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POEMA: AS ROSAS – Por Sebastião Gomes Fernandes(*)

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Queixume as rosas

 

 

Ah! Se as rosas falassem!

Queixume as rosas

Na esperança de um dia ouvir algum sussurro!…

 

Ah! Mas as rosas não falam!

Desvaneço-me, fico arredio.

Busco você!

Você não me houve.

 

Ou não quer me ouvir… Deixa-me chulo,

Fossilizado, sem animo!

Mas meu amor é mais forte!

Meus sentimentos mais puros!…

 

Não me deixam à revelia!

Alimentam-me a vontade e o desejo de te amar!…

Fazer-te feliz e sentir-me o homem mais feliz do mundo!!!

 

Vibrar com toda a energia de um

Vulcão em chamas!

Eletrizar teu coração com todo o vigor

Potencializado de um adolescente!

 

Que busca aplacar a exuberância

E efervescência sensual

Que lhe é peculiar…

E que alimenta o amor em chamas!

 

Mas você deixa passar esse amor por entre

Os dedos, como se fosse água!…

Ficas inerte, sem ação,

Deixando esse amor a dimanar!

 

Mas se algum dia a chama que

Acalenta esse amor voltar a vibrar

Serei eu o privilegiado!

Terei eu a graça de agradecer o dom da vida!

 

Sentir que valeu a pena viver!

Que você fez e fará parte

Na minha caminhada por este Universo

Infinito! Cheio de enigma e de mistério!

 

Mesmo assim vibro à espera

De que ainda tenho a chance de ouvir

Tua voz. A acalentar-me como

Se fosse verdadeiramente amado!

 

Sei que nosso amor não foi

Apenas um sonho que passou!

Foi mais que isso! Basta abolirmos As arestas…

 

Desperta deste sonho letárgico

Que te consome e que te maltrata

E deixa teu parceiro as tontas!

O amor por ti é mais forte e capaz de

Fazer as rosas falarem!!!

 

De tirar-te deste sonho profundo!

Que só golpeia quem tanto te ama.

Acorda, levanta-te para a vida!

Para o mundo que te quer Vibrante e feliz!

 

Veja que o mundo nos presenteia

Agradáveis e fantásticas oportunidades

Para nos proporcionar prazer.

Mas por outro lado nos cobra fidelidade a

Nossos princípios e sentimentos!

 

Queixume às rosas,

No entanto sei que as rosas não falam!

Mesmo que as rosas não falem

Deixo aqui o meu recado!

Desperte desse sonho letárgico,

Procure viver o hoje com todo o amor

Que seja possível!

Não me deixe tão só!

                Encoste sua Cabecinha em meu ombro,

                  Sinta-se feliz E faça-me feliz!

 

Sebastião Gomes Fernandes de Jaquetão

 

Pesqueira – PE Fevereiro/13

(*) Autor – Sebastião Gomes Fernandes  –  Membro e presidente  da APLA –  Academia Pesqueirense de Letras e Artes.

A POESIA DE ROBSON – Oração Sertaneja : por Robson Maciel Aquino.

Oração Sertaneja

 

 

 

Luiz Gonzaga – Luar Do Sertão
Found at Luar Do Sertão on KOhit.net

 

 

 

Meu Jesus abra bem a sua oiça
Pois, de fraca, minha voz não vai além
Já gastei todo verbo no armazém
A pedir, implorar comprar fiado
Mas o dono me olha assustado
Como se fosse eu um malfeitor
Os meus calos nas mãos não têm valor
E a pele rachada não diz nada
Minha enxada, num canto encostada,
É o retrato de tudo que sobrou

 

Me valei, meu Jesus, peço clemência
Como dói ver a terra esturricada
Meus bichinhos tombando na estrada
Todos secos, de olhar triste… sombrio
Amontoam-se onde antes era um rio
A formar a mais triste escultura
Feita a ossos de puras criaturas
Que a morte não teve compaixão
E no solo rachado do sertão
Escreveu a cruel literatura

