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POEMA: AS ROSAS – Por Sebastião Gomes Fernandes(*)

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Queixume as rosas

 

 

Ah! Se as rosas falassem!

Queixume as rosas

Na esperança de um dia ouvir algum sussurro!…

 

Ah! Mas as rosas não falam!

Desvaneço-me, fico arredio.

Busco você!

Você não me houve.

 

Ou não quer me ouvir… Deixa-me chulo,

Fossilizado, sem animo!

Mas meu amor é mais forte!

Meus sentimentos mais puros!…

 

Não me deixam à revelia!

Alimentam-me a vontade e o desejo de te amar!…

Fazer-te feliz e sentir-me o homem mais feliz do mundo!!!

 

Vibrar com toda a energia de um

Vulcão em chamas!

Eletrizar teu coração com todo o vigor

Potencializado de um adolescente!

 

Que busca aplacar a exuberância

E efervescência sensual

Que lhe é peculiar…

E que alimenta o amor em chamas!

 

Mas você deixa passar esse amor por entre

Os dedos, como se fosse água!…

Ficas inerte, sem ação,

Deixando esse amor a dimanar!

 

Mas se algum dia a chama que

Acalenta esse amor voltar a vibrar

Serei eu o privilegiado!

Terei eu a graça de agradecer o dom da vida!

 

Sentir que valeu a pena viver!

Que você fez e fará parte

Na minha caminhada por este Universo

Infinito! Cheio de enigma e de mistério!

 

Mesmo assim vibro à espera

De que ainda tenho a chance de ouvir

Tua voz. A acalentar-me como

Se fosse verdadeiramente amado!

 

Sei que nosso amor não foi

Apenas um sonho que passou!

Foi mais que isso! Basta abolirmos As arestas…

 

Desperta deste sonho letárgico

Que te consome e que te maltrata

E deixa teu parceiro as tontas!

O amor por ti é mais forte e capaz de

Fazer as rosas falarem!!!

 

De tirar-te deste sonho profundo!

Que só golpeia quem tanto te ama.

Acorda, levanta-te para a vida!

Para o mundo que te quer Vibrante e feliz!

 

Veja que o mundo nos presenteia

Agradáveis e fantásticas oportunidades

Para nos proporcionar prazer.

Mas por outro lado nos cobra fidelidade a

Nossos princípios e sentimentos!

 

Queixume às rosas,

No entanto sei que as rosas não falam!

Mesmo que as rosas não falem

Deixo aqui o meu recado!

Desperte desse sonho letárgico,

Procure viver o hoje com todo o amor

Que seja possível!

Não me deixe tão só!

                Encoste sua Cabecinha em meu ombro,

                  Sinta-se feliz E faça-me feliz!

 

Sebastião Gomes Fernandes de Jaquetão

 

Pesqueira – PE Fevereiro/13

(*) Autor – Sebastião Gomes Fernandes  –  Membro e presidente  da APLA –  Academia Pesqueirense de Letras e Artes.

Crônica: VELHOS CARNAVAIS… – Por Walter Jorge de Freitas (*)

PESQUEIRA E OS VELHOS CARNAVAIS

BLOCO JOFREITAS EM FOLIA no carnaval de 1960...

BLOCO JOFREITAS EM FOLIA no carnaval de 1960…

 

 

 

Carnaval de 1980 no Clube dos 50. (Em destaque Nilton e Lêda Rosa...

Carnaval de 1980 no Clube dos 50. (Em destaque Nilton e Lêda Rosa, o autor Walter e outros amigos…

Podem me chamar de saudosista que eu não me zango. Se quiserem, digam que estou ultrapassado, sou do tempo do ronca que não estou nem aí.

Agora, quem desejar me deixar de cara fechada é só me oferecer um CD pirata ou me convidar para um lugar onde só se ouve música eletrônica ou aquelas coisas que os baianos, por não acharem mais graça, estão mandando para os alienados curtirem.

Para justificar o meu gosto musical, faço questão de revelar que já participei de mais de cinquenta carnavais. Que as primeiras músicas carnavalescas que escutei, ou pelo menos, são as que ficaram registradas na minha memória chamam-se O Teu Lencinho e Quem Sabe, Sabe, grandes sucessos dos anos 50.

Bloco Amantas da Lua em 1980.

A trilha musical que mantenho arquivada na velha cuca pode não ser a melhor, mas garanto que não faz vergonha a ninguém. Saibam que dancei, fiz o passo e namorei ao som de marchas, marchinhas e frevos cantados e orquestrados que marcaram época nos tempos em que os cantores e orquestras além de ótimos, eram mais caprichosos na escolha de seus repertórios.

Para não ser cansativo, citarei apenas algumas de cada gênero.

FREVOS DE RUA: Vassourinhas, Mordido, Lágrimas de Folião, Zé Carioca no Frevo, Corisco, Fogão e Relembrando o Norte;

FREVOS-CANÇÃO: Casinha Pequenina, Você Está Sozinha, O Tocador de Trombone, É de Fazer Chorar, Boneca, Cabelos Brancos, Sonhei Que Estava em Pernambuco, Ingratidão, É de Amargar, Mandarim, Pierrot, e outros.

Acompanhando o já famoso Lira da Tarde em 1990. (Walter é um dos homenageados de 2013)

Acompanhando o já famoso Lira da Tarde em 1990. (Walter é um dos homenageados de 2013)

MARCHAS: Saca-Rolha, Jardineira, As Pastorinhas, Se a Canoa Não Virar, A Cabeleira do Zezé, Noite dos Mascarados e Máscara Negra.

FREVOS DE BLOCO: Evocação, Valores do Passado, Você Gostou de Mim, Madeira Que Cupim Não Roi, Último Regresso, Recordar é Viver.

E os cantores? Aí é covardia. Não dá para esquecer as marchas e frevos interpretados por Carlos Galhardo, Nelson Gonçalves, Expedito Baracho, Emilinha Borba, Coral do Bloco da Saudade, Zé e Zilda, Jackson do Pandeiro, Jorge Goulart, Ângela Maria, Blecaute, Coral Edgard Moraes, Claudionor Germano, sem falar nas orquestras Tabajara, RCA, de Nelson Ferreira, Duda e Zé Meneses.

Walter: o passista no carnaval de 1993 no anexo do Hotel Independente.

Walter: o passista no carnaval de 1993 no anexo do Hotel Independente.

Os mais jovens não sabem o que perderam por não terem desfrutado do privilégio de brincar um Carnaval ao som de músicas excelentes que ficaram conhecidas por terem sido tocadas nos serviços de alto-falantes e nas emissoras de rádio, principais meios de divulgação existentes na época.

Aí está uma das raras vantagens de ser coroa, podem acreditar…

Walter Jorge Freitas

 

Pesqueira, 05 de fevereiro de 2013.

 – Autor: Walter Jorge de Freitas – Carnavalesco, Comerciante, professor, escritor, cronista e compositor.

