumanne Pinto.

20 de Abril, 127 anos de sua Morte.

 

Versos Íntimos

Augusto dos Anjos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

 

 

Fonte: wikipédia.

 

 

Maravilhosos Versos de João Paraibano
Sobre o tema da estiagem sertaneja, João Paraibano disse:

Vi o fantasma da seca
Ser transportado numa rede
Vi o açude secando
Com três rachões na parede
E as abelhas no velório
Da flor que morreu de sede…

RENATO DIDIER AQUINO

POESIA – Fantasias – De Djanira Silva(*)

FANTASIAS

 

 

 

Ouvir ao longe o apitar do trem
Levando meu amor num vai e vem

Nas nuvens de saudades passageiras

Que andam pelos céus, sutis ligeiras

São como o sol que ao apagar estrelas

Chama o poeta à noite para vê-las

E transformadas nos mais belos temas

Tornam-se musas de sutis poemas

E assim o vate elabora o verso

Com todas as belezas do universo

Ensinando a amar com os passarinhos

Que na paz e silêncio dos seus ninhos

Acordam as manhãs com a cantoria

Bendizendo o prazer e a alegria

Da liberdade de viver sem mágoas

Feito rios no curso de suas águas

E ser dono de tudo sem ter medo

Fazendo o seu mundo no arvoredo

Tal qual a borboleta que insemina

A rosa branca leve e cristalina

E vai pelo jardim sempre à procura

Do mel da vida, natural doçura

Para todas as flores fecundar

E ver toda semente germinar

Trabalho executado dia a dia

Em festa rica de policromia

Da natureza eu queria a glória

De fazer parte de tão bela história

Eu queria viver a vida assim

Jogada qual semente num jardim

Onde a maldade nunca mais se visse

E o ser humano não se destruísse

Nem destruísse o mundo que é seu lar

Para mais tarde ter que lamentar

Pelos sonhos perdidos e talvez

Não poder apagar o mal que fez

Bem que eu queria ser abelha ou flor

Fazer uma ciranda só de amor

Morar nas nuvens e de perto vê-las

Transformadas em poeira de estrelas

Plantar um girassol no meu quintal

Vê-lo crescer garboso, vertical

Curvado apenas ao olhar do sol

Movido como um leme ou um farol

Queria conservar minhas lembranças

Todos os sonhos e as esperanças

Transformar a tristeza em alegria

Ver surgir as manhãs a cada dia

Passarinhos cantando nas mangueiras

Sabiás festejando as pitangueiras

Queria renascer no meu jardim

Ter uma borboleta só pra mim

por toda parte ver o meu sorriso

Ir brincar de esconder no paraíso

Desfrutar da maçã sem ser pecado

Unir-me para sempre ao ser amado

Ouvir lá longe o apitar do trem

Por séculos e séculos, amém.

(*) DJANIRA SILVA é pesqueirense e membro da APLA – Academira Pesqueirense de Letras e Artes. Fonte – blogdjanirasilva

NOTA DO EDITOR – Para\ acompanhar essa linda poesia, nada como a música. Escolhemos o áudio da linda valsa ABISMO DE ROSAS – co0m o grande Dilermando Reis.

 

SONETO: A FOTOGRAFIA – Por Robson Maciel Aquino.

A fotografia (soneto)

Robson Aquino

Um momento pra sempre registrado
Nunca mais deixará de existir
A história que para de seguir
O instante sendo imortalizado

O sorriso jamais será zangado
A criança mamando eternamente
Um abraço infinito de contente
Com dois corpos estáticos, entrelaçados

Revestido de imobilidade
O efêmero, agora, intemporal
A lembrança além do pensamento

Tudo físico, sendo tudo escultural
Pois o clique fez congelar o tempo
Incontestável registro da verdade.

POESIA/CORDEL – O SUSTO QUE CHOROSA DEU EM JOÃO BRAÚNA – Por João Roberto Maciel Aquino.

CHOROSA X BRAÚNA

A cena: "Chorosa" arrepiou o João Braúna



João Medeiros ou João Braúna

Como é conhecido mais,

Passou dos 80 anos

Deixou as farras pra trás,

Mas foi cabra cachaceiro,

Dançador, raparigueiro,

No tempo que era rapaz.

Forró no clube, na rua,

Sitio, fazenda, arruado,

Onde tivesse uma festa

Tava ele lá animado

Brilhantina de primeira,

Um sapato lavandeira,

Terno de linho engomado.

Em festa de padroeira,

Carnaval, arrasta pé,

Reisado, coco de roda,

Vaquejada, cabaré,

Teve furdunço e cachaça,

Tava ele lá, dando a graça,

Era um boêmio de fé.

Certa vez, teve uma festa

Lá pras bandas do Pagão,

Ele arrumou-se pra ir,

Chamou Ventura, Tião,

Bebé, os filhos de Totô,

Quando o forró começou.

Já estavam lá no salão.

A festa foi afracando,

Ele cismou de ir embora.

Ninguém quis voltar com ele,

Mas João não teve demora,

Tomou mais uma brejeira,

Botou na cinta a peixeira,

E danou-se de estrada a fora.

Era noite de verão.

Sanharó enluarado.

Lá vem ele assobiando,

Mas ficou encafifado

Quando avistou um mistério

No muro do cemitério

Um vulto branco encostado.