 

Não suporto, meu Deus, olhar meus filhos
Tão confusos ao que está acontecendo
Tudo envolta, aos poucos, tá morrendo
Sem deixar um bilhete, um só recado
O seu pai nunca mais foi ao mercado
Sua mãe se definha a cada dia
Onde antes reinava a alegria
Hoje é palco de dor e sofrimento
Alivia, meu Pai, esse tormento
Me acolhe na tua calmaria

 

Me livrai, oh meu todo Poderoso!
Da mais dura e cruel humilhação
Que é você estender a sua mão
Para um outro e pedir uma esmola
Isso dói; isso fere; isso degola
Joga ao chão a decência construída
Através do trabalho de uma vida
Pela fonte da honra batizado
Nunca deixe, oh Senhor, que o meu passado
Seja casca cobrindo essa ferida

Pinte o campo de verde, novamente
Me devolva o que a seca me tirou
Minhas vacas, meu boi reprodutor
As espigas todinhas do roçado
Enche o rio e refaça o seu traçado
Arrastando pra longe as más lembranças
Alimenta, meu Pai, minhas crianças
Que há tanto não sabem o que é comer
Traz de volta a mulher do meu viver
E com ela a mais pura esperança

 

Quero ouvir o meu galo cantador
Acordar a fazenda de manhã
Sabiá, bem-te-vi, curiatã
Em orquestra, saudar o novo dia
Um pão novo chegar da padaria
Uma mesa bem farta e colorida
Com toalha de brim toda florida
Alegrar a casinha de sapê
E a família inteirinha agradecer
Pelo verde, a fé; pela comida

 

Nunca mais, oh Senhor, deixe faltar
Uma gota de água na quartinha
Uma cuia e meia de farinha
Bem guardada num saco atrás da porta
Cebolinha e tomate, lá da horta
Rapadura, toicim, arroz, feijão
Uma sela no lombo do alazão
Uns teréns pr’eu guardar alguns trocados
No curral ver crescer forte meu gado
E em mim, minha fé em oração

 

Que meus joelhos, meu Pai, sempre se dobrem
A louvar pelas graças recebidas
Pela água que é a fonte dessa vida
E o verde que dela resplandece
E por tudo a gente agradece
Mas nos livra de ter que suplicar
De tremer, toda vez que se lembrar
O que a seca é capaz de produzir
Me abençoa, Senhor, tenho que ir
Não me falte a coragem de lutar!

 

 

Autor: Antonio Robson Maciel de Aquino

HOMENAGEM POÉTICA : TRIBUTO AO BOÊMIO/… Ao grande herói da madrugada/ Ao pássaro negro da alvorada… – Por Robson Maciel Aquino.*

 VIVA A BOEMIA !

 

 

"O boêmio que se preza / Não tem hora pra chegar..."

 

Tributo ao Boêmio

 

 

 

 

 

Abro as portas da minha poesia
Clamo aos deuses dos versos para entrar
A rainha da rima vou chamar
Dionísio confirmou sua vinda
Para essa homenagem justa e linda
Ao boêmio, o rei da alegria
Esse símbolo da nossa boemia
Hoje exemplo de pura raridade
Ergo um brinde à vossa majestade
 Com a taça que aos deuses eu serviria


 

Um galã pela arte da conquista 

Que namora o silêncio e a escuridão

Agarrado ao amigo violão

Tem no peito um porto de saudade

Onde ancoram mentiras e verdades

E se vão sonhos tão inacabados

Que seus versos entoam lagrimados

Essa busca incessante pela vida

São canções encharcadas em bebidas

São recursos em silêncio retomados

 

 

O boêmio é a cara do descuido 

Totalmente improvável e desatento

É capaz de sorrir de um lamento

E sofrer num instante de alegria

Não distingue o que é noite do que é dia

Usa os olhos dos outros pra chorar

E a voz do cantor para encantar

A morena que nunca lhe dá trela

Faz seresta em duas, três janelas

Mas nenhuma se abre pra escutar

 