(A DIFÍCIL CONVIVÊNCIA) – A POESIA DE SEBASTIÃO GOMES FERNANDES.*

A difícil convivência!

 

“Os casais alcançariam à paz que tanto sonharam / A família poderia alcançar maior estabilidade /O lar abençoado e mais acolhedor!”

 

A vida foi concebida

Para ser vivida em harmonia e fraternidade.

Mas nós, homens e mulheres,

Deixamos passar tamanha oportunidade.

Caímos então no ostracismo e no desvario!

 

E aí nos fechamos diante dos problemas,

Enchemo-nos de medo.

Deixamos de enfrentá-los

Com a devida força e determinação.

 

É o ser humano criativo.

Com vontade e determinação,

Em favor de si mesmo… Melhoraria,

Passaria a viver em função do bem,

E estaria contribuindo para melhorar o mundo!

 

A vida ficaria mais aprazível, mais dinâmica.

As diferenças seriam dirimidas ou atenuadas!

O mundo (Planeta Terra) teria mais brilho, mais harmonia.

 

A convivência tornar-se-ia mais afetiva e harmônica!

Homens e mulheres poderiam

Melhorar sua qualidade de vida!

Os casais alcançariam à paz que tanto sonharam,

A família poderia alcançar maior estabilidade.

O lar abençoado e mais acolhedor!…

As flores que encantam e perfumam os espíritos,

Também os alimenta e favorece o seu crescimento…

Abrindo-lhe as portas para ingresso a caminho da paz,

A caminho do nirvana!

 

Os desafios continuam,

É cogente buscar motivos para tornar a convivência

Mais parceira e mais humana.

Solucionados tais desafios,

Será possível um bom relacionamento,

E aí a vida passaria a ser um mar de rosas

A perfumar e embelezar o cotidiano!

Cabe sim a cada um assumir seu papel!

Não deixar que picuinhas venham intervir

Em seus relacionamentos!

 

Veja que para se chegar a um estado de paz,

Muito tem que se fazer para de fato conquistá-la!

Muita compreensão, muita disponibilidade e muito amor!

Amor este,

O maior desafio!

Pois não deve ser molestado, desvirtuado!

Se soubermos fazer bom uso deste sentimento,

Estaremos construindo uma boa convivência.

Como a primavera,

Responsável por fazer o mundo

E a nossa vida mais florida!

Mais alegre e feliz!

 

Se pudermos ser felizes, poderemos acabar,

Com a difícil convivência!…

Poderemos amar de verdade!

 

Pesqueira – Novembro de 2012.

 

*Autor: Sebastião Gomes Fernandes. Poeta, Escritor, Presidente d APLA  –  Academia Pesqueirense de Letras e Artes.

 

 

Crônica/Homenagem : Uma Saudade. “A minha querida Carmo Ribas…” – Por Ducarmo Leite Calado.

UMA SAUDADE

 

“A saudade, a enorme saudade da grande amiga, a minha querida Carmo Ribas, a maior e mais importante de todas, somente Deus sabe.”

 

Se tivesse que escrever minha autobiografia, pinçando fatos que mais me influenciaram para o abrir d’olhos, para a descoberta do mundo, sem dúvida, a família Ribas seria colocada com grande destaque. O espírito de união e respeito, entre os que dela faziam parte, muito me impressionaram. Aquele ambiente harmonioso me proporciona um enorme bem estar e me orgulhava, pelo simples fato de me sentir a ele pertencente, como amiga. As marcas desse convívio são muito importantes para mim. Vivi emoções, aprendi, experimentei a paz e fui feliz.

A saudade, a enorme saudade da grande amiga, a minha querida Carmo Ribas, a maior e mais importante de todas, somente Deus sabe. São passados anos de sua ida para outra Dimensão, mas sinto-a perto, vejo-a com seu jeito tímido, suas atitudes simples, amáveis, compreensíveis para com todos. Surpreendo-me com um sentimento muito intenso de que ela vive. Sim, ela vive em meu coração, pois nele o espaço que lhe pertence é muito grande.

Como ela, ninguém me entendeu tanto. Ninguém compartilhou tanto os meus momentos, Ninguém foi tão espontâneo e verdadeiro. Quando íamos estudar, quando íamos ensinar, quando íamos à praça – saudosa praça – quando íamos à Igreja, ao Clube, às festas, aos bares, às serestas, enfim, quando juntas estávamos, o que ocorria com grande frequência, eu me sentia na melhor das companhias que já tive. Confiança, paz, alegria, segurança, aprendizado eram os ingredientes da nossa amizade.
Mais que uma amiga – um ser especial – cujas atitudes sempre entendi, como sentia as minhas entendidas. Gostos, vontades, dúvidas, erros, acertos não necessitavam de explicações: eles se combinavam ou eram, simplesmente, respeitados.

Mesmo que o quisesse, seria impossível apagar estas lembranças. Elas ainda me confortam diante dessa perda tão prematura e absurda. Sinto-me feliz por tê-la conhecido e com ela ter compartilhado a fase mais bonita da minha vida.

Para ela, hoje, com enorme carinho e com muita saudade, quero desejar o que ela própria desejou-me, em carta datada de 12.06.75, quando o destino nos separara, pois havia me mudado para Recife:

Querida Carmo,

“Apesar de tanto silêncio, não te esqueci. Antes de tudo, espero que já estejas acomodada a essa nova VIDA, aceitando-a com aquela coragem que te é peculiar. E, sobretudo, que aches que valeu a pena mudar. Espero, sinceramente, que tudo corresponda exatamente às tuas aspirações”.

Um grande abraço,

DuCarmo Leite Calado. Sanharoense do Sítio das Moças. É professora Universitária.

a) DuCarmo Leite Calado.

HOMENAGEM : HÁ 25 ANOS PARTIA O POETA CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE. *

17 de agosto de 1987 – CIAO!

Morre Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

“E agora José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou”. Carlos Drummond de Andrade

 

Carlos Drummond de Andrade, 84 anos, o maior poeta brasileiro de seu tempo, morreu de insuficiência respiratória. Sua morte não surpreendeu seus amigos mais íntimos, que o viram muito abatido depois da morte de sua filha, doze dias antes. O câncer ósseo levou Maria Julieta e tirou do poeta a vontade de viver.

 

Um homem desiludido com o mundo. Injustamente rigoroso no julgamento da obra que produziu. Sentia descrença e desilusão. Lamentava que as novas gerações não tivessem mais os estímulos intelectuais que havia até os anos 40, 50. “Os tempos estão ruins. É um fenômeno universal, uma espécie de deterioração dos conceitos e do sentimento estético. Em qualquer país do mundo é a mesma porcaria. É a massificação dos meios de comunicação, tudo ficou igual no mundo inteiro”.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902, na mineira cidadezinha de Itabira. Começou a carreira como colaborador do Diário de Minas e, em 1925, fundou A Revista, veículo modernista mineiro. Funcionário público, foi para o Rio em 1934, e tornou-se chefe de gabinete do ministro de Educação Gustavo Capanema. Autor de diversas obras de poesia e prosa, sua obra narra a trajetória de um homem, de uma geração e de um país. Um homem que saiu do interior para a cidade grande. Envolveu-se nos conflitos de seu tempo e se quedou metafísico e retirado diante das coisas do mundo que o aborreceram.