Preparou-se pra correr

Mas mudou de opinião

Quando lembrou de um desastre

D’um ônibus e um caminhão

Uma cena de horror

Bem onde ele passou

Não tinha outra solução:

O jeito era ir em frente

E enfrentar a assombração.

Arregaçou bem a calça,

Botou a faca na mão,

Quando começou correr,

Só viu a coisa crescer

E vir em sua direção.

Quando emparelhou com o vulto

Escutou a voz fininha

Dizendo: – Dá-me socorro!…

Credo em cruz!… Salve rainha!...

Ficou teso, sem ação,

A faca caiu da mão

Mijou a calça todinha.

Era Chorosa, um maluco,

presepeiro inveterado

Que gargalhando falou:

Eita João frouxo danado!

O sangue voltou-lhe às veias

João soltou-lhe a mão na “urêia”

Que o doido caiu sentado.

Foi um tabefe tão grande

Que nunca mais ele ouviu bem.

Braúna não foi mais festas

Pra voltar sem ter com quem.

E o Chorosa, coitado

Morreu velho, amalucado,

E não fez mais medo a ninguém.

Hoje a gente dá gaitada

Toda vez que ele conta

Mas ninguém quer enfrentar

Empreitada dessa monta

Pode ser cabra arrochado,

Só não sai de lá cagado,

Se não tiver merda pronta.

João Roberto Maciel de Aquino

POESIA: …A Velhice me Santificou – Por Djanira Silva(*)

SANTIFICÃÇÃO.

Não me arrependo de haver pecado
Menos ainda de haver mentido
Todo pecado quando é perdoado
É como um lutador fraco e vencido

Não me recordo de haver chorado
Menos ainda de haver sofrido
O meu grande prazer foi ter amado
Todo pecado por mim cometido

Nunca fui pecadora arrependida
E vou partir contente desta vida
Dela nenhum remorso me ficou

Só me entristece, devo confessar
É já não mais ser tempo de pecar
Pois a velhice me santificou.

(*) Fonte: DJANIRASILVA – Membro da Academia Pesqueirense de Letras e Artes.

DEDICATÓRIA: O OABELHUDO dedica essa poesia a dois expoentes da nossa sociedade: Lídio Maciel da Silveira pela passagem dos seus 83 anos e ao estimado amigo Leonan Tenório de Brito, pela passagem dos seus 79 anos. Ambos são notáveis cidadãos dedicados e estimados por todos os sanharoenses. No caso de Leonan, ainda tem um adicional de Mimoso e Pesqueira de onde é oriundo.

A POESIA EM TOM DE LAMENTO – Por Robson Maciel Aquino.

Lamento por um mundo melhor

Robson Aquino

Imagine o mundo sendo um plano
Sem barreiras, fronteiras, nem guaritas
Um sistema de compras que permita
Circular os produtos livremente
O acesso ser fácil e permanente
A moeda de troca, uma só
Se perceba vivendo em Sanharó
Tão incluso como um americano
Ver inglês com sotaque de baiano
Arrastando o chinelo no forró

Idealize ninguém passando fome
E os campos colhendo igualdade
Toda mesa ofertar dignidade
Todo teto acolher com gratidão
O direito alcançar toda nação
E o mundo cobrar seu cumprimento
Apagar de uma vez o sofrimento
Espalhando sorriso pela terra
E a paz anulando qualquer guerra
Alimenta esse meu contentamento

Mais além que o sonho de John Lennon
Muito mais que pensou Gandhi e Guevara
Ter um mundo melhor, assim, tomara
Que um dia pudesse acontecer
Cada noite ou depois do amanhecer
A certeza que o povo evoluiu
Natureza das matas do Brasil
Preservada a savana africana
Fauna, flora, floresta americana
Tudo visto da forma mais gentil

Abolir para sempre o preconceito
Sem preciso a lei e as consequências
Tudo sendo questão de consciência
E o desejo de ser igual em tudo
Sem as armas não se tem o escudo
Sem a cor, não há discriminação
Liberdade para a religião
E também para quem nada acredita
Uma vida assim é tão bonita
Que só cabe na imaginação

Cantar rock em corrida de vaqueiro
Aboiar no Triunfo de Paris
Um cordel que um dia, lembro, fiz
Recitá-lo em plena Times Square
Ver o homem ao lado da mulher
A política servindo ao cidadão
Sem o roubo, sem pena nem ladrão
As cadeias sem grande utilidade
A mentira perdendo pra verdade
E o ódio perdido de paixão

As crianças brincando livremente
Sem os pais e seus velhos mandamentos
Soterrado em blocos de cimento
O desejo de um mundo segregado
Sem espaço para o que foi negado
Resta paz, harmonia e muito amor
Cada mão segurar a sua flor
E ofertá-la de forma desprendida
Se pro mundo não for uma saída
É a porta pra esse pensador

Se eu penso e você me acompanha
Somos dois a pensar: mundo melhor
Dois olhares fitando para um só
Objetivo por muitos desprezado
E se mais, muito mais, tiverem olhado
Mesmo sem trabalhar seu pensamento
Haverá no pensar um ordenamento
De ideias, vontades e razão
Nós seremos os primeiros cidadãos
A cruzar as fronteiras do lamento.