Tem o dom do equilíbrio em corda bamba 

E a oratória etílica convincente

Jura ter o poder de um vidente

E se julga capaz de enfrentar

Qualquer um que quiser, naquele bar

Discutir sobre tema a escolher

Um filósofo a serviço do saber

A retórica em álcool retorcida

È formado pela escola da vida

Com lições tão difíceis de entender   

 

 

No seu copo presente o combustível

Que acelera sua imaginação

E é capaz de mexer sua emoção

Quando lembra seus amores perdidos

Em legítima defesa do oprimido

Dá uma ordem ao garçom impaciente

Traga um litro da melhor aguardente

Veja um prato que lembre uma despedida

Hoje eu quero cutucar a ferida

Até ela sair da minha mente

 

Boemia não é pra qualquer um

É preciso entregar-se a esse feito

Não pensar que o que faz é um defeito

Não ceder aos comentários invejosos

Só os grandes e, também, mais corajosos

Acham garras pra seguir essa lida

São batalhas que sempre são vencidas

Num terreno difícil de lutar

Seu quartel é a rua e é o bar

Sua arma a viola e a bebida

 

 

Eu termino aqui o meu tributo

Ao grande herói da madrugada

Ao pássaro negro da alvorada

Que despedindo da lua, beija o sol

A canção entoada em dó maior

Uma trilha sonora da viagem

Seu retrato em pedaço é a imagem

Que define a sua trajetória

Peço a todos o respeito a sua história

Que merece de nós essa homenagem 

 

 

* Autor : Robson Antonio Maciel Aquino.

 

NOTA DO BLOG

Acompanhando essa linda e evocativa poesia, o oabelhudo oferece aos diletos amigos e “fregueses” conceituados uma bela página musical, a valsa chamada – ABISMO DE ROSAS, de Dilermando Reis,executada ao violão pelo mesmo…

 

(foto e video do Google/Youtube)

HOMENAGEM A UM POETA DA VIOLA – JOÃO Cabeleira. – Colaboração de Angela Lucena, *

João Cabeleira de

Jenipapo para o mundo 

 

João Cabeleira. Mocinho e sonhador...O mundo aguardava um grande poeta/repentista...

 

Um menino simples, sentado à beira da estrada na antiga rua dos coqueiros.( VILA DE JENIPAPO ), onde morava o seu avô José Francisco.

Viola confeccionada de pedaço de madeira e linha de náilon, sempre trouxe na ponta da língua versos improvisados e bem estruturados, que faziam todos sorrir.

A viola de brinquedo foi substituida por uma de verdade e pouco a pouco o João de Miguel Cabôco foi ganhando nome artístico, por ter uma bonita cabeleira, todos começaram a lhe chamar –  João Cabeleira e assim o seu sucesso como poeta repentista espalhou-se por toda essa região. Era também um grande conquistador de corações. Nos sítios, vilas e cidades alegrava as noites com belas cantorias de violas entre canções, motes e martelo alagoano. Nas feiras livres ao som da viola o do pandeiro traçava versos que agradava aos ouvintes, ainda vendia cordeis.  Também produziu e apresentou  programas de rádios, vindo a se destacar, principalmente na Rádio Bitury de Belo Jardim. Participou e ganhou premiações em Congressos Literários, Eventos Culturais/Escolares em diversas comunidades de um modo geral.

Cabeleira na foto em campanha política Em São paulo-Capital. (Lula carinhosamente dizendo: "Marta, esse é o cara!"

Sempre orgulhou-se por ter tido como mestre do repente. O ilustre poeta: Manoel Pedro Clemente. João Cabeleira nasceu no Brejo, mas imediações do sítio Boa Esperança de Jenipapo. Depois de viúvo foi morar em belo jardim e de lá, partiu para a Capital Paulista, onde o seu maior ponto de referência para cantigas de viola, era a famosa Praça da Sé.