Seus versos transmitem a emoção que sentia no momento em que escrevia, momento que poderia ser um parodoxo do que havia escrito antes. Tratam de temas metafísicos a fatos jornalísticos. Ele foi diametralmente oposto e talvez complementar. O cronista e o poeta. Foi politicamente comprometido, mas nunca aderiu a um partido. Certos poemas são profundamente religiosos, mas não acreditava em Deus. Gostava de ser amado mas abominava a celebridade. Como jornalista, escreveu na Tribuna de Imprensa e durante 15 anos, de 2 de outubro de 1969 até 29 de setembro de 1984, todas as terças, quintas e sábados, foi cronista do Jornal do Brasil. Foram 780 semanas da história do país e do poeta refletidas com agudeza e lirismo em mais de 2 mil e 300 crônicas. Nos deixando entre outras lembranças um poema,rotativo do acontecimento…

“…E é por admitir esta noção de velho, consciente e alegremente, que ele hoje se despede da crônica, sem se despedir do gosto de manejar a palavra escrita, sob outras modalidades, pois escrever é a sua doença vital, já agora sem periodicidade e com suave preguiça. Cede espaço aos mais novos e vai cultiva o seu jardim, pelo menos imaginário. Aos leitores, gratidão, essa palavra-tudo”.

O grande João Nogueira e excelente compositor Paulo César Pinheiro, desenharam essa pérola em sua homenagem…E Agora Drummond,

*Fonte: JB na História

Video/Youtube.

MOMENTOS DE TERNURA : AS POESIAS DE ANGELA LUCENA – Colaboração de João Roberto M Aquino.

ORVALHO

 

 

 

Toca a minha pele
Suave e refrescante
Minhas preciosas fontes
Como córrego já estão…
Entre dor e emoção
Pouco a pouco vão molhando
Eu tristonha apreciando
A beleza infinita…
Uma lembrança bonita
Quando os pássaros em orquestra
Meus pensamentos sequestram…
E levam até você
Como em um bambolê
Eles giram em minha volta.
A alma um suspiro solta
De saudades e solidão…
É o orvalho molhando
Corpo,alma e coração.

Ângela Lucena-Poetisa

 

AMOR

 

É dor gostosa, passageira
É a chama da fogueira
Que incendeia o coração
É o que libera perdão
Mesmo fazendo sofrer
Cegueira que longe ver
A feição do bem amado
É um querer amargurado
É uma busca constante
Estando perto ou distante
Não tem medida exata
É como nó que desata
Para haver cumplicidade
É o que traz felicidade
E ajuda sobreviver
Pra que se possa entender
Que o AMOR é soberano
E sem ele, o ser humano
É incapaz de viver….

 

Ângela Lucena – Poetisa

HOMENAGEM/100 Anos de LUIZ GONZAGA DO NASCIMENTO/Um Homem além do seu tempo. (Final) – Entrevista – Nove Meses antes de partir. – Colaboração de Cláudio Freitas. *

GONZAGÃO: “Eu acho que corri,

corri, corri e acabei parando em casa”

 

 

Januário no Fole de 8 baixos e Santana na zabumba. Seu Luiz tá ali dançando e rindo...

 

Nove meses antes de morrer, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, deixou gravada uma conversa de mais de uma hora com dois repórteres pernambucanos. Vários trechos desse depoimento permaneceram inéditos por longo tempo. Veja a íntegra da entrevista e saiba porque ela não foi publicada antes.

Essa entrevista foi concedida ao jornalista Marcos Cirano e ao fotógrafo Pedro Luiz, num apartamento do bairro de Boa Viagem, Recife, a 17 de outubro de 1988, portanto nove meses e 16 dias antes da morte de Luiz Gonzaga. Originalmente, ela serviu de base para uma reportagem sobre um novo disco do compositor, publicada pelo jornal carioca O Globo. Em maio de 1989, alguns trechos da entrevista também foram publicados pelo Suplemento Cultural do Diário Oficial de Pernambuco. Mas, a íntegra do depoimento permaneceu inédita por muito tempo.

A entrevista de Gonzagão é comovente. Em vários momentos, ele chora, ao reconhecer que já não tem saúde para ficar de pé sem o auxílio de duas muletas. Faz um balanço da sua carreira artística. Canta trechos de músicas do seu novo disco. Critica o duro jogo de interesses do mercado fonográfico. E decide assumir, através da imprensa, o romance que manteve em segredo por 13 anos com sua última mulher, Edelzuíta Rabelo, a dona do apartamento onde a entrevista aconteceu: “Pode botar aí no jornal que o charme da minha vida agora é Edelzuíta!”

A pedido de Edelzuíta Rabelo, que queria evitar atritos com a primeira esposa de Gonzagão, Helena das Neves (ainda viva na época), a entrevista não foi publicada na íntegra. Fato que só aconteceria mais tarde, através do Pernambuco de AZ, após a morte de Helena. Com a palavra, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião:

Marcos Cirano – São 50 anos de carreira. E aí?

Luiz Gonzaga – Eu acho que corri, corri, corri e acabei parando em casa.

MC – O senhor ta trabalhando um novo disco, né?

LG – É, todo mundo trabalha. Esse disco tem, realmente, uma grande importância para mim. Porque, mesmo que eu não quisesse parar, eu agora to condenando a isso, né, embora eu tenha a intenção de fazer tudo pra continuar. Porque, quando a gente cria, a gente tem obrigação de fazer cultura pra preservar as tradições, pra contar sua própria história. Porque, senão, ninguém vai querer contar, com a mesma empolgação, com o mesmo amor, com a mesma garra que eu sempre dediquei, de uma maneira completamente diferente, procurando sempre as estradas, sempre os caminhos em busca das cidades onde eu tinha certeza que existia uma colônia forte de cabeças-chatas esperando por mim. Então, aí eu instalei, instalava minhas tribunas. Estivesse onde estivesse: no noroeste, no oeste, no sul, em São Paulo, no sul do sul… Onde eu ia, encontrava as colônias nordestinas. Saudosas colônias sem administração, sem mando, furando novas…vamos dizer assim, procurando se apossar de um pedacinho de terra, um meio de vida melhor… E eu cantava pra eles, lá onde estivesses, as canções mais bonitas, as mais fortes, as mais tristes, que fazia todo mundo chorar… meu objetivo não era esse, mas acontecia. Às vezes, eles choravam com uma coisa alegre que eu cantasse. (Gonzagão tenta, mas não consegue prender o choro)

MC – Nesses 50 anos de carreira, o senhor fez tudo o que teve vontade? Na música e nas andanças.

LG – Só não fiz porque, naturalmente, meu talento não dava. Mas, enquanto meus companheiros achavam que as minhas idéias eram boas, a gente fazia juntos. Fora aquelas que eles criavam para mim… Humberto Teixeira, Zé Dantas. Antes deles, Miguel de Lima. Depois, Zé Marcolino, aqui do sertão, que morreu recentemente em desastre de automóvel… Então, assim, eu fiz, modéstia à parte, um grande acervo que ainda não está exposto, mas está em Exu, esperando a oportunidade de ser exposto no Museu Luiz Gonzaga.

 

Museu Gonzagão em Exu-PE. Um grande acervo do rei do baião...

 

MC – O que está faltando para esse acervo ficar exposto?

LG – Ta faltando administração, eu sou péssimo administrador. Material tem até sobrando, que dá até pra três museus. Mas, museu, no Brasil, parece palavrão… A minha intenção é de ajudar a imprensa e os pesquisadores que, quando precisarem escrever algo sobre Luiz Gonzaga, sobre Humberto Teixeira, Zé Dantas, meus outros excelentes companheiros como Onildo Almeida, Janduhy Filizola, ambos de Caruaru, então vocês vão ter condições de pesquisar capas de LPs, LPs, reportagens… Eu quero oferecer isso para você que tá me procurando aqui hoje e que é jovem, daqui há algum tempo você vai a Exu e lá você encontra tudo, todo acervo do Rei do Baião, fácil, fácil, palpável, e escreve o que você quiser. Não sobre mim, mas sobre o Nordeste, sobre as músicas que eu criei.

Gonzagão para um instante, depois prossegue:

Descobri o Nordeste musical, musicalmente falando. Não foi o Nordeste, foi o Sertão. O Nordeste sempre teve os seus carnavais, suas festas tradicionais para exibir as suas canções. Mas, eu esbarrava sempre, no Rio de Janeiro, para vencer, contra tudo e era barreira quase invencível. De vez em quando, aparecia um seresteiro, como Augusto Calheiros e mais alguns, que, através de suas vozes, eles contavam as coisas engraçadas do Nordeste, como Manezinho Araújo.

Mas, não com a boa intenção que eu me apresentava, em cima de caminhão, levando o patrocinador nas costas, fazendo espetáculos nas praças públicas, improvisando espetáculos em determinadas praças…

Agora, tudo isso por quê? Porque eu não me achava bastante suficiente para concorrer com ninguém. Eu tinha que levar minha música diretamente àqueles que ignoravam totalmente o Nordeste. É claro que os colegas compareciam e coloriam o ambiente. Mas, o objetivo era cantar para os barrigas-verdes, os gaúchos, os caipiras, os cariocas. E conseguia, quase sempre, patrocinadores. Então, eu tinha liberdade. E assim, no meio desse público, eu era acolhido de surpresa até…

Ali no meio desse público tinha Caetano, tinha Gil, tinha muitos cantores doidos por aí, famosos hoje, que já mudaram de roupa várias vezes, hoje são até roqueiros, mas mesmo como roqueiros continuam afirmando que Luiz Gonzaga o influenciou, o influenciaram. E eu tava dando uma de Deus, escrevendo certo por linhas tortas. Totalmente despreparado mas, quando eu soltava alguma coisa, eles sentiam que tinha um sabor tão especial que não dá nem pra se lembrar qual a sua origem. E eu levava as coisas que aprendi na minha infância, com meu pai, as piadas do velho Januário, que meu pai era muito espirituoso. E fui me tornando um artista assim, espontâneo. Atingi praticamente todas as camadas sociais, cassinos etc., mas nunca me empolguei pela a cidade grande e a saudade do Nordeste sempre foi eterna. Hoje, graças a Deus, bem sucedido, menos com a saúde, continuo cantando com graça o meu forró. Como, por exemplo (recita):

Tô doidim pra me deitar naquela cama
To doidim pra me cobrir com teu lençol
Doidim pra te matar de cheiro
Juntar os travesseiros
Soprar o candeeiro e começar nosso forró

Esses versos vão ser gravados agora, são de uma música de João Silva e Luiz Gonzaga, do meu último LP. Nem decorei ainda, porque eu só péssimo decorador até das minhas próprias coisas. É uma mão-de-obra desgraçada! O nome dessa música é Vou te matar de cheiro. Quer dizer, uma linguagem dessa, meu filho, pra um cara que vem do mato… Isso sempre foi a minha primazia.

MC – Essa música é do novo disco que o senhor vai lançar?

LG – Essa música é do próximo LP. Até doente eu boto tempero e graça nas minhas coisas.

MC – Esse próximo disco já está todo pronto?

LG – Ta todo arrumado aí, as músicas feitas, mas a doença e a preguiça não me deixam fechar. Mas, como eu tô sentindo um cheiro de melhora… Eu tenho horas que eu sofro muito, porque eu tô sofrendo de uma doença chamada… (Gonzagão não consegue pronunciar a palavra osteoporose e pede auxílio a sua companheira Edelzuíta: como é o nome da danada da doença? Venha cá, você não pode ficar longe de mim, não, porque você é a minha memória)… Ela vem me atacar os ossos, justamente os que foram fraturados ao longo da minha carreira. Essa doença me ataca, tirando o meu rebolado e o meu charme. Meu charme agora é Edelzuíta. (A companheira de Gonzagão interfere: “Não bote isso aí não, que vai dar confusão”, mas ele insiste: (Bote no jornal que o meu charme agora é ela, o amor de minha vida).

Seu Lula e Elba Ramalho cantando Léguas Tiranas. Dele e de Humberto Teixeira.

 

 

MC – Os acidentes que o senhor sofreu foram muitos. Alguns até acabaram virando música. Quantos acidentes foram?

LG – Ih!…Já perdi a conta. Fraturei dez costelas, fraturei a clavícula, fraturei o crânio e, agora, essa osteoporose está me derrubando. O primeiro acidente foi em 1951, foi aquele de Santos, que o carro mergulhou de uma ponte de uns quinze metros, com todos nós dentro. Deu até uma música de Zé Gonzaga, meu irmão (canta): E Luiz Gonzaga não morreu… De lá pra cá, foram mais uns quatro ou cinco acidentes. Mas, o que eu andei mais perto da morte foi esse que me fraturou aqui (aponta para o lado direito da testa). Eu fiz duas operações, porque atingiu o olho, mas acabei cegando dele. Isso foi na estrada de Miguel Pereira. Gonzaguinha tava comigo e o anão Salário-mínimo também. E a maior vítima foi eu. Mas escapei com vida. Isso foi em 1962, parece. (Gonzaga fica alguns instantes em silencio, depois continua): Mesmo assim, ainda me sobrou algum charme pra encontrar uma mulher bonita e inteligente pra tomar conta de mim.

MC – A osteoporose, o senhor vem sentindo desde quando?

LG – Ela só foi localizada agora, aqui no Recife. O primeiro ataque dela foi no fêmur. E é por isso que eu estou usando essas gonzaguetes (mostra as duas muletas que utiliza para andar, ainda assim com bastante dificuldade). E dizem que fêmur é bicho muito atrevido, até hoje ninguém encontrou medicina que o dominasse.