Em programas de “TV” participou do programa de Silvio Santos, do Ratinho e do Amarim Filho que tinha como Título ( NAS QUEBRADAS DO SERTÃO). Ainda esteve presente nas campanhas do Presidente Lula e da prefeita Marta Suplicy.

Cabeleira engajou-se na campanha do também nordestino Lula...(Observe-se o microfone com a logomarca da Globo)

Hoje cansado e com proplemas de saúde se diz satisfeito por ter em sua trajetória uma bagagem de um passado feliz e inesquecível. O blog Jenipapo Em Foco tem o prazer de homenagear o grande poeta Repentista: João Cabôco de Melo ( JOÃO CABELEIRA ).

 

* Fonte : POSTADO ORIGINALMENTE POR: Paulo Ricardo/Blog Jenipapo em Foco.
 – COLABORAÇÃO: Poetisa e filha do homenageado – Angela Mª de Melo Lucena.

 

 

NOTA DO EDITOR

De certa vez assisti ao poeta João Cabeleira num programa  da antiga TV Manchete, apresentado por Bruna Lombardi (lindíssima). João cantou e deu entrevista. Quando perguntado de onde era, respondeu claramente: “Sou de Jenipapo que é um distrito de Sanharó, lá no meu Pernambuco…” Desde então, a minha admiração por ele só fez crescer.

Em outra oportunidade, minha esposa, Edna, estudava pedagogia na Fafica (Caruaru) no anos 80, pediu-lhe para gravar uma fita -cassete sobre Sanharó e a sua cena cultural. Ele o fez com muito esmero e boa vontade.Esse trabalho rendeu à aluna, uma boa nota.

Dom Pablito.

VERSOS/POESIA : Meu Amigo e Desafeto/”…E tu nada mais serás/Que uma lembrança esquecida…” – Por Robson Maciel Aquino.

Meu amigo e desafeto

 

 

 

Senta aí meu companheiro
Velho amigo e desafeto
Distante e sempre tão perto
Que às vezes confunde a gente
Pelo o que vê e o que sente
Olho você do meu lado
Longe me esperas sentado
Te flagro triste e contente

 

Tome assento, camarada
Medusa de três cabeças
Que alimenta tuas presas
Na fonte do meu querer
Se passar te dar prazer
Te adiante, vais embora
Aponta a rota e decola
Mas não deixarás de ser

 

Não podes matar lembranças
Por isso, juntos estamos
Se perto nos atracamos
Distantes crio saudade
Lá longe, a ansiedade
Se vamos nos encontrar
Não posso em ti confiar
Já que és mentira e verdade

 

Se abanque, diabo de luz
O santo da escuridão
Com seu tridente na mão
Passeias no paraíso
No seu rosário indeciso
Um mistério, duas pragas
Tanto escreves como apagas
Amor, ódio, dor e riso

 

Filho da santa e da puta
Todos sonham em te vencer
Podem ganhar de você
Mas não te matam inteiro
Pois vivo vales dinheiro
E morto não tens valor
Sou teu dono, és meu senhor
O último sendo o primeiro

 

Brinde comigo, doutor
Que cura a dor da saudade
Com a agulha da piedade
Costuras sonho e desejo
Dá um tapa, leva um beijo
Abraça e sai apanhado
Pois és fim inacabado
O invisível que eu vejo

 

O seu chicote de couro
Retalha a face da gente
Não há na terra um vivente
Que não tema esses seus traços
Pois eles sugerem cansaço
O final de uma jornada
A última curva da estrada
Da perna, o último passo

 

Dono daquilo que faz
És um artista discreto
Pintas de branco meu teto
Sem me pedir permissão
Na palma da minha mão
Tá gravada a tua estrada
Que uma cigana ajoelhada
Diz saber a direção

 

Meu amigo, amigo tempo
Não posso não te odiar
Nem fingir não te amar
Pois és mais que a existência
Muito além que a eloquência
Um metro após o infinito
Desejo de todo aflito
Um guru da paciência

 