MC – Faz mais ou menos um ano que o senhor vem sentindo os sintomas da doença?

LG – Não, isso faz muito tempo. Mas, eu só vim me interessar depois que comecei a sentir a obrigação de usar muletas. Agora, vem de muito antes.

MC – Eu me lembro que, durante algumas apresentações na televisão, o senhor sempre estava aparecendo sentado, pra poder segurara a sanfona

LG – Pois é, pois é. E nem sanfona eu toco mais, não dá mais. Eu já não gravo com sanfona há mais de dez anos. Depois que eu comecei encontrar sanfoneiros capazes, tocando melhor do que eu (e Dominguinhos foi o primeiro) e esses sanfoneiros começaram a declarar que eu tinha sido seu incentivador, seu mestre, aí eu digo: e o que é que eu tô fazendo aqui tocando sanfona de graça, se minha voz vale muito mais do que minha tecla? Aí, passei a usar esses meninos me acompanhando, com muito mais arte, mais graça. Ora, se nessas alturas, eu já passei a ser conhecido como um afortunado de tantos dotes dados por Deus, nada melhor do que distribuir com aqueles que estavam seguindo meu caminho com honestidade. Tem Oswaldinho, Dominguinhos, Valdones de Fortaleza, um garoto de 15 anos tocando magistralmente, um garoto rico e bonito. O Valdones tem até um estúdio em casa, o pai faz todas as vontades dele, o garoto ta numa carreira bonita. Quer dizer, por isso eu acredito que o forró não vá morrer. O baião não morreu, o forró, feito do baião… Então, eu acredito que essa música vai pra frente. Porque o Nordesta dá isso, oferecendo sua graça. Sábado agora, eu botei cerca de vinte mil pessoas no Spázio, uma verdadeira festa, muito bonita, feita especialmente pra mim. Estavam lá Fagner, Elba Ramalho, Genivaldo Lacerda, Gilberto Gil, Dominguinhos, Alcimar Monteiro que ta indo muito bem, Jorge de Altinho...

Gonzaga convalescente da doença que o levou...

 

Pedro Luís – Jorge de Altinho andou sumido um tempo, né?

LG – Não, Jorge de Altinho é o mesmo. É porque, de repente, o forró tornou-se…é…demasiadamente oferecido. Quer dizer, várias fábricas… A minha fábrica, por exemplo, gravou esse ano seis discos de forró. Então, é muita oferta. Mas, Jorge de Altinho sempre foi um cara pra frente e irá muito mais. Como ele é jovem, ele pode mudar para onde quiser. Mas, ele é fiel ao forró.

MC – O seu novo disco vai ser lançado quando?

LG – Logo depois do carnaval, que é quando se começa a lançar forró, uma música sugestiva, uma música quente, cheia de graça. Depois do carnaval até junho é com nós. Nós ocupamos o miolo do ano.

MC – A partir de quando, mesmo, não deu mais para o senhor segurar a sanfona?

LG – Eu vinha tocando, porque ela sempre foi o meu apoio e eu sempre gostei. Porque eu criei um estilo. Mas, além desses problemas que eu sofri,me apareceu uma doença na coluna, as viagens muito prolongadas, horas e horas viajando de automóvel. E eu ia controlando. Quando eu perdi o rebolado, mesmo, que localizei o problema… demorei um pouco… eu disse: vou dar uma de professor, vou avisar a meus colegas pra ter muito cuidado com o peso da sanfona.

Vá ver que quase todo sanfoneiro está hoje meio corcunda. Porque eu criei uma arte muito pesada. Nós não temos condições, aqui no sertão, de pagarmos orquestras nem instrumentos eletrônicos. E a sanfona é um instrumento do ar livre e ela resolve um baile a noite inteira, gostosamente, com o seu próprio som. E os caboclos sanfoneiros, forrozeiros, gostam muito do seu trabalho e tocam a noite inteira, incarriado. Estão entrando num cano deslumbrante, como dizia aquele pernambucano que escrevia no jornal sobre futebol, humorista, que escreveu peças de teatro, que é irmão de Mário Filho, jornalista primoroso…

Como era mesmo o nome dele? Isso, Nelson Rodrigues. Ele foi quem criou esse termo cano deslumbrante. Eu entrei num cano deslumbrante. Então, foi isso. Essa doença, que tá aumentando cada vez mais em nós, a coluna vertebral, que trouxe também para mim. Aí, eu não podia mais com o peso da sanfona. Fazia um ensaiozinho, uma coisinha, mas vinha logo a dor.

MC – O senhor lembra qual foi o último show em que o senhor tocou?

LG – Não, eu não gosto de lembrar. Porque, só de lembrar, eu sinto dor. (Gonzagão baixa a cabeça, faz cara de choro e fica alguns instantes em silêncio).

MC – A sanfona pesa quantos quilos, normalmente?

LG – Quando eu comecei a tocar, o peso normal dela era de 12 quilos pra cima. Aí, eu passei a prestigiar a sanfona nacional, porque eu tinha acesso à fábrica e lá eu dava as minhas ideias. Naquela altura, nós tínhamos uma espécie de umas 12 fábricas de sanfona. Hoje, só temos uma e se arrasta. E eu dizia: “Olha, gente, deixo um pedido aqui do velho sanfoneiro e tal… Nós estamos usando instrumento errado, com o peso discoforme para o nosso físico, pra o nosso clima, principalmente para nós, nordestinos, que é que mais usamos sanfona. Manera no peso. Eu quero mandar fazer uma sanfona aqui com nove, dez quilos...” E consegui, eles fizeram. É tanto que todas as capas dos meus discos são com fotos de sanfonas brasileiras. Mas, a sanfona de Dominguinhos pesa 16 quilos. E eu falo com ele: “Te cuida, Dominguinhos! Você é grossinho, mas vai afinas as pernas, vai entortar as pernas.”Ta entortando. É muito peso, sabe?

Então, quando eu me vi cantando sentado, eu aproveitava e fazia um pouco de apologia à sanfona e caía, justamente, nessa questão aí. Sim, porque os italianos eram os fabricantes de sanfona, não são mais, hoje já caíram fora. E o clima deles, já viu como é que é, né?… Clima frio. As comidas deles são saborosas, cheias de força. O físico deles é diferente, são sempre parrudos, mais do que nós… Por que, agora, a gente vai carregar o peso deles também? Isso eu falo no palco, quando estou bem disposto. Ou, quando tô sentindo dores, falo com raiva, né.

Deus me deu o dom de falar, com a minha própria linguagem, despreocupado, sem medo de errar, porque o povo já sabe que eu não sou intelectual, então eu mando brasa. (Gonzagão ri gostosamente).

MC – Onde fica essa fábrica brasileira de sanfona?

LG – A única fábrica de sanfona, hoje no Brasil, fica no Rio Grande do Sul. Hoje, só tem a Universal. Essa fábrica não é dotada de bons técnicos. A que mais evoluiu foi uma chamada Todesquini. Mesmo assim, não agüentou, porque queria vender muito instrumento e não dava. Chegaram as guitarras eletrônicas, sanfonas eletrônicas e tal…

MC – Dá pra dar uma geral sobre o que vai ser o seu novo disco?

LG – Não, dá não. Porque eu só venho a decorar, mesmo, depois de gravar. É uma preguiça lascada.

PL – Será que é outra doença, essa preguiça?

LG – Não, é não… Eu vou gravar uma música conhecida, chamada Estrada de Canindé... Não… É, deixa lembrar... Sertão de Jequié, que foi gravada por Dalva de Oliveira. (Gonzagão canta. Primeiro, confunde a letra com os versos de Estrada de Canindé. Depois, acerta a letra e canta Sertão de Jequié inteira). Essa música é de Cléssio Caldas e Armando Cavalcanti, dois carnavalescos do Rio de Janeiro, que me deram dois grandes sucessos: um foi Boiadeiro, que é meu prefixo e sufixo (cantarola) e me deram outra também muito bonita, chamada Meu cigarro de palha (canta). Eu cantava também, mas nunca gravei, vou gravar agora.

MC – Nunca gravou Meu cigarro de palha?!

LG – Não, não… peraí… Nunca gravei Sertão de Jequié.

MC – Além de Sertão de Jequié, o resto do disco é tudo músicas novas?

LG – É. Tem uma de Antônio Barros, que eu gostei muito, chama-se Coração de pudim: Meu coração é feito de manteiga ou de pudim/Molim, molim, molim, molim/Falei com esse sujeito pra não me deixar assim/Molim, molim, molim, molim… É uma música de Antônio Barros, aqui de João Pessoa. Ele me deu também outro forrozim muito gostoso, chamado Lagoa do Amor (cantarola alguns versos).

MC – Com esse disco a ser lançado no próximo ano, são quantos discos gravados durante os 50 anos de carreira?

LG – São 55. Com esse que vai sair, são 56. (Gonzagão comenta o disco que gravou com Fagner. Pergunta a Edelzuíta se ela quer ouvir uma faixa, pede que a companheira coloque a faixa que mais gostou e ela escolhe Amanhã eu vou. Enquanto todos, na sala, escutam a música, Gonzagão cantarola baixinho e de cabeça baixa. No final, reage): Ô véio enxuto da molesta! Tô com 76 anos nas costas, com 74 eu gravei isso aí. Nunca fumei, apesar de gostar muito daquele cheiro; de fazer propaganda de fumo… Mas, pra que fumar? Só pra imitar os outros?!

MC – E beber?

LG – Beberiquei algumas besteirinhas. Adorava uma cerveja lascada. (Dirigindo-se ao fotógrafo Pedro Luiz, Gonzagão pergunta): Você é de onde?

PL – João Pessoa.

LG – Tinha que ser! Com essa cabeça de cangaceiro.

MC – Além do disco novo, quais os outros planos?

LG – Viver mais um pouco. Só. Show, mais não. Depois daquele show de anteontem! Foi uma coisa! Quinze ou vinte mil pessoas, e eu sentado lá no palco, vendo tudo isso e sem poder participar. Eu cantei Tropeiro da Borborema, que é uma das coisas mais bonitas de Raimundo Asfora, mas o bom da gente é a gente se sentir em condições de criar mais e ter a impressão que amanhã a gente pode criar um sucesso consagrador… Mas, eu já criei os meus, Asa Branca, Vozes da Seca, Baião, Luiz Respeita Januário… Pra onde é que eu vou mais? Eu me sinto completamente realizado. Mas, eu não gostaria de sair assim, carregado porque não tenho mais pernas. (Gonzagão fica alguns instantes e silêncio).

MC – Não tem mais pernas, mas tem uma grande voz. Vai ficar aí parado?

LG – Não, ainda tenho que fazer mais dois discos, por contrato. Além desse que vai sair o ano que vem, tem outro que ta pronto há dois anos e tudo indicava que ele não ia sair. Mas, só que tive uma coragem de leão em abandonar a RCA Victor aos 48 anos de serviço, 48 anos, 14 de março de 1941, quando eu entrei lá. Saí como um protesto e esse disco estava guardado lá, no fundo do baú. Terminei botando tudo pra fora, porque senti que a minha fábrica atual pode ganhar muito dinheiro com isso e eu não me incomodo que uma gravadora boa ganhe muito dinheiro comigo. Eu ganho o meu pouquinho e fico satisfeito, não chamo ninguém de ladrão. Eu quero é vender meu peixe.

MC – Por que o senhor deixou a RCA?

LG – Olha, é uma história tão escrota, tão podre, que eu nem gosto de contar. E eles estão aí, com três discos meus na praça: o Aí tem, o álbum e esse Amanhã eu vou. Então, eu vou ganhar uma nota muito boa e não quero dar uma de menino mal-agradecido, não tenho mais idade pra isso. Eu quero é me dar bem com as duas (gravadoras), eu quero é as duas brigando por minha causa. E a RCA vai levar vantagem, porque ela tem 48 anos de repertório meu. E a outra vai começar… Talvez isso seja até ruim, três discos na praça… A nova gravadora é a Copacabana, que foi muito leal comigo, foi tão bacana comigo. E eu desejo que as duas ganhem muito dinheiro comigo.

MC – Nenhum projeto para programa de televisão, apresentações?

LG – Nada, nada.

MC – Tá encerrando, mesmo? Uma vez, Dominguinhos disse que o senhor vai morrer no palco e que essa história de despedida era conversa, pois ele já tinha participado de um show de despedida sua, na década de 50.

LG – Em 1953? Será possível? Isso é conversa fiada, é o Dominguinhos me gozando. (Gonzagão dá uma gargalhada e pergunta): Já terminou? É, você sabe escrever, e aí vai dar pra você fazer sua reportagem. Você é de onde?….

 

Mausoleu do Gonzagão. Aqui jaz o maior cantador de todos os tempos. Luiz Gonzaga do Nascimento. Seu lua, o Rei do Baião!

 

praça em sua homenagem na sua terra - Exu-PE,

 

Assistam aqui o video Dominguinhos e ele – Luiz Gonzagão, contando Estrada de Canindé, dele com Humberto Teixeira.


* Fonte :Pernambuco de AZ

(Fotos Google/video Youtube))

S A N H A R Ó – SAUDADE NÃO TEM IDADE : NOITES MARIANAS NO LONGÍNQUO 1963…

A NOITE DA ESCOLA NORMAL

EMÍLIA CÂMARA DE SANHARÓ.