Espere aí, meu senhor
Faça jus à sua fama
Sossegue! Nada de drama
O que passou é lembrança
Que o futuro alcança
E fabrica todo dia
Saudade, sonho, alegria
O velho, o homem, a criança

 

Não há como te parar
Nem correr na tua frente
Então, paralelamente
Vamos fazer um contrato
Me dê de ontem um retrato
De hoje a intensidade
Que amanhã, qualquer verdade
Mesmo dura, serei grato

 

Um dia transpassaremos
Essa faixa de chegada
Aonde a roda é parada
E a morte já foi vencida
Sem corte, dor ou ferida
Com diferenças iguais
E tu nada mais serás
Que uma lembrança esquecida.

 

 

* Autor : Robson Aquino

SEXTILHAS DE CORDEL – “Tá Tudo Mudado” – Por João Roberto Maciel Aquino.

TUDO MUDADO

 

 

Nunca mais eu vi vaqueiro
Entrando em mata fechada
De guarda peito e perneira
Atrás de rês desgarrada.
Não tem mais boi mandingueiro
A mata foi derrubada.

 

Padre de batina preta
Sair fazendo sermão
Em rua, sítio, arruado,
Aconselhando cristão
E o cidadão: Bença, padre!
– Deus te abençoe, meu irmão!

 

Nunca mais vi um carreiro
e sua vara de ferrão
guiando a junta de bois
Vem Xexéu! Bora Cancão!
e o carro de bois gemendo
pela boca do cocão.

 

Não tem pipoca, sorvete,
Brinquedos pra meninada,
Nem coreto com bandinha
Na praça toda enfeitada,
Com casais de namorados
De “duque”  pela calçada.

 

Não vi mais moça donzela
Fazendo adivinhação,
Nem pipoco de ronqueira
O céu cheinho de balão,
Coco em volta da fogueira
Nas noites de São João.

 

Não tem nas beiras de rios
Lavadeiras a cantar,
Ensaboando as roupas
E botando pra quarar.
Os rios viraram esgotos
Nem junco nasce mais lá.

 

Emudeceram os boêmios,
Calou-se a viola esperta,
Não se faz mais serenatas
Pela cidade deserta
Para a amada escutar
Pela janela entreaberta.

 

Acabou-se baile nos clubes,
Os hi-fi, os assustados
As melodias suaves,
Casais dançando colados
Hoje é só tecnomusic,
Tá tudo desmantelado.

 

O mundo modernizou-se
Não sei onde vai parar.
E o homem está condenado
Por deixá-lo desandar
A viver prisioneiro
Dentro do seu próprio lar.

 

Autor : João Roberto Maciel de Aquino

TOADA : QUERO VOLTAR, SANHARÓ! “Lembrando da mocidade/Passa o tempo, fico eu…” – Por Robson Maciel Aquino.

SANHARÓ - vista aérea. Vê-se a BR que leva e traz e o velho rio ipojuca, onde a meninada se banhava...(foto Davi Calado)

Quero voltar, Sanharó!

Toada

Eu vi os raios do sol
Beijar a crista da serra
Senti um cheiro de terra
Molhada no meu nariz
Ouvi cantar o concriz
Me encantou rouxinol
Do alto eu vi Sanharó
Com sua bela matriz

 

Lugar onde fui feliz
No tempo que era criança
Distante só a lembrança
Me fazia soluçar
Não podia me lembrar
Pé-de-serra, Maniçoba
E o caminho das algarobas
Me levando pra estudar

 

Saudade chega a sangrar
Abre no peito uma ferida
Relembro minha partida
E tudo que ali ficou
A casa do meu avô
E o campinho da salina
Namorar com a menina
Que um dia por mim chorou

 

O tempo nunca calou
A voz do filho ausente
Que viveu, praticamente,
Das lembranças do passado
Com seu desejo negado
A dor da separação
Rasgando o seu coração
Deixando o pobre arrasado

 

 

Voltar pr’ali é um desejo
Que eu sonho em realizar
Não pode haver um lugar
Melhor que aquele que é seu
Só sabe quem já perdeu
Meus versos cantam saudade
Lembrando da mocidade
Passa o tempo, fico eu