 

Vestidas de azul e branco…

 

O início dos anos 60, marcou uma nova etapa na vida sócio-cultural e educacional de Sanharó. Tendo chegado, transferido de Floresta do Navio, à época, Padre Heraldo Cordeiro de Barros, trouxera consigo um sonho. Profundo conhecedor das adversidades locais, em especial, a falta do ensino médio, posto que, somente, graças ao ímpeto da sua mãe, conseguira estudar, ele e o irmão Zezé, no Seminário São José de Pesqueira. Os que os conheciam, contavam, orgulhosamente, a luta de sua mãe para conseguir tal realização em ordenar dois filhos padres.

O mês mariano, na sua nova paróquia, ainda mais em sendo ele um conterrâneo, passou a ter um contexto mais festivo do que até então se costumava fazer. Havia quase que uma disputa para ver quem fazia da sua noite àquela mais animada. Sobre o assunto, assim se reportou a escritora sanharoense e nossa estimada amiga – Socorro Costa;As noites marianas duravam todo o mês, cada uma dedicada a familiares, às escolas, às moças, aos rapazes, às ordens religiosas e às corporações. Fogos, banda de música e o altar,  reservado a Nossa Senhora, cada vez mais ornamentado. As escolas Emília Câmara e Ginásio Pio XII também tinham suas noites específicas.

Para os cristãos o mês de maio é consagrado a Maria e esta é homenageada com preces e venerações.”

As duas escolas quase que se digladiavam, no bom sentido, para fazerem uma apresentação mais do que especial – espetacular. Faziam bingos ou rifas e o mais comum: adquirir enfeites os mais diversos para ornamentar o altar de Virgem Maria. Ah! tomava-se emprestadas as lâmpadas que iriam iluminar esse mesmo altar, na bodega de paulo Muniz ou na venda de Zé monteiro. Pagava-se tão somente, uma ou outra que porventura queimasse.

As flores eram “catadas” como se diz, por aí afora…O importante era a beleza plástica da apresentação na memorável e inesquecível noitada mariana.

A foto, do acervo de Socorro Costa, reluz um desses grandes momentos, passados em 25 de maio de 1963…

 

Normalistas da Emília Câmara em 25 de maio de 1963.*

 

Na foto distinguem-se à frente : Três irmãs; Zezé. Socorro e Terezinha, filhas de Artur Cordeiro leite, Teca Moreira, Socorro Melo, filha de Edilson Honório, Nevinha de Tonho Victor, Edilene Freitas, Rosa de Amaro Epifânio, Socorro Costa. Os anjinhos são: Gizélia e Fátima Monteiro. Na fila interior: Margarida Aquino de seu Ventura, Zefinha de seu Alípio, Graça de Hilton Leite, Nilza Leite e minha prima Dora de Zé Amaro, Marly Ribas, Eufrosina Dario…

Da presente turma, faleceram, Terezinha Leite, Margarida Aquino Avelino e Eufrosina Dario.

Em suas homenagens o blog posta o video com a música Normalista – David Nasser e Benedito Lacerda, na voz do inimitável e inesquecível – NELSON GONÇALVES.

(Video Youtube)

HOMENAGEM – DE SANHARÓ PARA O MUNDO : O “Dicionário” de Cezinha. Catalogadores : Lidinho Souza Cintra e Gilberto Leite Souza

O “DICIONÁRIO” INVENTADO

POR CEZINHA DO Bar

 

Nascida em 14 de fevereiro de 1923 e “levada” em 11 de maio de 2003 – Dia das Mães, Cezinha, batizada como Maria Izabel Calado, fez do seu bar um lugar diferente e diferenciado. Os mesmos fregueses, com raríssimas e honrosas exceções. Os mesmos tira-gostos. Xerem com galinha ou vice-versa, “ceuveja” estupidamente gelada e  rum – “mantilha” com coca-cola…Esses dois “maus-elementos” que assinam essa postagem em conluio com outros da mesma “qualidade”, resolveram homenagear essa grande figura de mãe e amiga, divulgando o seu inimitável “dicionário” e o intitularam  de –  CEZANÊS…

 

 

DICIONÁRIO MODERNO DA LÍNGUA CEZANÊS

 

Ali – Adv. que serve para iniciar qualquer conversa (então).

Aéciu – Medicamentos a base de ácido acetil salicílico AAS para os normais.

Aruepópis – Aeronave movida a hélices, às vezes chamada de helicóptero.

Alma – Pequeno objeto que serve para intimidar, espantar ou matar pessoas (Eu tenho duas almas um 22 e um 38) Revólver, espingarda, etc.

Antáutica – Marca de cerveja.

Alumêia – Do verbo alumiar.

Alumino – Utensílios do lar (Bacia, caçarola, etc.).

Atista – Homem ou mulher que aparece na televisão.

Bichin – Filho de (bichin de Sôssô, bichin de Zezeca, etc.).

Bales – Festa dançante, tipo forró ou baile mesmo.

Batitope – Pessoa pequena, baixinho, tamborete de forró.

Barôa – Feminino de Barão (Ali, o barão pegou a alma e botou nos peito da barôa – descrevendo uma cena da novela Escrava Isaura).

Bilhoteca – Lugar que tem livros.

Biscoteca – Local onde se dança.

– Esposa de Giberto de Catarina – Isabel.

Ceuveja – Líquido fermentado a partir da cevada.

Caudeneta – O mesmo que caderneta.

Catuté – Raça de galinha “parecida” com Calcutá.

Carulinda – Refrão de uma música de Gonzagão.

Cachete – Droga prensada, comprimido.

Caxinha da Televisão ou do Som – Controle remoto.

Cuticá – Espetar com algum objeto pontiagudo.

Caridade – Gente ruim (Esse caridade da peste, já tá bulino nas panela).

Catiçá – Porta velas.

Cateflão – Anti inflamatório popular – Cataflan.

Cêdêu – Versão moderna de disco, LP ou CD – Compact Disc.

Dosa – Uma porção de bebida.

Drumí – Descansar de olhos fechados.

Discalga – Objeto utilizado no bacio sanitário para evacuação das fezes.

Delvolve – dissolver.

Entontilhado – Meio zonzo.

Expético – Colchão apropriado para o corpo.

Encaramujar – amassar, diminuir de volume.

Gularejo – O mesmo que gargarejar.

Galganta – Goela.

Inguinorréia – Mulesta do Mundo.

Isgüelepado – Esfomeado, amundiçado.

Impidimia – Cabra chato.

Laxcá – Abrir em banda (Vai te laxcá porra!).

Futicão – Encaicar os dedos em outra pessoa.

Ovaróis – Documento expedido pela prefeitura para licença do funcionamento – Alvará.

Hipótica – Suposição, acontecimento incerto.

Lança Peufume – Entorpecente de rico.

Lolóis – Genérico do lança perfume.

Mantilha – Marca de Ron – Montila;

Maiomota – Conversa mole, assombração.

Mau estado – Coisa ruim, não estar bem. (Aqueles, caridade vieram aqui e fizeram o maior carnavá, amanheci num mau estado da porra, ali não sei se foi a lolóis ou o lança peufume).

Moção – Integrante de uma loja maçônica.

Peufume – Água de cheiro.

Pinhão Só – Desinfetante cheiroso – Pinho Sol.