 

Ver a porteira, a cangalha;
Tambor de leite no chão
No radio, ouvir Gonzagão
Cantando a sua Asa-branca
Um calendário com a santa
Na parede de sapê
Pra todos nós proteger
Debaixo da sua manta

 

O café forte e cheiroso
Antes de um dia pesado
Sentindo o cheiro do gado
Ouvindo o galo cantar
Não sei como fui parar
Tão longe dessa beleza
Deus criou, e a natureza
Não parou de me ofertar

 

Se um dia o tempo pensasse
Naquilo que ele levou
Medisse com tal rigor
Cada segundo roubado
Cada momento vedado
E a dor da separação
Pra sua reparação
Me levava pro passado

 

 

Me sentava na calçada
Me dava tudo igualzinho
Meus amigos, meus vizinhos
A minha história repleta
A estrada e a bicicleta
E a curva onde retornar
Pra nunca mais me afastar
Pois isso é que me completa

Autor: Antonio ROBSON Maciel AQUINO.

POESIA : A IMPLOSÃO DA MENTIRA – Affonso Romano de Santanna. – Colaboração de Carlos Henrique S Muniz.

A implosão da mentira

 

 

Affonso Romano de Santanna(*)

 

Fragmento 1

 

 

Mentiram-me. Mentiram-me ontem

e hoje mentem novamente. Mentem

de corpo e alma, completamente.

E mentem de maneira tão pungente

que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.

Não mentem tristes. Alegremente

mentem. Mentem tão nacional/mente

que acham que mentindo história afora

vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases

falam. E desfilam de tal modo nuas

que mesmo um cego pode ver

a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil

e para alguns é cara e escura.

Mas não se chega à verdade

pela mentira, nem à democracia

pela ditadura.

 

Fragmento 2

Evidente/mente a crer

nos que me mentem

uma flor nasceu em Hiroshima

e em Auschwitz havia um circo

permanente.

Mentem. Mentem caricatural-

mente.

Mentem como a careca

mente ao pente,

mentem como a dentadura

mente ao dente,

mentem como a carroça

à besta em frente,

mentem como a doença

ao doente,

mentem clara/mente

como o espelho transparente.

Mentem deslavadamente,

como nenhuma lavadeira mente

ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem

com a cara limpa e nas mãos

o sangue quente. Mentem

ardente/mente como um doente

em seus instantes de febre. Mentem

fabulosa/mente como o caçador que quer passar

gato por lebre. E nessa trilha de mentiras

a caça é que caça o caçador

com a armadilha.

E assim cada qual

mente industrial?mente,

mente partidária?mente,

mente incivil?mente,

mente tropical?mente,

mente incontinente?mente,

mente hereditária?mente,

mente, mente, mente.

E de tanto mentir tão brava/mente

constroem um país

de mentira

—diária/mente.

 

Fragmento 3

 

Mentem no passado. E no presente

passam a mentira a limpo. E no futuro

mentem novamente.

Mentem fazendo o sol girar

em torno à terra medieval/mente.

Por isto, desta vez, não é Galileu

quem mente.

mas o tribunal que o julga

herege/mente.

Mentem como se Colombo partindo

do Ocidente para o Oriente

pudesse descobrir de mentira

um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria,

viajando pelo avesso, iludindo a corrente

em curso, transformando a história do país

num acidente de percurso.

 

Fragmento 4

Tanta mentira assim industriada

me faz partir para o deserto

penitente/mente, ou me exilar

com Mozart musical/mente em harpas

e oboés, como um solista vegetal

que absorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem.

mesmo se têm um caçador à sua frente.

Penso nos pássaros

cuja verdade do canto nos toca

matinalmente.

Penso nas flores

cuja verdade das cores escorre no mel

silvestremente.

Penso no sol que morre diariamente

jorrando luz, embora

tenha a noite pela frente.

 

Fragmento 5

 

Página branca onde escrevo. Único espaço

de verdade que me resta. Onde transcrevo

o arroubo, a esperança, e onde tarde

ou cedo deposito meu espanto e medo.

Para tanta mentira só mesmo um poema

explosivo-conotativo

onde o advérbio e o adjetivo não mentem

ao substantivo

e a rima rebenta a frase

numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva

se não explode pra fora

pra dentro explode

implosiva.

 

(*) Afonso Romano de Santanna é membro da ABL – Academia Brasileira de Letras.

POESIA : Houve um tempo em que Millor dizia… – Por Robson Maciel Aquino.

Charge de Millor. (Homenagem do blog ao criador dos versos)

Assim diria Millor…

 

 

 

 

 

Já tentei, não consegui
Entender o que se passa
Depois da democracia
A coisa virou desgraça
Ninguém para no lugar
Partido é só pra “ficar”
Ideologia é graça

 

Foi-se o tempo em que a política
Era mais que eleição
Se defendia verdades
Com toda convicção
Eram muitos revoltados
Na luta contra os soldados
Em plena revolução

Pr’acabar com a ditadura
Foi às ruas a gente brava
Um movimento de luta
Dos partidos de vanguarda
Deu-se início ao processo
Para ocupar o Congresso
Tirando os homens de farda

Hoje é tudo diferente
Quem saiu voltou mudado
O exílio transformou
O herói em transviado
Quem se tinha como mito
Anda falando esquisito
Aceitando ser moldado

 

O PT abriu a cara
Perdeu seu tom social
Já fez privatização
Achando tudo legal
Fernando Henrique gostou
Foi na rádio e elogiou
A política nacional

A oposição transformou-se
Numa questão de momento
O lugar sempre é aquele
Do lado que sopra o vento
Afinal a roda gira
Hoje é alvo, amanhã mira
Não dá pra parar no tempo

Oh Brasil velho fudido
Só sabe quem sabe ver
De um lado, gente roubando
Do outro, gente a querer
Ladrão julgando ladrão
Tudo é contra e posição
Ninguém perde por perder

 

Aécio abraça Eduardo
Que beija Dilma e Lobão
Na terra do carnaval
Collor descola do chão
Atrás do bloco petista
Maluf, Serra conquista
Oh bosta sem solução

Continuando assim
Já sei onde vai parar
Só um partido mandando
E um monte que quer mandar
Mas enquanto não se manda
Concorda com a outra banda
Da bunda que vai cagar

Vou terminar isso aqui
Não me retrato a desfeita
Que fiz e faço a vontade
Com despesa ou com receita
Eu jogo azeite no forno
“Pois nessa terra de corno
Até esquerda é direita”.

Autor : Por Robson Maciel de Aquino. É poeta, cordelista, romancista e contador de causos.

POESIA/CORDEL : O HOMEM ENVELHECE… E SOFRE… – Por Marco Soares.

VELHICE MASCULINA

 

 

 

Cabeça careca
Dispensa os pentes
Nos olhos, uns óculos
Ou um par de lentes

 

Ouvidos não ouvem
Sem um aparelho
Mil rugas no rosto
Vê–se no espelho

Dentes não existem
Tem é dentadura
Pescoço enterrado
Minguando a altura

 

Outrora sarada
Tão linda e perfeita
A barriga flácida
Nos joelhos peita

As pernas fraquinhas
Tentam caminhar
Mas apenas se arrastam
Ao invés de andar

 

E a peia, coitada!
Antes brava e tão forte
Tá mais para o sul
Do que para o norte

Decerto é triste
Grande a frustração
Chegar ao ponto
De não ter mais tesão

 

Mas como a cabeça [de cima]
Não se lembra de nada
Disso não se dá conta
Fica sossegada

É puro milagre
Melhor: perfeição
D’Aquele que fez
Toda criação.

 

 

TESTE:

Esta composição é de:
a) Robson Aquino
b) Jessier Quirino
c) João Roberto
d) Zé Limeira
e) Outro autor