Papéhigiene – Papel só prá cu.

Purdente – Ex presidente da república, cidade de São Paulo – Prudente de Morais.

Pesquêro – Cidade vizinha a Sanharó.

Piro ou Píures – O mesmo que pires. Cezinha cadê o Sal? E Eu já num butei um piro de Sá nessa porra. Como a gargalhada foi geral e tendo ela notado a falha, ligeiramente concertou: Eu digo errado porque quero e eu nun sei, que o nome certo é píures.

Sabão omi – Sabão em pó OMO.

Saldinha – Espécie de peixe.

Sentida – Fora do prazo (Ali tua conta tá sentida lá fora. Essa galinha tá sentida).

Trépéu – Objeto com três pés para colocar panelas.

Váuza – Bairro do Recife.

Vauzilinha – Pasta apropriada para desvirginar as negas.

 

Alguns dos habituês em uma cerimônia do corte do bolo...Na foto Afrânio (Coelho), Alexandre/Zaco, Táta, Belinho, Marcílio (çaçaçaçaça), Marquinho e Polo. O escondido parece ser o Cesar Babão. Bons e inesquecíveis tempos...

 

Era carnaval. Mesmo assim "os meninos" não deixaram passar em branco...Ivanildinho, Lidinho e companhia.

 

Cezinha, Paulinho Muniz e a fiel ajudante Eunice de Ilesta...Saudade não tem idade.

 

(FOTOS GENTILMENTE DO ACERVO DE LIDINHO CINTRA SOUZA. Pesquisa de Leila Freitas Cintra). 

 

 

MURAL DE SAUDADE – A CHEGADA DO TREM EM CARUARU. Ano 1895. *

Caruaru, o Trem e a Macaca

 

A "Maria fumaça" puxando o comboio por muitos anos...

 

No governo do prefeito Manuel Rodrigues (Neco) Porto, em 1895, o trem chegou a Caruaru. A locomotiva foi batizada com o nome de “Barbosa Lima”, que era, então, o governador de Pernambuco. A chegada da assombrosa máquina foi uma festa para os mais esclarecidos moradores da cidade. Bandas de músicas, foguetório, gente correndo para todos os lados, vaias de moleques, gritos de senhoras e moças, uma azáfama terrível de crianças. A poeira subindo, vendedores com tabuleiros de jinjibirras, doces, cachaça, bolos, algodão-doce, pirulitos e tudo o que se podia vender numa ocasião daquelas, quando a multidão enchia a grande praça da estação em frente ao prédio erguido por Papai Léléo, avô de Aurélio de Limeira Tejo, que, depois, passou a ser propriedade da empresa Boxwell.

Mas, o ano que antecedeu a chegada da fantástica máquina foi um período de intermináveis conversas, invenções, versões disparatadas, medos e ansiedades e de condenações de religiosos mais conservadores. O que seria aquilo? Uma coisa do demônio, diziam. Dona Vevéia, uma preta rezadeira que morava no bairro do Centenário, ela mesma com mais de setenta anos de idade, nos idos de 1960, relatou ao articulista a sua versão dos fatos. A anciã estivera presente na estação ferroviária naquele dia histórico para Caruaru. Segundo dona Vevéia, ao surgirem as primeiras informações sobre o trem, um rebuliço tomou a cidade. Os matutos vinham sendo advertidos a respeito do “perigo”, que aquelas máquinas, os trens, representavam. Comentava-se que o célebre missionário, padre Ibiapina, conhecido pelo nome de “padre Piapina”, havia pregado em missões… que um bicho preto, enorme, viria correndo pelos campos, dando gritos terríveis e lançando fogo pelas ventas, para anunciar o fim do mundo. E, portanto, a população humilde ficou apavorada, temendo que o tal “bicho” iria devorar os pecadores e instalar o “Dia do Juízo final” em Caruaru.

As beatas iniciaram novenas intermináveis. Fazia-se jejum. Algumas mulheres esfolavam os joelhos, pagando promessas, ou limavam os dedos de tanto rezarem com seus rosários. Santinha Felissíssima, a mais famosa dentre todas, amarrou-se a um crucifixo em frente à igreja catedral. Outra religiosa organizou pregações no Monte do Bom Jesus. As procissões noturnas começavam às três horas da manhã, com toques de matracas e sinos.

Estação Ferroviária de Caruaru. Hoje somente vestígios...

No dia fatídico em que o trem, afinal, chegaria a Caruaru, muita gente dos arredores da cidade, estava em pânico. Dona Vevéia, quando ainda criança, seguiu com a madrinha para um alto, de onde se poderia ver o tremendo “bicho”. Ao ouvir os primeiros apitos do trem, as beatas que também ali se encontravam, correram em disparada para a igreja do distrito. Dona Vevéia, ao avistar aquela máquina enorme, largando fogo e fumaça e fazendo um barulho dos infernos, ficou cega e, tateando, correu em direção à sua casa, aos gritos e em prantos. Em seguida, desmaiou. O sacristão Sertossanto Limeira tocava o sino sem parar e o seu ajudante lançava água benta naqueles que se refugiaram na capelinha, com os braços erguidos, implorando salvação e confessando, aos gritos, todos os pecados cometidos. Muita gente, da rua, pulava pelas janelas e caía sobre os que estavam no templo. Sacrementina Salvação derrubou o castiçal-mor, e pensaram que a luz das velas seria um raio fulminante enviado pelo Criador. A confusão foi geral e uma macaca de circo foi morta a pauladas, pensando-se que se tratava de um dos demônios fugidos do trem.

Pátio da estação de Caruaru. (Hoje é pátio do Forró)

Passada a agitação inicial, e o trem se distanciando, tudo se acalmou. Santino Santarrita, parente distante de Álvaro Lins, tentou convencer os presentes traumatizados, afirmando que a locomotiva não era demônio nenhum. Mas, apenas uma máquina inventada no estrangeiro. As mulheres ainda tremiam. Outras choravam baixinho, com seus vestidos rasgados, feridas. No entanto, a custo, a tranquilidade se restabeleceu. A menina Vevéia tinha aspirado sais e tomado um gole de Água das Carmelitas. Recobrou os sentidos. Ouvia-se, bem longe, o som dos apitos. O sol escaldava. O vento cessara. E veio um silêncio quando o trem chegou à Estação Ferroviária de Caruaru. A Modernidade começava.

A mesma estação não recebe trens desde 2001 e o último que passou por aqui foi o Trem do Forró que teve de mudar sua rota por problemas de falta de conservação nesta linha. Agora, com essa possível chegada do VLT, pelo ao menos o trecho da linha que passa por Caruaru estará conservado aumentando até a esperança de um trem turístico na Linha Centro e até o retorno do Trem do Forró.

* O seguinte texto que conta essa história foi escrito por Humberto França e retirado do site da Fundação Joaquim Nabuco e conta o curioso dia da chegada do trem em Caruaru.

Fonte: Projeto Memória Ferroviária de Pernambuco/André Luiz.